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Por que é que as tecnológicas estão a despedir milhares enquanto investem milhões em IA?

por Gabriel Lagoa | 29 de Abril, 2026

As tecnológicas estão a despedir para pagar a IA que as vai transformar. Meta, Microsoft e Amazon cortam milhares de postos e os orçamentos para inteligência artificial não param de subir.

Em maio, cerca de 8 mil funcionários da Meta vão receber uma notificação que não queriam. A empresa de Mark Zuckerberg confirmou que vai cortar 10% da sua força de trabalho, o maior despedimento desde 2023, ao mesmo tempo que prevê gastar 135 mil milhões de dólares em inteligência artificial (IA) só este ano. Um valor que, segundo a BBC, é equivalente à soma de tudo o que a empresa investiu em IA nos três anos anteriores.

A lógica, segundo os executivos, é que a IA está a tornar as equipas mais pequenas igualmente produtivas. “Penso que 2026 vai ser o ano em que a IA começa a mudar radicalmente a forma como trabalhamos”, disse em janeiro Mark Zuckerberg, citado pela BBC.

Microsoft segue o mesmo caminho

No mesmo dia em que a Meta anunciou os cortes, a Microsoft comunicou aos seus trabalhadores que vai oferecer reformas antecipadas voluntárias, uma novidade para a empresa fundada há 51 anos. Escreve o Financial Times que mais de 8.000 funcionários nos Estados Unidos serão elegíveis. Em paralelo, Satya Nadella, CEO da Microsoft, tem repetido que a IA já trata cerca de 30% do trabalho de programação interno da empresa. Mais: citado pelo The Guardian, o diretor de IA da tecnológica, Mustafa Suleyman, acredita que a tecnologia será capaz de substituir a maior parte do trabalho de escritório nos próximos 12 a 18 meses.

Os dois casos não são exceção. Segundo dados do portal Layoffs.fyi, recolhidos pela CNBC, mais de 92 mil trabalhadores tecnológicos perderam o emprego só em 2026, elevando o total para quase 900 mil desde 2020. A Amazon dispensou mais de 30 mil pessoas nos últimos seis meses. A Oracle cortou mais de 10 mil postos, invocando o peso da dívida acumulada com investimentos em centros de dados. Também o CEO da Block, Jack Dorsey (um dos fundadores do antigo Twitter), dispensou quase metade dos funcionários da empresa no início de março. A WiseTech, empresa australiana de software logístico, anunciou o corte de 2 mil postos, 30% do total, alegando ganhos de eficiência associados à IA.

Entretanto, os orçamentos sobem. Segundo a CNBC, a Alphabet, a Microsoft, a Meta e a Amazon deverão gastar em conjunto quase 700 mil milhões de dólares este ano em infraestrutura de IA.

A questão de saber por que razão as empresas estão simultaneamente a despedir e a investir tem mais do que uma resposta. Por um lado, a IA permite fazer o mesmo trabalho com menos pessoas, e as empresas ainda estão a corrigir o excesso de contratações feito durante a pandemia. Por outro lado, há uma lógica financeira: cortar dezenas de milhares de postos liberta capital para investir em infraestrutura de IA. 

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Para os trabalhadores que ficam, a incerteza não desaparece. A Meta informou os funcionários de que vai instalar software nos computadores da empresa para registar movimentos de rato, cliques e teclas pressionadas para treinar os seus modelos de IA, segundo a Reuters. Um funcionário descreveu a medida à BBC como “distópica”. Não foi o único a usar essa palavra.

O índice de confiança dos trabalhadores do setor tecnológico, medido pela plataforma Glassdoor, registou a maior queda de qualquer indústria no primeiro trimestre de 2026, menos 6,8 pontos percentuais em relação ao ano anterior. 

O que dizem os dados do recrutamento em Portugal?

Outra questão que tem vindo a surgir é se haverá empregos suficientes para compensar os que desaparecem devido à inteligência artificial. Ao The Next Big Idea, Gonçalo Castelbranco, AI & Data Manager da Michael Page, descreve um mercado em reconfiguração, mas longe do colapso. “Eu não vejo uma retração na contratação de perfis juniores [em áreas tecnológicas]. O que vejo é uma valorização significativa de toda a gente que tem este conhecimento [em inteligência artificial]”, afirma.

A leitura que faz do mercado parte da experiência da empresa. Em 2025, a Michael Page registou uma procura sem precedentes de recém-licenciados, não para funções genéricas, mas para projetos experimentais de IA em startups norte-americanas e britânicas, onde o trabalho consistia em explorar ferramentas e mapear o potencial de cada tecnologia. “Ao longo do ano passado tivemos pedidos como nunca tivemos”, conta. “Este ano deixámos de ter, pois a IA já se estabilizou e generalizou. Agora, o que existe é uma procura regular por perfis muito mais orientados para casos concretos.”

Eu não vejo uma retração na contratação de perfis juniores [em áreas tecnológicas]. O que vejo é uma valorização significativa de toda a gente que tem este conhecimento [em inteligência artificial].

O que mudou, na leitura do responsável, não foi o volume de emprego mas a natureza das funções. A IA está a absorver tarefas repetitivas que antes cabiam aos juniores, mas está simultaneamente a abrir espaço para novas responsabilidades que exigem familiaridade com ferramentas digitais que as gerações mais novas já trazem. “Os seniores têm uma resistência maior à IA porque já estão no mercado e não têm tempo para experimentar. O recém-licenciado tem um computador e pode começar a criar agentes [de IA], a desenhar prompts, a construir automações.”

É por isso, explica, que empresas que adotam ferramentas como o Copilot, a ferramenta de assistência por IA integrada nos produtos Microsoft, estão a contratar engenheiros para as parametrizar, abrindo vagas para cargos como Workflow Engineer ou Project Manager, que raramente mencionam a palavra IA mas exigem essa tecnologia. 

A grande oportunidade, defende Gonçalo Castelbranco, está na engenharia de processos. Cada departamento de uma empresa tem os seus processos. “A equipa financeira produz relatórios de uma forma, a de contabilidade de outra. A IA identifica esses gaps e os juniores podem entrar nas empresas exatamente através disto”, afirma o Data & AI Manager, referindo-se às oportunidades de automação de processos que a tecnologia está a criar nas empresas. 

Para já, o conselho de Gonçalo Castelbranco a quem sai da universidade é apenas um: mergulhar na IA, pois quem a percebe valoriza-se significativamente. Porquê? Porque a fasquia vai subir e daqui a cinco anos, diz, “haverá muito mais exigência” do que aquela que o mercado coloca hoje.

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