O Espaço já não é só para “os Grandes” e Coimbra quer ser o polo português
por Miguel Magalhães (Texto) | 21 de Maio, 2026
André Guerra da OpenCosmos e Filipe Castanheira da Active Space Technologies explicam como a cidade está a construir um ecossistema de referência, um dos tópicos em destaque na próxima edição do Startup Capital Summit.
Há uma ideia instalada no imaginário coletivo de que o espaço é um negócio para superpotências: uma arena reservada à NASA, à ESA, e aos bolsos fundos de Elon Musk. Em Coimbra, duas empresas estão a trabalhar, de formas complementares, para provar que esse paradigma está desatualizado.
A OpenCosmos, multinacional britânica com raízes em 2015, e a Active Space Technologies, startup conimbricense com mais de duas décadas de história, vão estar presentes no Startup Capital Summit no dia 3 de junho de 2026. As suas histórias, cruzadas pelo mesmo ecossistema local, revelam um argumento crescente: Portugal, e Coimbra em particular, tem condições reais para se tornar uma referência europeia no setor espacial.
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De Londres para o Mondego
A OpenCosmos nasceu no Reino Unido com uma visão clara. André Guerra, responsável de I&D e Inovação da empresa, resume o seu propósito com a simplicidade de quem já explicou isto muitas vezes: “é pensar os problemas de fora para dentro e tentar ajudar a humanidade a tentar resolver esses problemas.”
Os exemplos concretos são bem terrestres, por mais paradoxal que isso possa parecer. Desde garantir conectividade em zonas remotas sem cobertura de rede, permitindo que caminheiros ou equipas de socorro enviem a sua localização, até fornecer dados em tempo real sobre o avanço de incêndios florestais para apoiar os bombeiros no terreno.
A chegada a Coimbra não foi acidental. A OpenCosmos identificou em Portugal um mercado interno dinâmico, recursos humanos capazes e instituições com competências relevantes. Quando decidiu onde instalar-se, Coimbra emergiu como um dos polos naturais do país. A relação aprofundou-se com a aquisição da Simply Connected, a empresa cofundada por André Guerra, focada em soluções de conectividade via satélite com uma premissa engenhosa: em vez de lançar novos satélites, desenvolver tecnologia capaz de viajar a bordo dos satélites de terceiros.
“Era mais eficiente economicamente e também aproveitava as capacidades que já estavam a ser lançadas para ter mais um serviço adicional, em vez de estarmos aqui a tentar lançar milhões de satélites e criar imenso lixo espacial”, explica.
STARTUP CAPITAL SUMMIT 2026
Incrições para o evento podem ser feitas gratuitamente aqui
Vinte e dois anos de engenharia para o cosmos
Se a OpenCosmos representa a chegada de capital e ambição internacional a Coimbra, a Active Space Technologies conta uma história diferente — a de quem cresceu aqui, desde dentro.
Filipe Castanheira, que integra a empresa há uma década, recorda as origens: a empresa nasceu como startup, incubada no Instituto Pedro Nunes, numa altura em que falar de espaço em Portugal era, nas suas próprias palavras, quase esotérico. Hoje, a Active Space executa aproximadamente 100 mil horas de engenharia espacial por ano, um número que, acumulado ao longo de duas décadas, coloca a empresa perto da marca dos 2,5 milhões de horas totais.
O portefólio fala por si. A empresa participou no desenvolvimento de uma das antenas principais do satélite da missão às Luas de Júpiter, desenvolveu a plataforma de voo completa do Arctic Weather Satellite, e integra hoje as cadeias de abastecimento de parceiros de NewSpace — o universo de empresas privadas, como Starlink, Kuiper (Amazon) ou OneWeb, que estão a democratizar o acesso ao espaço.
“Não foi fácil entrarmos neste tipo de mercado, mas hoje em dia estamos consolidadamente a bordo dessas cadeias de abastecimento, e a trabalhar a bom ritmo”, conta.
Há 20 anos atrás era completamente diferente. Era efetivamente quase esotérico falar de espaço.
Filipe Castanheira, Diretor Geral da Active Space Technologies

A um passo do utilizador comum
André Guerra identifica o grande salto que ainda está por dar no setor e não é tecnológico, é de alcance. A tecnologia espacial continua a ser, na prática, privilégio das grandes entidades que conseguem pagar por ela e interpretar os seus dados. O utilizador comum — o pequeno agricultor, o pescador, o gestor de uma pequena propriedade — fica de fora.
“Nós queremos que o dado de observação terrestre, o dado de um sensor IoT no terreno, chegue à pessoa que está no terreno. […] É fazer essa informação ser transparente o suficiente para o utilizador chegar lá e perceber e dizer ok, eu posso utilizar isto para este propósito”, partilha.
A visão inclui um papel ativo para os governos: comprar dados espaciais e disponibilizá-los de forma acessível e interpretável para toda a população, em vez de simplesmente exportar imagens brutas ou metadados que a maioria não sabe usar.
O polo que ainda se está a construir
Filipe Castanheira enumera com clareza o que torna Coimbra uma aposta credível: a Universidade de Coimbra, com um curso de engenharia aeroespacial a arrancar em 2026/27, o Politécnico de Coimbra (IPC), o IPN com a incubadora da Agência Espacial Europeia, e empresas de referência como a Active Space Technologies, a Critical Software e a própria Open Cosmos. A isso juntam-se variáveis de qualidade de vida — segurança, saúde, habitação, oferta académica para filhos — que pesam quando se quer atrair talento internacional.
Mas Castanheira não disfarça o principal desafio: a dificuldade de o ecossistema funcionar como um todo coeso, em vez de cada actor jogar individualmente.
“Temos de agregar valor, temos de juntar todas as forças vivas da cidade e conseguirmos divulgar esta proposta de valor a quem nos aborda.”, acrescenta.
André Guerra partilha o diagnóstico, com um otimismo cauteloso. Reconhece a burocracia como entrave real, mas aposta na ideia de que Coimbra pode ser o exemplo de que colaboração entre polos (e não rivalidade) é o caminho. “A OpenCosmos está em dois desses polos e acredita que Coimbra está a crescer. E Coimbra pode trazer a dinâmica que é necessária para toda a gente perceber: ok, se calhar, se nós criarmos aqui uma dinâmica conjunta, podemos fazer mais.”
O setor espacial deixou de ser território exclusivo de agências governamentais e nações com orçamentos astronómicos. Em Coimbra, entre constelações de satélites e horas de engenharia acumuladas ao longo de duas décadas, começa a tomar forma um argumento difícil de ignorar: Portugal pode ter um lugar próprio nesta corrida e a cidade do Mondego parece determinada a liderá-la.
O Startup Capital Summit acontece no próximo dia 3 de junho em Coimbra e as inscrições podem ser feitas gratuitamente aqui. O The Next Big Idea é parceiro de media oficial do evento.