Nova IA portuguesa acompanha o Parlamento “ao minuto”
por Marta Amaral | 7 de Julho, 2026
Uma proposta de lei entra no Parlamento. Sofre alterações, passa por votações, recebe pareceres, é publicada no Diário da República e, mais tarde, pode voltar a ser modificada.
Para quem trabalha diariamente com legislação, acompanhar este percurso continua a significar consultar várias plataformas, cruzar documentos e investir horas em pesquisa.
Foi para simplificar este processo que nasceu a LegisMotion, uma plataforma portuguesa de inteligência legislativa que utiliza inteligência artificial para organizar informação pública dispersa e transformá-la numa ferramenta de trabalho.
A plataforma reúne num único local informação proveniente de fontes oficiais, como o Parlamento, o Diário da República e a BASE, permitindo pesquisar iniciativas legislativas, comparar propostas, acompanhar alterações, consultar o histórico de um diploma e receber alertas personalizados sempre que existam novidades relevantes.
A informação pública em Portugal existe e é de enorme qualidade. O problema nunca foi a falta de dados, mas o tempo necessário para os encontrar, cruzar e perceber o que realmente mudou. (…) Queremos transformar documentos oficiais em conhecimento útil para quem precisa de decidir, informar ou antecipar riscos, explica Ricardo Rodrigues, fundador e CEO da LegisMotion.
A “inteligência legislativa”
Segundo a empresa, a diferença em relação às plataformas oficiais não está na origem da informação, mas na forma como esta é apresentada.
Em vez de obrigar os utilizadores a navegar entre diferentes portais, a LegisMotion agrega toda a informação e acrescenta ferramentas de pesquisa, comparação e análise que permitem compreender rapidamente o contexto de cada proposta ou diploma.
A inteligência artificial entra precisamente nesta camada adicional, ajudando a resumir documentos, comparar versões, explicar linguagem técnica, identificar alterações relevantes e gerar alertas automáticos.
A plataforma inclui ainda assistentes especializados para diferentes códigos legais, como o Código do Trabalho, o Código Civil ou o Código Penal, permitindo fazer perguntas em linguagem natural e encontrar rapidamente os artigos mais relevantes.
A IA não substitui a fonte oficial nem o critério profissional. O nosso objetivo é eliminar trabalho repetitivo e permitir que juristas, jornalistas ou consultores possam dedicar mais tempo à análise e menos tempo à pesquisa, afirma Ricardo Rodrigues.
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Transformar “regras” num podcast
Entre as funcionalidades que têm despertado maior curiosidade durante a fase inicial de testes estão os alertas automáticos, os chats especializados por código legal e uma funcionalidade pouco habitual: a possibilidade de transformar propostas ou diplomas em podcasts.
A ideia passa por adaptar informação complexa a novos formatos de consumo, permitindo acompanhar alterações legislativas durante uma viagem ou entre reuniões, sem necessidade de ler dezenas de páginas de documentação.
Transparência como princípio
Numa área tão sensível como a legislação, a empresa diz ter definido desde o início um princípio fundamental: todas as respostas geradas pela inteligência artificial devem manter ligação às fontes oficiais.
Em vez de funcionar como uma “caixa negra”, a plataforma permite ao utilizador consultar o documento original e verificar a informação utilizada para gerar cada resumo ou explicação.
Quando falamos de legislação, rapidez não chega. É preciso que a informação seja verificável, transparente e contextualizada. A confiança constrói-se mostrando sempre de onde vem cada resposta”, defende o fundador.
Uma ferramenta para profissionais que vivem da informação
A LegisMotion está atualmente a ser testada por advogados, deputados e empresários, mas pretende chegar a um universo muito mais alargado, que inclui jornalistas, contabilistas, consultores, associações empresariais e equipas de public affairs.
Para Ricardo Rodrigues, a inteligência artificial vai alterar profundamente a forma como estas profissões trabalham nos próximos anos, não substituindo especialistas, mas reduzindo drasticamente o tempo gasto em tarefas repetitivas.
Quem souber trabalhar com estas ferramentas vai conseguir dedicar mais tempo ao pensamento crítico, à estratégia e à tomada de decisão. É aí que continua a estar o verdadeiro valor humano, conclui.