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Maravalley quer ser a porta de entrada do Rio de Janeiro para quem vem da Europa (e leva dez startups a Lisboa)

por Miguel Magalhães (Texto) | 21 de Outubro, 2026

Instalado no Porto Maravilha, o Maravalley recebe cerca de duas mil pessoas por mês e já tem 150 empresas residentes. Em novembro, leva dez startups cariocas ao Web Summit Lisboa, na segunda edição de uma missão que quer provar que o caminho entre o Rio e a Europa também se faz no sentido inverso.

O Maravalley não gosta de ser descrito como um espaço de cowork. Na zona portuária do Rio de Janeiro, o hub de tecnologia e inovação junta startups, grandes empresas, investidores, universidades e instituições públicas num mesmo edifício, com uma ideia simples: criar o ambiente com as competências certas para criar e escalar negócios.

Desde o arranque, o Maravalley ampliou a atuação para lá da oferta de secretárias. Hoje funciona como uma plataforma de networking e de inovação aberta, com acesso a oportunidades nacionais e internacionais. Em números:

  • 150 empresas residentes;
  • cerca de 2 mil pessoas por mês a passar pelo espaço, em contextos diversos;
  • um edifício com 10 mil metros quadrados, restaurante e cerca de 300 alunos.

Além disto, organiza regularmente conferências, workshops, masterclasses e outros programas que aproximam startups de desafios reais de grandes empresas. Publica ainda estudos de mercado, como o Mapa de Data Centers do Brasil.

Daniel Barros, CEO do Maravalley, descreve o espaço como um “festival permanente” ao longo do ano e defende que o contacto físico continua a ser decisivo. “Acreditamos muito no presencial. As relações acontecem fisicamente, pelo menos nos primeiros momentos, e esse momento de encontro é muito importante.”

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Um Rio com vocações antigas e uma nova

O Rio de Janeiro é o segundo pólo económico do Brasil, mas São Paulo continua a ser o grande centro. “Mas tem algumas indústrias que, historicamente, são aqui”, sublinha o CEO.

A principal é o petróleo e gás, hoje com o chapéu mais alargado da energia: todas as grandes empresas do setor têm sede na cidade. A esta soma-se o turismo, os grandes eventos e uma densidade populacional que alimenta redes de saúde e de ensino, públicas e privadas. Há ainda a Fiocruz, apontada como o maior centro de investigação em saúde da América Latina.

O setor financeiro é outra marca. “O centro financeiro do Brasil é São Paulo, mas, historicamente, muitos negócios de várias gerações do mundo financeiro nasceram no Rio. E continuam a nascer.” O exemplo dado é o BTG, um dos maiores bancos brasileiros, com origem na cidade.

Para o Maravalley, a estratégia passa por olhar para as vocações históricas e para as emergentes. “Talvez a grande, hoje, seja a IA e os data centers, tanto na infraestrutura como nas soluções”, diz Daniel Barros. A cidade posiciona-se nesse sentido e o hub acompanha: é no último ano e meio que, segundo o CEO, mais projetos têm surgido nesta área.

Casos que já nasceram no Rio

Daniel Barros é o primeiro a admitir que ainda não há um unicórnio com selo Maravalley. “Não temos um unicórnio que tenha nascido aqui, mas em dois anos já temos alguns exemplos de coisas que vimos nascer ou que ajudámos a acelerar.”

O caso que mais destaca é o da Dharma AI, empresa de IA que nasceu no hub, com sede e registo fiscal no Rio. Faz parte do programa da AWS e entrou há pouco no da Google, num grupo restrito de empresas na América Latina. Já aqui escrevemos sobre a ESGreen, outra empresa da comunidade.

Há também a Delta Entech, que trata água. Nasceu no mundo académico, passou pela Missão Lisboa do ano passado e está agora a montar a planta-piloto para servir clientes maiores. Há ainda negócios que nasceram apenas porque as pessoas se conheceram no ecossistema.

É com este histórico que o Maravalley e a Invest.Rio, a agência de promoção e atração de investimentos da cidade, regressam a Lisboa de 8 a 12 de novembro, durante o Web Summit. Há um ano, levaram dez startups ao evento. Desta vez, a delegação oficial volta a ter dez: Mobile Brain, sheerME, Paralelo.app, Predator Sports & Health, Embeddo, Lucca, Bizuu, Ray Pay, ATLANTICIT e AllPetSenior.

Daniel Barros, CEO do Maravalley | Créditos: Maravalley

A missão tem dois grupos. Um é o das startups selecionadas, com preparação prévia e mentorias. O outro está aberto a empresas e executivos que queiram integrar a comitiva, com curadoria de conteúdo. Entre estes, vão uma empresa do mercado financeiro, uma de operação portuária e a Oracle Brasil. O trabalho do Maravalley é perceber o que cada um procura e ajudar a abrir portas.

Fora do recinto, há agenda própria de side-events. No ano passado, o grupo passou pelo Hub Criativo do Beato e pela Unicorn Factory; este ano, a lista inclui um evento da Startup Portugal e outro da Câmara Municipal de Lisboa.

Para as startups, o objetivo nem sempre é fechar negócio. “Muita gente vai para validar a tese. Não é só ter um cliente ou um investidor: é validar o produto num mercado mais maduro”, explica Daniel Barros. Ainda assim, houve contactos com investidores e potenciais parceiros, e o CEO recorda conversas com empresas portuguesas depois da edição de 2025, entre as quais, se bem se lembra, a EDP.

Do Rio para Lisboa, e de Lisboa para o Rio

A estratégia internacional do Maravalley, que inclui relações com consulados, agências de investimento e outros hubs, funciona nos dois sentidos. Além de apoiar empresas brasileiras que querem sair, o hub pode servir de soft landing para quem chega, com acesso à comunidade, infraestrutura para apresentações e condições para testar soluções junto de parceiros locais.

“Podemos ser a porta de entrada”, defende o CEO. “Podes abrir o teu escritório aqui muito depressa, ligar-te a pessoas e apresentar a tua solução com muita velocidade.”

O argumento para as empresas portuguesas é o tamanho. O mercado brasileiro é muito maior e, para Daniel Barros, “talvez uma zona menos sangrenta de competição” do que a Europa. A língua ajuda, a cultura também: uma empresa portuguesa que vá para a Alemanha encontra outra língua e outro clima. Aqui, apesar de “o Atlântico no meio do caminho”, as barreiras são menores. Os casos de empresas portuguesas a fazer o percurso inverso ainda são poucos, mas o CEO vê nos dois Web Summit um momento natural de ligação.

O que vem em 2027

A agenda do Maravalley já está desenhada. O hub criou a Maravalley Week, uma semana de conteúdo e imersões em torno do Web Summit Rio (em junho), que termina com uma grande festa de encerramento. Em 2027, a fórmula repete-se, em ponto maior.

Há duas novidades em preparação. A primeira é transformar o edifício numa vitrine de tecnologia, onde soluções possam ser aplicadas no dia-a-dia do espaço e exibidas a quem o visita. “É quase como um showroom de várias soluções”, descreve Daniel Barros. A segunda é trazer formação para dentro de portas, com programas dedicados não apenas ao empreendedorismo, mas sobretudo à tecnologia.

Sem unicórnios para mostrar, o Maravalley aposta no que já tem: uma comunidade ativa o ano inteiro, um Rio com vocações bem definidas e uma ponte com Lisboa que, ano após ano, começa a ter tráfego nos dois sentidos.