Big Pharma e Big Tech de mãos dadas. Eis porquê
por Marta Amaral | 29 de Maio, 2026
Em abril, a Novo Nordisk, fabricante dos populares medicamentos Ozempic e Wegovy, anunciou uma parceria estratégica com a OpenAI para integrar inteligência artificial em várias áreas do negócio, desde a descoberta de medicamentos até à produção e operações internas.
O anúncio não foi um caso isolado. Nos últimos dois anos, algumas das maiores farmacêuticas do mundo assinaram acordos com empresas tecnológicas e startups de inteligência artificial numa corrida para acelerar a inovação, reduzir custos e aumentar a produtividade.
- Porque está a acontecer agora? A resposta começa com um problema antigo da indústria farmacêutica. Desenvolver um novo medicamento é um processo longo, caro e extremamente arriscado. Entre a investigação inicial e a chegada ao mercado podem decorrer mais de dez anos. Os custos ultrapassam frequentemente os milhares de milhões de euros e a esmagadora maioria das moléculas estudadas nunca chega a transformar-se num produto comercializável.
Ao mesmo tempo, as farmacêuticas enfrentam uma pressão crescente para desenvolver tratamentos mais rapidamente, responder ao envelhecimento da população e compensar a perda de receitas provocada pela expiração de patentes.
A inteligência artificial consegue analisar quantidades gigantescas de informação biomédica, identificar padrões invisíveis para os investigadores e sugerir moléculas com potencial terapêutico. Em vez de testar milhões de compostos de forma quase artesanal, os cientistas podem utilizar algoritmos para reduzir drasticamente o universo de possibilidades.
- O que muda? Descobrem medicamentos mais depressa, com menos custos e menor desperdício de recursos.
Embora a descoberta de medicamentos continue a ser a aplicação mais mediática, a inteligência artificial está a expandir-se rapidamente para outras áreas do setor. As farmacêuticas utilizam IA para analisar ensaios clínicos, identificar candidatos para estudos, automatizar documentação regulatória e apoiar investigadores na interpretação de grandes volumes de informação científica. Algumas empresas recorrem também à tecnologia para otimizar processos de fabrico e melhorar a eficiência operacional.
Com a chegada da IA generativa, começaram ainda a surgir ferramentas semelhantes ao ChatGPT capazes de ajudar equipas científicas a navegar milhões de artigos académicos, resumir investigação e produzir relatórios técnicos.
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É um win-win
- O que ganham as tecnológicas? Se as farmacêuticas procuram eficiência, as empresas tecnológicas procuram um novo mercado. Depois de conquistarem áreas como o comércio eletrónico, a publicidade digital e o software empresarial, gigantes como Google, Microsoft, Amazon e OpenAI estão a apostar fortemente na saúde, um setor que movimenta biliões de dólares por ano e gera enormes quantidades de dados.
- O que oferece a saúde? Problemas complexos, grandes volumes de informação e necessidade de elevada capacidade computacional. Por isso, em vez de competirem diretamente com as farmacêuticas, as tecnológicas estão a posicionar-se como fornecedoras de infraestrutura, plataformas de IA e capacidade de processamento.
O resultado é uma aproximação sem precedentes entre dois setores que, até há poucos anos, operavam em universos praticamente separados. O que está a acontecer é mais do que uma sucessão de parcerias. Trata-se de uma convergência entre duas das indústrias mais poderosas do mundo: a farmacêutica e a tecnológica.
As parcerias que mostram a dimensão da tendência
- Novo Nordisk × OpenAI — Utilização de inteligência artificial em várias áreas da organização, incluindo investigação científica, desenvolvimento de medicamentos, produção e operações internas.
- Sanofi × Formation Bio × OpenAI — Parceria estratégica para aplicar inteligência artificial ao desenvolvimento de novos medicamentos, acelerando a investigação, os ensaios clínicos e o lançamento de novos tratamentos.
- Merck × Google Cloud — Colaboração focada na aplicação de IA à análise de dados, investigação biomédica e processos regulatórios.
- Novartis e Eli Lilly × Isomorphic Labs — Acordos para utilizar inteligência artificial na descoberta de medicamentos através de tecnologias derivadas do AlphaFold, sistema que revolucionou a biologia ao prever com elevada precisão a estrutura tridimensional das proteínas.
Paralelamente, farmacêuticas como Roche, Pfizer, Bayer e Bristol Myers Squibb têm vindo a assinar acordos com startups especializadas em IA, numa tentativa de acelerar a investigação e aumentar a probabilidade de sucesso dos seus projetos.
Um dos setores mais regulados do mundo
O entusiasmo em torno destas tecnologias não elimina os riscos. A saúde continua a ser um dos setores mais regulados do mundo, e a utilização de inteligência artificial levanta questões relacionadas com privacidade, segurança, transparência e validação científica.
- Risco de dependência: À medida que Google, Microsoft, Amazon e OpenAI se tornam fornecedores essenciais de infraestrutura e modelos de IA, as farmacêuticas podem ver-se cada vez mais dependentes de tecnologias desenvolvidas por terceiros. Além disso, continua por provar até que ponto a inteligência artificial conseguirá cumprir todas as promessas feitas pelos seus defensores.
Apesar das incertezas, poucos analistas acreditam que esta tendência seja passageira. As farmacêuticas precisam de acelerar a inovação e reduzir custos; as tecnológicas procuram novas áreas de crescimento para os seus modelos de inteligência artificial. Os incentivos económicos de ambos os lados estão alinhados.