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Via Verde celebra 35 anos e reforça aposta na mobilidade integrada

por Marta Amaral | 22 de Abril, 2026

A Via Verde nasceu de uma ideia muito simples, mas na altura quase revolucionária: tirar fricção a um momento do dia-a-dia.

Passar numa portagem parecia banal, mas implicava parar, pagar, esperar. Alguém olhou para isso e perguntou: “e se isto fosse invisível?”

“O mais interessante é que, há 35 anos, isto implicava uma aposta enorme em tecnologia, infraestrutura e mudança de comportamento. Não era só inovação tecnológica, era confiança num novo modelo. E isso continua a ser muito atual”, sublinha Ana Almeida Simões, administradora executiva da Via Verde.

Como é que tudo começou? A origem do sistema está ligada à necessidade de simplificar processos. Durante anos, entidades como forças armadas e autoridades recorriam a vouchers para atravessar portagens, um modelo logisticamente pesado e administrativamente exigente. A introdução dos cartões de crédito e, mais tarde, de débito, com o desenvolvimento da SIBS, foi decisiva para preparar o terreno para um sistema mais automatizado: a Via Verde.

O primeiro teste real a esta tecnologia que prometia simplificar a vida dos portugueses, começou numa portagem em Carcavelos em 1991. Quem foram os primeiros a passar pela portagem sem parar? Um dos primeiros clientes foi o D. Duarte de Bragança.

Ana Almeida Simões conta que, em conversa com Carlos Carvalho (então responsável de operações da Via Verde e uma das figuras que acompanhou de perto os primeiros anos), ficou marcada pela forma como descreve a noite de inauguração: “As equipas ficaram até de madrugada a vender identificadores, um sinal claro do entusiasmo, mas também da dimensão do desafio”.

A expansão foi rápida. Depois de Carcavelos, o sistema chegou a Loures, Sacavém e à Ponte 25 de Abril, consolidando-se como um novo standard na mobilidade rodoviária.

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35 anos (além das portagens)

35 anos depois, a Via Verde deixou de ser apenas um sistema de pagamento de portagens para se tornar numa plataforma de mobilidade.

“Hoje estamos presentes em múltiplos momentos da jornada: estacionamento, carregamento elétrico, mobilidade urbana e serviços associados à deslocação. O foco passou de um ponto específico da viagem para toda a experiência”, sublinha Ana Almeida Simões.

A cronologia da inovação:

  • 1995 – expandiu a cobrança ao sistema fechado através da tecnologia de identificadores MDR (leitura e escrita). 
  • 2001 –  introdução de novos serviços como o pagamento de combustível.
  • 2002 – estacionamento em parques.
  • 2005 – acesso a áreas históricas.
  • 2013 – entrada no pagamento dos ferryboats.
  • 2016 – estacionamento na via pública.
  • 2017 – serviço de pharmacy drive-thru.
  • 2021 – carregamento de veículos elétricos.

Em paralelo, a empresa reforçou a componente digital com novas funcionalidades na app e, mais recentemente, serviços baseados em tecnologia preditiva. Em 2025, passou a integrar soluções capazes de antecipar a probabilidade de encontrar estacionamento.

A expansão não se ficou por Portugal. Em 2022, a Via Verde iniciou o processo de internacionalização, entrando na Holanda e, até 2025, expandindo-se a 15 mercados europeus. Nesse mesmo ano, adquiriu a Axxés, empresa francesa especializada em portagens eletrónicas para veículos pesados.

De acordo com a empresa, em 2026, a Via Verde conta com cerca de 5 milhões de identificadores ativos em Portugal, continuando a afirmar-se como um ecossistema integrado de mobilidade e a evoluir para novas experiências centradas no utilizador.

“Mais do que facilitar o ‘pagar’, queremos simplificar o ‘ir’ e dar Via Verde ao que importa, garantindo conveniência e simplicidade aos nossos clientes”, reforça a executiva.

Quais foram os principais desafios nesta jornada?

  • Risco de “acomodação” ao sucesso
    “Quando se cria um serviço que funciona muito bem e ganha escala, existe sempre o risco de acomodação. Tivemos de fazer exatamente o oposto: questionar permanentemente o que nos trouxe até aqui e antecipar o que vem a seguir”.
  • Evolução do conceito de mobilidade
    A passagem de um modelo centrado na infraestrutura rodoviária para um ecossistema mais complexo, com novas formas de mobilidade, maior exigência dos utilizadores e uma forte componente digital.
  • Velocidade da inovação
    A inovação acontece hoje em tempo real, muitas vezes impulsionada por novos players e por mercados que tradicionalmente não competiriam neste setor.
  • Desafio interno
    Evoluir ao mesmo ritmo que o mercado, com novas competências, novas formas de trabalhar e uma cultura preparada para a mudança.

“Em síntese, o grande desafio tem sido encontrar um equilíbrio saudável entre continuar a garantir a fiabilidade e confiança que sempre nos caracterizaram, enquanto nos reinventamos continuamente”, conclui Ana Almeida Simões.

Como é que se mantém a relevância durante 35 anos?

Ter um propósito muito claro, “no nosso caso simplificar a vida das pessoas”, e ir adaptando continuamente a forma como o concretizamos. 

“A Via Verde nunca foi apenas um produto, sempre foi uma forma de retirar fricção ao dia a dia e devolver tempo às pessoas, e isso continua a ser o que nos guia. Ao longo do tempo, fomos evoluindo a tecnologia, os serviços e até o papel que temos na mobilidade, mas esse princípio manteve-se sempre consistente”. 

A empresa aponta três fatores-chave: capacidade de evolução, foco no cliente e disciplina na execução.

O que mudou? As pessoas são mais exigentes, mais digitais e menos tolerantes à fricção. O mercado tornou-se mais dinâmico, competitivo e interligado.

Neste contexto, a empresa assume-se como um “orquestrador da experiência de mobilidade” e antecipa um futuro assente na combinação de soluções (carro, transporte público, mobilidade partilhada e elétrica) integradas numa experiência simples e fluida.

As apostas passam por duas frentes principais:

  • Mobilidade elétrica: garantir que toda a jornada (planeamento, carregamento e pagamento) é simples e integrada numa única app.
  • Cidades: colaborar com diferentes parceiros e integrar soluções de mobilidade intermodal, permitindo planear, aceder e pagar toda a jornada sem fricção.

Desafios tecnológicos e de concorrência

“O nível de complexidade na mobilidade hoje é bastante mais elevado do que quando a Via Verde começou há 35 anos, tanto do ponto de vista de players como de tecnologia e ainda do nível de sofisticação dos clientes”, explica Ana Almeida Simões.

Apesar de a integração europeia abrir oportunidades de escala, traz também maior exigência, desde a interoperabilidade entre sistemas até à operação em múltiplas geografias com diferentes enquadramentos regulatórios e tecnológicos.

Do ponto de vista tecnológico, o desafio é equilibrar três dimensões: integração (ligando sistemas e serviços distintos), escala (garantindo robustez em diferentes mercados) e simplicidade, porque toda esta complexidade não pode ser visível para o utilizador.

E o futuro?

Nos próximos anos, a Via Verde quer continuar a expandir o seu papel em diferentes dimensões: alargando o portefólio de serviços e acompanhando a evolução da mobilidade, ao mesmo tempo que ganha escala internacional e reforça a sua presença em múltiplas geografias.

Em paralelo, há uma aposta clara em dados e tecnologia, incluindo inteligência artificial, não como fim em si mesmo, mas como forma de tornar a experiência mais inteligente, personalizada e eficiente.

“Mais do que lançar novidades de forma isolada, o foco está em garantir que tudo funciona como um sistema coerente. Se nos primeiros 35 anos simplificámos momentos específicos da viagem, nos próximos queremos simplificar a jornada como um todo”, conclui Ana Almeida Simões, diretora executiva da Via Verde.