Portugal estreia braço robótico em cirurgia de implante no ouvido interno
por Gabriel Lagoa | 26 de Maio, 2026
A tecnologia ajuda os cirurgiões a inserir elétrodos com uma precisão que a mão humana não consegue garantir.
Há cirurgias em que a diferença entre um bom resultado e um resultado excecional se mede em décimas de milímetro. É esse o caso da colocação de implantes cocleares, onde a inserção de um elétrodo no interior da cóclea (uma estrutura do ouvido interno responsável pela função auditiva) exige uma lentidão e uma estabilidade que testam os limites da destreza humana. Foi para responder a esse desafio que a empresa austríaca MED-EL desenvolveu dois sistemas cirúrgicos, OTOARM e OTODRIVE, que chegaram a Portugal este mês.
Entre os dias 21 e 23 de maio, Herédio Sousa, diretor do Serviço de Otorrinolaringologia da Unidade Local de Saúde de São José, realizou quatro procedimentos com estas ferramentas, dois no Hospital Dona Estefânia e dois no Hospital de São José. Foi a primeira vez que esta tecnologia foi usada em Portugal.
O que faz este sistema?
O OTOARM é um braço robótico que estabiliza os instrumentos cirúrgicos, elimina o tremor da mão e permite ao cirurgião posicionar o material com exatidão usando apenas uma mão. O OTODRIVE controla o movimento de inserção do elétrodo, avançando a velocidades tão baixas como 0,1 milímetros por segundo, com pressão constante e sem oscilações.

Para perceber porque é que isto importa: durante uma cirurgia de vários minutos, o coração do cirurgião bate. Esse batimento, por mais imperceptível que pareça, transmite-se às mãos. A cóclea não perdoa esses micromovimentos.
“Este procedimento exige um avanço lento, constante e controlado, que proteja as delicadas estruturas internas da cóclea de variações tão mínimas como o batimento cardíaco do cirurgião”, explica Julio Rodrigo Dacosta, diretor-geral da MED-EL para Espanha e Portugal. A tecnologia não substitui o cirurgião, frisa a empresa. A experiência clínica e o julgamento continuam a ser do profissional. O que muda é o grau de precisão mecânica disponível.
Quem beneficia mais?
A tecnologia é relevante para doentes que ainda têm alguma audição residual nas frequências graves, mas que não conseguem aproveitá-la com um aparelho auditivo convencional. Nestes casos, preservar as estruturas do ouvido interno durante a cirurgia pode significar a diferença entre receber apenas estimulação elétrica ou beneficiar de uma combinação de estimulação elétrica e acústica, o que tende a resultar numa experiência auditiva mais natural.

Uma inserção mais suave reduz o trauma cirúrgico sobre a cóclea, o que aumenta as probabilidades de manter essa audição residual após a operação. É um detalhe técnico que faz a diferença na qualidade de vida do doente.
Portugal na lista dos pioneiros
A chegada destas ferramentas a Portugal coloca o país entre os primeiros a usar este tipo de assistência robótica em otologia. O Hospital Dona Estefânia e o Hospital de São José foram os primeiros centros nacionais a realizar este tipo de procedimento, no âmbito da ULS de São José.
A MED-EL, fundada em 1990 na Áustria e com mais de 3100 colaboradores em 90 países, é conhecida sobretudo pelos seus implantes cocleares. Este movimento para o campo da instrumentação cirúrgica de precisão representa uma extensão da sua área de atuação, com o argumento de que o melhor implante só produz o melhor resultado se a cirurgia for também feita nas melhores condições possíveis.
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