Atach: a prancha de surf portuguesa que se divide em três partes e cabe numa mala de porão
por Gabriel Lagoa | 10 de Agosto, 2026
Simão da Câmara Manuel cansou-se de ver pranchas partidas à saída dos aeroportos. Criou uma prancha modular que bateu o objetivo do Kickstarter em menos de seis horas.
Imagine-se alguém que passa horas a embalar uma prancha de surf antes de uma viagem. Camadas de cartão, plástico de bolhas, o cuidado de a despachar na zona dos frágeis. E, no fim, a prancha chega ao destino rachada.
Este era o problema de Simão da Câmara Manuel. Desde 2014 que a sua família aproveita as férias para viajar à procura de bom tempo e de ondas, muitas vezes com mais do que uma prancha por pessoa, precisamente para ter alternativa se alguma se partir pelo caminho. “Não dá para confiar nessas empresas”, conta.
Foi a pensar nisso que, entre 2018 e 2019, já a estudar Engenharia de Materiais na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, se cruzou com uma cadeira de empreendedorismo que não lhe dizia nada. O clique veio de uma viagem ao Sri Lanka. Começou a investigar o que existia no mercado e encontrou a Carbon Compact, uma empresa americana criada em 2011. Não gostou do que viu: pranchas que só se dividiam em duas partes, o que continua a não caber numa mala de porão, montagem que exigia ferramentas e parafusos, tubos de alumínio pesados e uma estética que, diz, era horrível.
Um balde de água fria na Fonte da Telha
O surf tem um problema de sustentabilidade que Simão conhecia bem: as pranchas são compósitos, materiais impossíveis de separar depois de juntos, e por isso não são recicláveis. A proposta inicial era imprimir uma prancha em PLA, uma alternativa ao plástico à base de milho.
Levou-a para a água na Fonte da Telha, dias antes de fazer 23 anos. “Não resultou. Basicamente, coloquei a prancha na água e quando me pus em cima da prancha foi-se tudo abaixo.” Voltou para casa, percebeu o que tinha corrido mal e fez uma segunda versão, desta vez com resina de epóxi. Resultou. Apanhou a primeira onda e percebeu que a sustentabilidade teria de ficar de lado, pelo menos por uns tempos.
Newsletter The Next Big Idea
À procura das últimas tendências? Recebe as melhores histórias do mundo da inovação todas as semanas no teu e-mail.
Terminado o curso, foi trabalhar para a Holanda como engenheiro de processo numa empresa de nanotecnologia. Levou consigo os bens essenciais, e, claro, uma máquina de impressão 3D que, na altura, era grande para os padrões do mercado. Esta foi uma altura de escolhas. Gerir o trabalho, vida social e ainda um projeto de pranchas de surf modulares implica alguns malabarismos. No caso de Simão, a vida social acabou por ficar em standby.
“Não havia equilíbrio. A questão é essa. Eu perdi grande parte da minha vida em termos sociais para me dedicar ao projeto. Era algo que eu antes odiava, mas agora agradeço que isso tenha acontecido. Houve dias em que tinha de dizer ‘não’ aos meus amigos, quer fosse para ir sair ou para ir andar de bicicleta. Nesta altura, apenas os meus pais e a minha irmã me apoiavam. Fui andando até conseguir”, recorda o empreendedor.
E conseguiu. O ponto de viragem do projeto que viria a chamar-se Atach aconteceu em Munique, onde Simão viveu cerca de seis meses e onde, ao contrário do que se possa imaginar de uma cidade sem mar, existe uma comunidade de surf ativa. Foi lá que conheceu um construtor de pranchas de madeira e lhe mostrou os desenhos que andava a fazer há anos.
“Fiz os desenhos, apresentei a ideia, e ele ficou bastante entusiasmado. Ofereceu-se para me ajudar”, recorda. Cerca de cinco meses depois tinha nas mãos a sua primeira prancha modular, que levou à água em abril de 2022. “Assim que a testei, percebi o que é que funcionava e o que é que não funcionava. Passados uns meses, fiz ainda outra, já com o mecanismo que eu desenhei para mim, até porque eu queria uma patente, para que isto ficasse registado e protegido.”
Quem hoje pega numa prancha da ATACH encontra, à primeira vista, uma prancha comum, feita dos materiais de sempre, espuma revestida a fibra de vidro. A diferença está escondida por dentro. Um conjunto de tubos de carbono sai da zona central e fixa numa determinada posição, permitindo encaixar as pontas da prancha, que ficam presas por umas garras. Montada, comporta-se como qualquer outra na água. Desmontada, fica em três peças que cabem numa mala.

E há uma vantagem que Simão só percebeu com o tempo. “Se partir um dos módulos, pode substituir. Não tem de ir a prancha toda para o lixo, como muitas vezes vai”, explica. Como as peças são compatíveis entre si, o surfista deixa de precisar de comprar uma prancha nova para cada tipo de condições. “Eu posso comprar simplesmente um modelo, as três partes, uma prancha completa, e depois ir comprando módulos à parte e ir acrescentando de acordo com o que gosto. Posso determinar o comprimento da prancha, posso diferenciar-me no desenho. Posso fazer combinações de todo o tipo, sem ter de gastar uma fortuna.”
Objetivo batido em menos de seis horas
A campanha no Kickstarter arrancou a 7 de julho deste ano com um objetivo de 10 mil dólares. Foi atingido em menos de seis horas e as pré-vendas já superam os 25 mil dólares, quase o triplo do previsto. Não foi por acaso: durante quase um ano, uma equipa de marketing recolheu cerca de seis mil contactos de potenciais interessados, sobretudo nos Estados Unidos, Austrália, Alemanha, Reino Unido, países nórdicos e Japão.
“Eu sabia que conseguia superar o objetivo”, admite. Mas havia dúvidas. “O surf é um desporto muito restrito em termos de inovação, conservador. E uma prancha de surf é algo caro. As pessoas têm de pensar bem no que vão fazer e têm de ter muitas provas do produto.” O pacote base ronda os 500 euros, um valor pensado para competir de frente com marcas já instaladas, e destina-se sobretudo a quem viaja de avião ou de comboio, não tem carro e procura uma prancha para o dia a dia.

Cinco anos depois da prancha que se desfez na Fonte da Telha, a Atach continua a ser um projeto de uma pessoa só. Mas, para Simão, esse não é um travão à inovação. Estão em desenvolvimento uma longboard que se divide em quatro partes e uma prancha de aprendizagem para escolas de surf, com testes previstos para setembro. E o horizonte não acaba no mar. “Escolhi este nome [Atach] porque não é associado ao surf, é associado à conexão, a unir”, diz Simão, que quer chegar ao ski, ao snowboard e ao skate, desportos onde o problema do transporte também existe.