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Manuel despediu-se para criar uma plataforma de saúde mental. Meses depois, a app já reúne mais de 300 psicólogos

por Gabriel Lagoa | 23 de Outubro, 2026

A Cozecare liga pacientes a psicólogos e acompanha-os entre consultas. Em três meses juntou 304 profissionais e tem protocolos que abrangem mais de 300 mil estudantes.

Manuel Padrão tinha 17 anos quando começou a ser acompanhado por psicólogos e cedo percebeu que acertar no profissional certo não era tarefa fácil. “Procurei vários psicólogos e era muito difícil conseguir estabelecer uma boa relação terapêutica à primeira. Quando encontrava um profissional que não me conseguia preencher o vazio, abandonava, fazia drop-out da psicologia, e depois tinha de procurar outro. Sistematicamente”, começa por recordar.

O segundo problema aparecia entre sessões. “Uma pessoa marca uma consulta uma vez por mês. O que é que vai fazer nos outros 28 ou 29 dias? A quem é que vai recorrer? Quem é que vai monitorizar o progresso dela?” Foi destas duas dificuldades que nasceu a Cozecare, uma plataforma portuguesa de saúde mental.

Com o incentivo dos pais, Manuel despediu-se da empresa da indústria automóvel onde trabalhava e passou alguns meses a desenvolver sozinho a primeira versão da plataforma. Meses depois, juntou-se ao projeto Francisco Martins, cofundador e CTO.

Sete perguntas e 20 segundos por dia

Ao instalar a aplicação, o utilizador responde a sete perguntas: que problema o traz, que tipo de abordagem prefere, que especialização procura. Pode ainda escrever livremente o que pretende. A inteligência artificial é usada apenas para fazer a correspondência, cruzando estas respostas com fatores como a especialidade de cada psicólogo e a taxa de abandono dos seus clientes. Segundo o fundador, o sistema acerta em 96% dos casos.

Depois da consulta, entra o acompanhamento contínuo. “O profissional de saúde define algumas métricas que quer acompanhar, por exemplo a ansiedade, a qualidade do sono e o apetite. Diariamente, o paciente recebe uma notificação e em 20 segundos responde. Na sessão seguinte, o psicólogo clica em ‘preparar sessão’ e aparece um gráfico para ver em qual dos dias o problema estava pior”, explica.

Manuel Padrão e Francisco Martins. Imagem: Cozecare

Para baixar a barreira de entrada, a Cozecare oferece a primeira consulta com cada psicólogo, até um máximo de dez profissionais diferentes. A ideia é que essa sessão funcione como uma conversa exploratória, para perceber se há ligação entre as duas partes. “Ninguém paga até estabelecer um match com um profissional de saúde. A pessoa faz hoje uma consulta com o Pedro, não estabeleceu uma boa relação, pode fazer uma consulta gratuita com a Mariana ou com o José”, exemplifica Manuel Padrão. Encontrado o psicólogo certo, as consultas seguintes passam a ser pagas, a partir dos 30 euros. O valor é definido por cada profissional, consoante a especialização e a senioridade, e a Cozecare fica com uma comissão sobre cada consulta, “muito à semelhança da Uber”.

Além dos clientes individuais, a plataforma tem uma vertente dirigida a empresas e organizações, assente em três pilares: prevenção, atuação e dados. Neste modelo, as empresas pagam um valor mensal que dá aos colaboradores acesso a consultas incluídas, e é aqui que a Cozecare está, nas palavras do fundador, “a tentar escalar agressivamente”.

As soluções da Cozecare abrangem hoje mais de 300 mil pessoas, um número que se explica pela forma como a plataforma chegou aos estudantes. “Significou muito trabalho e um canal de distribuição montado logo desde o início”, conta Manuel Padrão. A Cozecare é também parceira oficial de saúde mental das associações académicas das universidades do país, com protocolos assinados diretamente com as associações, e não com as universidades, e oferece aos estudantes uma tarifa jovem. Por cada associação académica que divulga a plataforma, garante, os downloads atingem, no mínimo, 25%.

Chatbots? “Nunca”

Num setor onde há quem ponha os pacientes a conversar primeiro com uma máquina, a Cozecare recusa esse caminho. “A relação terapêutica tem de ser estabelecida com um profissional de saúde. Se alguém necessita de ajuda, tem o canal de comunicação aberto com o psicólogo. Porquê falar com uma inteligência artificial quando eu posso falar com um profissional de saúde?” A única exceção é um canal automático que, em caso de emergência, encaminha o utilizador para o 112. “O nosso objetivo não é desumanizar a psicologia”, resume, lembrando que a inteligência artificial tende a confirmar sempre o que a pessoa diz.

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Por agora, a Cozecare vive sem investimento externo: é financiada pelo próprio Manuel Padrão e pelas receitas das consultas. Pelo caminho, foi finalista do Startup World Cup em Portugal e a equipa tornou-se a mais jovem de sempre a ser reconhecida no Prémio Nacional da Inovação. A maior fatia das receitas vem, para já, dos clientes individuais, mas é no segmento empresarial que a empresa aposta para chegar ao meio milhão de euros de faturação em 2027. “Um cliente individual pode marcar uma consulta de três em três meses, enquanto uma empresa vai pagar mensalmente”, justifica.

A expansão já começou. Em Espanha, onde o modelo “é muito semelhante ao português”, a empresa negoceia um protocolo que abrange mais de 1,9 milhões de estudantes. No Brasil, o argumento é a língua e a forma como se encara a terapia: “Os brasileiros olham para a saúde mental como ir ao dentista.” A plataforma já é ali usada por clientes brasileiros, atendidos por psicólogos em Portugal.

Se for preciso acelerar, a empresa admite procurar investimento, mas com uma fasquia definida: “Só vamos levantar financiamento caso seja superior a 2 milhões de euros”. Quanto ao futuro, Manuel Padrão aposta num horizonte de três a quatro anos para fazer da Cozecare “a maior plataforma de saúde mental em Portugal” e entrar no mercado europeu.