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Chegg. Será esta empresa a primeira vítima da inteligência artificial?

por Gabriel Lagoa | 30 de Abril, 2026

A empresa valia 14 mil milhões de dólares. Hoje vale menos de 200 milhões. O que correu mal?

Em fevereiro de 2021, as ações da Chegg chegaram aos 115 dólares. A empresa norte-americana de tecnologia educativa tinha uma capitalização bolsista de 14,7 mil milhões de dólares, surfava a onda da pandemia e parecia destinada a crescer ainda mais. Quatro anos depois, as ações valem cerca de um dólar.

O que aconteceu? Em resumo: o ChatGPT

A Chegg vendia acesso a respostas para trabalhos de casa. O modelo, hoje considerado obsoleto, consistia em contratar pessoas na Índia para resolver exercícios por entre 15 e 30 dólares a resposta, arquivar essas soluções e cobrar 19,95 dólares mensais aos estudantes. Quando a inteligência artificial generativa se tornou acessível a qualquer pessoa, esse modelo deixou de fazer sentido de um dia para o outro. Os estudantes passaram a ter respostas instantâneas, gratuitas e cada vez mais precisas, sem precisar de pagar nada. 

Desde o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, a Chegg perdeu mais de 500 mil subscritores, segundo a Forbes. A revista acrescenta que em 2024, 62% dos estudantes norte-americanos planeavam usar o ChatGPT e apenas 30% consideravam usar a Chegg. O tráfego não pago, historicamente o motor de crescimento da empresa e alimentado por pesquisas no Google, caiu 49% só em janeiro de 2025.

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A empresa tentou reagir. Lançou o CheggMate, uma interface construída por cima de modelos de IA já existentes. Experimentou modelos proprietários. Criou o “Solution Scout”. Nada parece ter funcionado. 

Entretanto, os despedimentos foram-se acumulando. Em maio de 2025, a empresa dispensou 22% dos trabalhadores. Em outubro do mesmo ano, mais 45%, cerca de 388 pessoas, com a administração a citar as “novas realidades da IA” como justificação. No total, desde junho de 2024, foram eliminados 1.396 postos de trabalho.

Quando o Google deixou de enviar tráfego

Ao mesmo tempo, o Google tornou o problema ainda mais agudo. Os seus AI Overviews, os resumos gerados por IA que aparecem no topo dos resultados de pesquisa, retêm os utilizadores na plataforma em vez de os enviar para sites como o da Chegg. A empresa chegou mesmo a processar a Google por isso.

Há, no entanto, uma tábua de salvação. A Chegg é dona da Busuu, uma plataforma de aprendizagem de línguas adquirida em 2022 por 436 milhões de dólares, com receitas a crescer e clientes empresariais como a Total Energy e o Carrefour. Alguns analistas citados pela Forbes estimam que a Busuu, por si só, vale mais do que toda a capitalização atual da Chegg. A empresa tem ainda cerca de 95 milhões de dólares em caixa e está a tentar reposicionar-se no mercado empresarial de formação profissional, um setor avaliado em mais de 40 mil milhões de dólares, segundo a Fox Business.

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