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O SNS pode liderar a Inteligência Artificial na Europa. Mas continua a impedir-se a si próprio.

Temos, em suma, todas as condições para nos tornarmos um caso de referência europeia na adopção de Inteligência Artificial em saúde pública e sobretudo no nosso SNS. E continuamos, sistematicamente, a não o fazer.

Portugal tem um paradoxo que me ocupa há algum tempo. Temos um sistema de saúde universal com cobertura nacional, décadas de dados clínicos acumulados, investigação académica de qualidade e um ecossistema tecnológico que cresceu o suficiente para ser um parceiro sério do Estado. Temos, em suma, todas as condições para nos tornarmos um caso de referência europeia na adopção de Inteligência Artificial em saúde pública e sobretudo no nosso SNS. E continuamos, sistematicamente, a não o fazer. Não por falta de capacidade. Por escolha, mera escolha, ainda que raramente assumida como tal.

Numa unidade de saúde familiar, um médico de família passa em média duas horas por dia a preencher campos administrativos, a codificar diagnósticos, a produzir documentação que o sistema exige mas que nenhum doente alguma vez pediu. Duas horas. Por dia. Num sistema de saúde com falta crónica de médicos, que tem centenas de milhares de utentes sem médico atribuído, que adia consultas por meses. Existe tecnologia disponível hoje — já testada em contexto clínico real, com níveis de precisão demonstrados — que automatiza grande parte deste trabalho. Não é promessa. É software que funciona. E os profissionais de saúde que conheço querem-no. Genuinamente. O que falta não é vontade, é a decisão que desbloqueia.

Porque este exemplo não é excepcional. É representativo de um padrão que se repete por todo o SNS: a tecnologia existe, os casos de uso estão identificados, as provas de conceito foram feitas… e depois nada escala. O projecto fecha. A equipa dispersa. O conhecimento acumulado perde-se. E passado um ano, noutro hospital, noutro ministério, alguém recomeça exactamente o mesmo projecto do zero, como se o anterior nunca tivesse existido. Começamos a ser muitos aqueles que chamam a isto a cultura do piloto eterno. É cara, é desmotivante para quem inova e é, no fundo, uma forma elegante de parecer moderno sem ter de mudar nada de estrutural.

O contraste com outros sistemas de saúde não é confortável e é necessário fazê-lo. No NHS britânico, um programa de leitura assistida por inteligência artificial em radiologia torácica reduziu de forma significativa o tempo de sinalização de casos suspeitos e está hoje implementado em escala nacional, com estratégia clara, não num único hospital escolhido para uma apresentação de conferência. A diferença entre esse exemplo e o que acontece em Portugal não está na qualidade da tecnologia disponível nem na competência dos profissionais. Está na existência de uma cadeia de decisão clara, com responsabilidade atribuída, orçamento dedicado e mandato real para escalar o que funciona. É uma diferença de estilos de governação. Não de talento.

A tecnologia existe, os casos de uso estão identificados, as provas de conceito foram feitas… e depois nada escala. O projecto fecha. A equipa dispersa. O conhecimento acumulado perde-se. E passado um ano, noutro hospital, noutro ministério, alguém recomeça exactamente o mesmo projecto do zero, como se o anterior nunca tivesse existido.

E é aqui que importa ser justo. Conheço decisores hospitalares que querem, com genuína determinação, adoptar soluções novas que resolvam problemas reais. Conheço equipas clínicas que testaram tecnologia, viram resultados, e ficaram à espera de uma autorização que nunca chegou. Conheço empresas portuguesas a desenvolver soluções com impacto clínico demonstrável e que são mais facilmente contratadas em mercados externos do que no seu próprio país. O problema não é a falta de vontade das pessoas. É a ausência de uma estrutura que transforme essa vontade em decisão e essa decisão em escala.

O que falta não é uma nova estratégia, nós temos a Agenda Nacional de Inteligência Artificial aprovada em Conselho de Ministros. Não é financiamento, porque nós temos fundos europeus disponíveis e liberdade para apoiar a fase inicial de pilotos. Não é tecnologia, ui, essa já existe, já foi testada, já provou o seu valor. O que falta é alguém que decida, com autoridade real e responsabilidade real, que desta vez se escala. Que os dados clínicos do SNS — um activo estratégico de valor incalculável, hoje aprisionado em silos que não comunicam entre si — passam a estar disponíveis para treinar e validar sistemas de apoio à decisão clínica. Que a contratação pública de tecnologia deixa de funcionar como se estivesse a comprar mobiliário de escritório e passa a funcionar como parceria de inovação, com objectivos de desempenho, transferência de conhecimento e métricas de impacto definidas à partida. E isto não é sobre partidos. É sobre vontades e sobre a coragem de as transformar em acção.

Os melhores exemplos internacionais de adopção de inteligência artificial em saúde pública não resultaram de um ministério que comprou uma solução a uma empresa. Resultaram de co-criação real, onde o sistema de saúde trouxe os dados, os profissionais e o contexto clínico, e as empresas trouxeram a tecnologia, a agilidade e a capacidade de cooperar depressa.

Esta mudança exige que alguém assuma, com nome e cargo, que o modelo actual tem um custo que é medido em diagnósticos tardios, em profissionais esgotados, em doentes que esperam mais do que deviam. A responsabilidade não pode ficar dispersa entre ministérios, agências e grupos de trabalho que se reúnem regularmente sem poder de decisão real. Coordenação sem autoridade não é liderança. É gestão de aparências. Mas acredito — e digo-o com convicção, não por cortesia — que há em Portugal pessoas com capacidade e vontade para mudar isto. Nos hospitais, nas empresas, nas universidades, nos próprios organismos do Estado e em quem promove boas iniciativas. 

Os melhores exemplos internacionais de adopção de inteligência artificial em saúde pública não resultaram de um ministério que comprou uma solução a uma empresa. Resultaram de co-criação real, onde o sistema de saúde trouxe os dados, os profissionais e o contexto clínico, e as empresas trouxeram a tecnologia, a agilidade e a capacidade de cooperar depressa. Portugal tem exactamente essas duas metades. Tem hospitais e profissionais com vontade real de mudar. Tem empresas com soluções prontas a entrar numa estratégia nacional com escala. O que falta é uni-las com seriedade, com estrutura e com o compromisso de que desta vez o projecto não fecha quando acaba o financiamento inicial.

Portugal está, neste momento, numa janela que não é infinita. A regulação europeia de inteligência artificial está a ser definida agora. Os grandes contratos de transformação digital dos sistemas de saúde europeus estão a ser negociados agora. As empresas que vão liderar este mercado na próxima década estão a ganhar escala e credibilidade agora. Quem não estiver presente nesta fase vai, mais tarde, comprar soluções desenvolvidas por outros, com regras definidas por outros, numa dependência que será difícil de reverter.

O SNS tem dados únicos, profissionais competentes e um contexto clínico que pode ser, ele próprio, um laboratório de referência com relevância europeia. As condições estão reunidas. As pessoas estão prontas. A questão já não é se temos capacidade para liderar.

A questão é se temos coragem para decidir.