Deixavas a IA gerir o teu património? No Reino Unido já acontece e é obra de dois portugueses
por Inês de Almeida Fernandes | 12 de Outubro, 2026
Chama-se Quartz, é uma plataforma de gestão de património que recorre à inteligência artificial, e já está disponível no Reino Unido, mas o objetivo é que também possa aterrar em Portugal. Entrada no mercado nacional é difícil de prever devido aos desafios regulatórios.
E se em vez de os teus ativos estarem espalhados por várias aplicações e entidades, pudesses ter um gestor de património que agrega tudo e pode andar no teu bolso? Não só é possível, como já acontece no Reino Unido, depois de dois portugueses lançarem a Quartz, uma plataforma de gestão de património em que os utilizadores podem contar com o Charlie, um agente de IA, para os ajudar a manter os seus ativos em ordem.
A fintech com ADN português passou a disponibilizar a plataforma no Reino Unido, em setembro, com o objetivo de democratizar o acompanhamento patrimonial que, atualmente, ainda está fortemente ligado à banca tradicional e aos investidores com mais capital.
A proposta de valor da Quartz partiu de um problema relativamente comum: ter dinheiro distribuído por várias contas, produtos de poupança e plataformas de investimento, o que torna difícil perceber como está o património no seu conjunto.
Mas, afinal, o que torna o Charlie uma melhor opção do que um chatbot normal? A diferença, começou por explicar Mateus Mesquita Alves, cofundador e chief product officer (CPO) da Quartz, é que o Charlie trabalha “sobre as contas reais do cliente, com o seu consentimento, e não apenas sobre o que é escrito numa conversa”.
Newsletter The Next Big Idea
Junta-te aos líderes de multinacionais, PMEs e startups que acompanham a nossa newsletter todas as 3.ª e 5.ª feiras.
Enquanto um chatbot comum só sabe o que lhe dizem, o agente de IA da Quartz analisa, em conjunto, contas bancárias, plataformas de investimento, fundos de pensões e outros ativos que o utilizador escolha ligar à plataforma. Além disso, sublinhou, é capaz de identificar eventos relevantes, alertar para alterações importantes e explicar o impacto dessas mudanças no património pessoal.
“Um utilizador que tenha um plano de pensões num fornecedor, uma conta de investimento numa corretora e poupanças num banco, quando vistas uma a uma [essas contas] parecem diversificadas. Mas quando o Charlie as analisa em conjunto, pode afinal descobrir que estão muito concentradas nas mesmas grandes tecnológicas americanas”, exemplificou o CPO.
Numa aplicação isolada, estas conclusões não são visíveis e um chatbot só conseguiria lá chegar se o utilizador soubesse exatamente o que perguntar e se introduzisse todos os dados manualmente.
Para quando a entrada no mercado português?
A plataforma foi lançada primeiro no Reino Unido porque é um dos maiores mercados europeus de gestão de património, esclareceu André Silva, CEO da Quartz, mas também porque é lá que já existe a infraestrutura regulatória e tecnológica necessária para que a fintech possa operar. Contudo, isso não significa que o Charlie não possa vir a fazer as malas rumo a terras lusas.
“Portugal é um mercado pelo qual temos um interesse natural. Somos portugueses, temos uma entidade no país e uma parte importante da equipa no Porto, mas queremos entrar em cada mercado com uma cobertura sólida de bancos, corretoras e fundos de pensões locais”, o que exige muito trabalho de integração e adaptação, explicou o também cofundador da empresa.
Do ponto de vista regulatório, a principal diferença é que, desde o Brexit, uma licença britânica não confere acesso automático aos restantes mercados da União Europeia (UE). Além das questões ligadas à regulação, os hábitos dos consumidores também são um fator que ajuda a explicar a preferência primária pelo Reino Unido.
Em Portugal, os depósitos bancários, os certificados de aforro e o imobiliário continuam a ser a principal aposta dos investidores nacionais, enquanto a participação nos mercados de capitais ainda é baixa quando comparada com a realidade britânica.
Na perspetiva do CEO, isto é, simultaneamente, um desafio e uma oportunidade. “Há muitas pessoas com poupanças relevantes, PPR e algum investimento espalhado por várias instituições, mas sem uma visão de conjunto e ninguém que as ajude”, questão que a Quartz está determinada a resolver.
Gestão de património acessível e sem limitações de capital
O acompanhamento patrimonial personalizado tende, ainda, a estar reservado a quem tem portefólios de valor elevado, mas é precisamente essa lógica que André Silva e Mateus Mesquita Alves querem contrariar. “Não temos um requisito mínimo de património, nem achamos que a utilidade do produto deva depender de um limite arbitrário”, disse o CEO, embora no Reino Unido o segmento com maior procura por este serviço tenha portefólios entre cinquenta mil e um milhão de libras.
De forma geral, o perfil de investidor que mais interesse demonstra pela plataforma tem património distribuído por várias contas e produtos financeiros, não tem tempo para os acompanhar em detalhe e está, frequentemente, ligado às áreas da tecnologia, saúde, direito ou finanças.
Já no caso português, o foco não estaria tanto no valor dos portefólios, mas antes na sua complexidade. A partir do momento em que deixa de ser simples responder à pergunta “como está o meu património?”, é que a Quartz começa a fazer sentido, apontou o responsável pela fintech.
E se facilitar a vida aos utilizadores é um dos objetivos, outro é garantir que é possível fazê-lo com a mesma exigência e com preços mais acessíveis que os praticados por consultores financeiros independentes ou pela banca privada.
Atualmente, a Quartz tem duas modalidades possíveis de pagamento: uma subscrição mensal pelo valor de 16,99 libras (cerca de 20 euros) ou anual de 169,92 libras, o equivalente a 14,16 libras por mês, que seriam cerca de 201 euros por ano. De acordo com a empresa, este valor é apenas “uma fração” do preço praticado habitualmente.
Podemos confiar na IA para gerir património?
Recentemente, foram vários os episódios que vieram a público sobre comportamentos inesperados por parte de modelos de IA. A segurança é, por isso, um tema incontornável quando IA e dinheiro se misturam na mesma frase. Será que podemos confiar na tecnologia para gerir património?
O CEO da Quartz considera que sim, pelo menos baseando-se no Charlie. “A confiança é o aspeto mais importante do produto. Desde o início, definimos limites claros para o que o Charlie pode e não fazer”, explicou, relembrando que, atualmente, o agente de IA não move dinheiro, não executa ordens e não presta aconselhamento financeiro regulado.
“Se lhe falta informação, por exemplo porque uma conta não está ligada, di-lo em vez de supor”, o que reduz um dos grandes problemas dos assistentes generalistas, que é responder com confiança mesmo que não tenham o contexto certo.
Que futuro para a nova geração de fintechs?
Antes de se aventurarem a solo para criar a sua própria empresa, os fundadores da Quartz pertenciam aos altos quadros das duas maiores fintechs da Europa, a Revolut e a N26, que ajudaram a transformar a relação dos consumidores com os serviços financeiros.
Enquanto esteve na Revolut enquanto Head of Global Expansion, o CEO da Quartz agarrava o desafio de levar um banco digital a novos mercados, conseguir o enquadramento regulatório necessário e convencer as pessoas a confiar o seu dinheiro do dia a dia a uma aplicação. Foi essa geração de fintechs que “tornou os serviços financeiros básicos muito mais baratos e acessíveis”, considerou.
Já na N26, Mateus Mesquita Alves, à altura Product Lead da empresa, estava focado em tornar a experiência bancária simples e transparente através de um telemóvel. Contudo, apontou, havia um limite: não era possível digitalizar o raciocínio de um bom gestor de conta.
A IA altera esse paradigma porque, pela primeira vez, é possível analisar a situação financeira completa de uma pessoa, perceber o contexto e explicá-lo em linguagem simples “a qualquer hora e a um custo que permite servir milhões de pessoas”, disse o CPO.
Para os responsáveis pela Quartz, o problema dos pagamentos e do acesso aos investimentos está, em grande medida, resolvido. A próxima geração de fintechs estará menos focada em transações e mais em ajudar os clientes a tomar melhores decisões financeiras.