Em 18 meses, o Banco Português de Fomento já colocou mais de 10 mil milhões de euros nas empresas portuguesas
por Miguel Magalhães (Texto) | 28 de Maio, 2026
Na terceira edição das “Conversas com Fomento”, que decorreu em Leiria, Gonçalo Regalado, CEO do banco soberano de Portugal, partilhou os principais resultados alcançados até ao final de 2025.
Há ano e meio, o Banco Português de Fomento (BPF) era uma instituição pouco conhecida fora dos círculos empresariais e financeiros, mas hoje, é um dos instrumentos-chave da política económica do Estado português. Resumidamente, opera com três mecanismos essenciais: garantias de crédito (que tornam o financiamento bancário mais acessível e barato para as empresas), subvenções (apoios a fundo perdido, sem obrigação de reembolso, cofinanciados sobretudo por fundos europeus) e capital (investimento direto em empresas com potencial de crescimento).
Esta quinta-feira, Gonçalo Regalado, CEO do BPF, subiu ao palco do Pavilhão Carlos Neto, em Leiria, para apresentar os principais indicadores de impacto do banco nos últimos 18 meses: mais de 10 mil milhões de euros colocados em 32 mil empresas.
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Portugal sobe no ranking europeu
O indicador mais simbólico da sessão foi o impacto no PIB: o BPF passou a representar 2,2% do Produto Interno Bruto português em 2025, o que lhe valeu uma subida do 16.º para o 5.º lugar no ranking europeu de bancos de fomento. Trata-se de um salto sem precedente para uma instituição com apenas cinco anos de existência.
O grosso da atividade do banco concentra-se nas garantias de crédito: 8,6 mil milhões de euros mobilizados em cerca de 30 mil operações. O impacto é mensurável no custo do crédito: os contratos com garantia pública têm uma taxa de juro média de 3%, contra 3,8% nos novos empréstimos sem essa garantia, uma diferença de 0,8 pontos percentuais que, a esta escala, representa poupanças significativas para as empresas.
“Financiamento mais barato, mais longo, mais seguro e com menos colaterais”, resumiu Regalado. A expressão “menos colaterais” é relevante: num empréstimo tradicional, o banco exige garantias reais (imóveis, equipamentos) para se proteger em caso de incumprimento. Com a garantia pública do BPF, essa exigência diminui, libertando ativos das empresas para outros fins.
Hoje, dois terços dos financiamentos a médio prazo e um terço dos financiamentos a longo prazo já incluem garantia do Banco de Fomento, o que indica uma penetração crescente no tecido financeiro nacional.
- Um dado que passou quase despercebido: os processos de contratação passaram de 49 dias para 5 dias. Para uma empresa em necessidade urgente de liquidez ou a preparar um investimento, a diferença entre esperar sete semanas ou cinco dias pode ser determinante.
Investimento e capital: apostar nas empresas de futuro
O BPF investiu 750 milhões de euros em capital em 200 empresas. Este instrumento distingue-se do crédito: em vez de emprestar dinheiro que terá de ser devolvido com juros, o banco entra como co-investidor no capital das empresas, partilhando o risco, mas também o potencial de valorização.
O investimento total em projetos apoiados pelo banco totalizou 4,3 mil milhões de euros, incluindo o efeito de alavancagem, isto é, cada euro público atraiu investimento privado adicional.
Foram também atribuídas subvenções no valor de mil milhões de euros a cerca de 1.700 empresas. São tipicamente cofinanciadas por fundos europeus como o PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) e destinam-se a atividades que o mercado, por si, não financiaria ao mesmo ritmo: investigação e desenvolvimento, digitalização, reindustrialização.

O Sinal Macroeconómico: os depósitos superam o crédito pela primeira vez em 45 anos
Um dos dados mais reveladores da sessão foi de natureza macroeconómica: pela primeira vez em 45 anos, os depósitos empresariais em Portugal superam o crédito empresarial – 77 mil milhões de euros em depósitos contra 75 mil milhões em créditos.
Este desequilíbrio levanta uma questão crítica: se as empresas portuguesas têm mais liquidez do que dívida, por que não investem? A resposta aponta para fatores como a incerteza, o custo e a complexidade do acesso ao financiamento de longo prazo, e a ausência de instrumentos adequados para projetos de maior risco. É precisamente aqui que o BPF pretende intervir, convertendo poupança estagnada em investimento produtivo.
A Visão até 2028
Regalado não ficou pelos resultados passados. A ambição para os próximos três anos é de outra escala:
- Garantias de crédito: Mobilizar 30 mil milhões de euros em garantias para PMEs, atingindo um impacto de 10% no PIB. Para o efeito, serão lançadas novas linhas como a BPF Invest EU (inovação e digitalização em PMEs e midcaps) e a BPF Invest Export (expansão e internacionalização).
- Subvenções: Mobilizar 1,5 mil milhões de euros, incluindo linhas do PRR IFIC focadas, entre outros objetivos, na integração de inteligência artificial nas PMEs portuguesas.
- Capital: Mobilizar 2,5 mil milhões de euros para coinvestir em inovação e crescimento, através da criação de um Fundo de Fundos que representará 1% do PIB e apoiará entre 600 e 800 empresas. O modelo aproveita os benefícios fiscais e de estrutura do venture capital para atrair investidores privados nacionais e internacionais para empresas portuguesas em crescimento.
- Projetos estruturantes: Financiar 3,6 mil milhões de euros em infraestruturas de relevância nacional, com destaque para as gigafactories de inteligência artificial — centros de dados de grande escala que constituem a infraestrutura física da economia digital.