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Como é que a indústria do tabaco se está a preparar para um mundo sem cigarros?

por Gabriel Lagoa | 26 de Janeiro, 2026

Na maior feira mundial do tabaco, em Dortmund, os cigarros quase desapareceram. Vapes, bolsas de nicotina e novos dispositivos dominam a estratégia das grandes marcas.

Na feira Intertabac, em Dortmund, Alemanha, os cigarros tornaram-se raros. O evento, que junta mais de 800 expositores de 70 países, continua a ser o principal ponto de encontro da indústria do tabaco, mas o centro de gravidade mudou. Em vez de maços e cinzeiros, dominam os dispositivos eletrónicos, o tabaco aquecido e as bolsas de nicotina. 

Conta a Monocle que a British American Tobacco apresentou um stand com o lema “construir um mundo sem fumo” e mostrou um cigarro eletrónico ligado a uma aplicação que regista cada inalação e permite limitar o consumo. Ao lado, a Philip Morris International exibiu a nova versão do Iqos, com ecrã tátil e modo de pausa. A empresa diz ter investido cerca de 14 mil milhões de dólares no desenvolvimento destes produtos e afirma que pretende obter mais de dois terços das suas receitas em alternativas aos cigarros até 2030.

Apesar do discurso, as vendas de cigarros continuam a financiar grande parte desta transição. A própria Philip Morris admite não ter planos para abandonar o produto tradicional. O argumento é simples: sair agora do mercado significaria perder quota para concorrentes sem reduzir o número total de fumadores.

A mudança é também defensiva. Com impostos mais altos e restrições crescentes na Europa, as grandes marcas enfrentam concorrência de fabricantes chineses de vapes descartáveis, como a Elfbar, populares pelos sabores. Alguns países já proibiram os líquidos aromatizados. Ainda assim, há quem defenda que esses sabores ajudam os fumadores adultos a mudar de produto, embora sejam também um dos principais fatores de atração entre adolescentes.

Nos bastidores, a feira funciona como sala de estratégia. Executivos e lobistas discutem diretivas europeias, possíveis proibições de filtros por razões ambientais e o impacto de um futuro tratado internacional sobre plásticos. Associações alemãs alertaram ainda para aumentos fiscais, como a proposta de subir fortemente o imposto sobre charutos.

Mesmo assim, os cigarros não desapareceram. Marcas da Coreia do Sul e da Europa de Leste anunciaram expansão para novos mercados, sobretudo em África e na Ásia-Pacífico, onde o consumo continua a crescer.

O “futuro sem fumo” é apresentado como inevitável. Mas, pelo que se viu em Dortmund, trata-se menos de um ponto final e mais de uma mudança de forma: menos combustão, mais tecnologia.

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