Portugal tem razões para ambicionar um lugar de destaque na inteligência artificial, desde que esteja disposto a construí-lo durante muitos anos.
Acredito que Portugal se pode tornar uma referência internacional em inteligência artificial. Temos investigadores reconhecidos, universidades capazes de formar bons profissionais e portugueses a desenvolver produtos usados em todo o mundo. O que me preocupa é a distância entre essa capacidade e as condições que criamos para a aproveitar. Gostava de ver o reconhecimento destes percursos traduzir-se em oportunidades para quem investiga, cria empresas e trabalha em Portugal.
Quando olho para os programas de algumas conferências organizadas em Portugal, fico com a sensação de que um nome estrangeiro recebe mais atenção do que um português com experiência comparável. É uma impressão que me leva a questionar os critérios com que escolhemos quem merece ser ouvido. Gostava que o trabalho realizado e a experiência relevante pesassem mais nessa escolha do que a nacionalidade de quem sobe ao palco.
Dar espaço à experiência portuguesa
Na investigação, os percursos de João Gama, da Universidade do Porto, de André Martins, do Instituto Superior Técnico, e de Ana Paiva, também do Técnico, com investigação na interação entre pessoas, agentes inteligentes e robôs sociais, dão razões para essa confiança. São exemplos de reconhecimento internacional construído a partir de instituições portuguesas e mostram que temos capacidade científica para participar nesta transformação.
No estrangeiro, João Carreira, investigador da Google DeepMind, trabalha na interpretação de imagens e vídeos por sistemas de IA. Pedro Domingos, professor emérito da Universidade de Washington, tem contributos reconhecidos na aprendizagem automática e na descoberta de conhecimento em dados. Manuela Veloso, professora emérita da Carnegie Mellon, fundou e liderou a investigação em IA da JPMorganChase. Estes percursos mostram a presença portuguesa tanto nos fundamentos científicos como nas aplicações da inteligência artificial, uma experiência que gostaria de ver mais ligada às oportunidades criadas em Portugal.
No Direito, Adolfo Mesquita Nunes tem-se dedicado aos desafios jurídicos da inteligência artificial. Esse contributo também importa para a ambição do país: precisamos de saber em que condições estas ferramentas podem ser usadas, quem responde pelas decisões e como se protegem os direitos das pessoas. A capacidade de inovar depende também desse conhecimento.
Gostava de ver essa experiência mais presente nas decisões sobre o futuro de Portugal. Um profissional que desenvolve produtos no estrangeiro poderia, por exemplo, acompanhar durante vários meses uma equipa portuguesa que tenta chegar aos primeiros clientes. Universidades e empresas poderiam criar essas ligações com objetivos e tempo de colaboração definidos. Não precisamos de exigir que todos regressem para poderem contribuir, mas precisamos de relações que durem mais do que um convite para uma conferência.
Acredito que Portugal se pode tornar uma referência internacional em inteligência artificial. Temos investigadores reconhecidos, universidades capazes de formar bons profissionais e portugueses a desenvolver produtos usados em todo o mundo. O que me preocupa é a distância entre essa capacidade e as condições que criamos para a aproveitar. Gostava de ver o reconhecimento destes percursos traduzir-se em oportunidades para quem investiga, cria empresas e trabalha em Portugal.
Há também empresas com atividade em Portugal a transformar a IA em produtos e serviços concretos. A Sword Health aplica-a aos cuidados de saúde, a Feedzai à prevenção da fraude financeira e a Defined.ai aos dados usados para treinar sistemas de IA. Na MaioLabs, que cofundei, trabalho na aplicação de dados e IA aos processos das empresas. São projetos com escalas e percursos diferentes, mas mostram a diversidade de oportunidades que existe. Para mim, uma estratégia nacional deve ajudar a multiplicar esta capacidade de transformar conhecimento em soluções que encontram clientes e criam trabalho qualificado.
Dar continuidade à ambição
Há sinais de que o tema ganhou atenção política. A Agenda Nacional de Inteligência Artificial, publicada em janeiro de 2026, inclui um plano até 2030 e um modelo de governação, e o Governo anunciou a mobilização de mais de 400 milhões de euros, sobretudo de financiamento europeu. A intenção de facilitar a entrada de investigadores e profissionais especializados é igualmente relevante. O que quero perceber é como estas medidas se traduzem em equipas que ficam e oportunidades para quem já vive em Portugal.
Atrair alguém exige mais do que simplificar um visto. Quem pondera mudar de país olha para o salário, a habitação, a carreira e as condições para trabalhar. O mesmo vale para quem se formou cá e considera sair. Uma política de talento perde coerência quando recebe bem um especialista estrangeiro e deixa sem perspetivas um português com capacidade equivalente.
A nomeação de Manuel Dias como responsável tecnológico do Estado e presidente da Agência para a Reforma Tecnológica do Estado merece ser reconhecida. Modernizar os serviços públicos é uma missão exigente, mas definir o lugar de Portugal nesta economia envolve também universidades, empresas, investimento e emprego. Essa responsabilidade precisa de peso político e de continuidade para além de uma legislatura.
É nesse sentido que considero legítimo discutir um Ministério da Capacitação e Inovação Nacional. No entanto, a proposta só me faria sentido se simplificasse a coordenação entre ciência, economia e educação, com responsabilidade clara pelos resultados. Se uma estrutura existente puder assegurar essa autoridade, prefiro reforçá-la a criar mais burocracia. Em qualquer dos casos, uma empresa a investir em investigação precisa de conseguir planear para além do próximo concurso de financiamento e de confiar na continuidade das prioridades.
Essa liderança deveria ouvir regularmente quem investiga, cria empresas e conhece as mudanças nas profissões. Teria também de escolher onde concentrar recursos, porque um país com a nossa dimensão dificilmente conseguirá apostar em tudo. Vejo oportunidades na aplicação da IA à indústria e à saúde, desde que exista procura e capacidade para desenvolver soluções úteis. Uma pequena empresa deveria conseguir testar uma ideia com uma universidade sem gastar mais tempo no processo do que na própria experiência.
Considero legítimo discutir um Ministério da Capacitação e Inovação Nacional. No entanto, a proposta só me faria sentido se simplificasse a coordenação entre ciência, economia e educação, com responsabilidade clara pelos resultados. Se uma estrutura existente puder assegurar essa autoridade, prefiro reforçá-la a criar mais burocracia.
Preparar quem trabalha
A ambição de sermos uma referência só me convence se chegar à vida de quem trabalha. Valorizar o talento que temos inclui dar oportunidades a quem ainda está a aprender a usar estas ferramentas. Um professor, um contabilista ou um trabalhador industrial precisam de compreender como a sua atividade está a mudar. A formação deve caber nos seus horários e ajudá-los a resolver problemas concretos, com apoio quando for necessário mudar de funções.
Gostava que essa preparação começasse antes de as mudanças aparecerem como perda de emprego ou de competitividade. Isso exige ouvir empresas e trabalhadores, acompanhar as tarefas que estão a mudar e adaptar a formação. Para perceber se estamos a avançar, prefiro olhar para melhores salários, empresas que conseguem vender ao mundo e serviços que funcionam melhor do que contar participantes em cursos ou somar verbas anunciadas.
Portugal tem razões para ambicionar um lugar de destaque na inteligência artificial, desde que esteja disposto a construí-lo durante muitos anos. Gostava que deixássemos de tratar o talento português como uma surpresa que celebramos quando é reconhecido lá fora. Quem tem capacidade para investigar, criar uma empresa ou melhorar a forma como trabalha deve encontrar cá motivos para continuar. É essa confiança, sustentada por condições concretas, que espero ver nas escolhas do país.