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Portugal é excelente para o turismo, mas e para a biotecnologia?

por Marta Amaral | 11 de Fevereiro, 2026

No 11º episódio do podcast The Next Big Idea, Joana Branco, diretora de Inovação e Desenvolvimento do Ecossistema do Biocant Park, revela como este parque de ciência e tecnologia tem vindo a posicionar Portugal no mapa internacional da biotecnologia. 

O que é que falta para afirmar o país como um polo de inovação europeu?

O Biocant nasceu de uma visão municipal há 20 anos, quando uma cidade pequena conseguiu reunir os parceiros necessários para criar o primeiro polo nacional focado em biotecnologia. Joana Branco explica que, à data, empresas e universidades queriam escalar mas não havia espaços dedicados – foi “uma pedra no charco” que permitiu começar a falar de uma maneira muito mais estruturada em todo o ecossistema.

Hoje, o parque tem cinco edifícios e uma zona industrial, acolhendo empresas de diferentes dimensões que colaboram entre si. Ao contrário de instalações genéricas adaptadas, o Biocant oferece infraestruturas especializadas criadas de raiz para serem laboratórios de biotecnologia, cumprindo todos os requisitos de segurança e técnicos.

“Para termos uma empresa no parque há um critério que é essencial: são empresas a desenvolverem conhecimento, a gerarem conhecimento que possa depois ser aplicado. Essa é a primeira premissa, projetos de investigação, empresas ativamente a desenvolverem investigação para criarem valor. Que haja uma propriedade intelectual forte, que haja conhecimento gerado”, explica a diretora do Biocant.

Questionada sobre a frase do CEO da Microsoft que posicionava a saúde como a aplicação mais urgente da inteligência artificial, Joana Branco deixa claro o papel da tecnologia.

“De facto, a inteligência artificial tem sido uma revolução na maneira como nós olhamos para a inovação, mas na verdade não deixa de ser um enabler para nós chegarmos à nossa utilização final e aos produtos que podemos desenvolver, nomeadamente chegar aos doentes e criar condições de saúde ou produtos que melhorem o dia-a-dia das pessoas.”

A IA pode criar ferramentas para diagnóstico mais rápido e monitorização mais eficaz, mas no final da linha estão sempre os médicos e o contacto pessoal para que a inovação possa trazer impacto real na vida das pessoas.

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Portugal é excelente para turismo, mas o que há em biotecnologia?

Se para as fases iniciais Portugal tem ferramentas e recursos adequados, o grande obstáculo surge quando os projetos precisam de escalar. Joana identifica com precisão onde está o principal gargalo do ecossistema nacional.

“Quando falamos da área da biotecnologia, falamos sempre de projetos com necessidades de investimento muitíssimo avultadas e com tempos de desenvolvimento grandes e, portanto, precisamos de reconhecimento internacional para que os grandes investidores, olhem para Portugal”, apela a responsável pela inovação do Biocant Park.

Para ir buscar investimento lá fora, é preciso mostrar o que existe em Portugal. Por isso, há mais de 10 anos que o Biocant investe em presença internacional nas principais conferências da área, enfrentando sempre a mesma reação inicial: Portugal é excelente para turismo, mas o que há em biotecnologia?

A resposta passou por assumir, juntamente com outros parceiros, o esforço de posicionar o país. Em março, Lisboa vai receber a Bio Europe Spring na FIL, um evento de partnering onde o objetivo é conectar empresas portuguesas com decisores de topo para potenciar colaborações, parcerias e licenciamento de tecnologias.

Trazer o evento a Portugal não é apenas uma questão de prestígio. É dar às pequenas empresas nacionais, que muitas vezes não têm recursos para participar em eventos internacionais, a oportunidade de se mostrarem e perceberem como o mercado está posicionado.

A mudança das farmacêuticas

As grandes farmacêuticas mudaram radicalmente a forma como fazem desenvolvimento. Deixaram de ter tudo in-house e começaram a olhar para universidades e pequenas empresas como fontes de inovação. Mas para aproveitar esta oportunidade, Portugal precisa de se posicionar estrategicamente.

“Houve uma grande mudança na maneira como as próprias grandes farmacêuticas fazem o seu desenvolvimento interno. Perceberam que não havia necessidade de ter tudo in-house. E começaram a olhar muito para as universidades, que são grandes fontes de conhecimento, e para as empresas mais pequenas. Mas para isso, precisamos de demonstrar que estamos aqui”, reforça Joana Branco.

É também necessária uma mudança cultural dentro das universidades, aprendendo como o cliente quer olhar para o produto desenvolvido. Os gabinetes de transferência de tecnologia têm de se internacionalizar, perceber como as coisas são feitas lá fora.

Um ano decisivo

A diretora de Inovação e Desenvolvimento do Ecossistema do Biocant Park, Joana Branco, está otimista quanto ao próximo ano. Há muitas empresas nacionais com desenvolvimentos muito avançados que deverão conseguir grandes rondas de financiamento, criando casos de sucesso que trarão ainda mais visibilidade ao ecossistema português.

A estratégia passa por deixar de querer apoiar todas as áreas e perceber onde existe potencial instalado. E em biotecnologia, esse potencial é evidente – universidades excelentes que têm investido muito, conhecimento de qualidade, recursos humanos altamente qualificados e uma característica portuguesa distintiva: resiliência, dedicação e vontade de fazer acontecer.

O The Next Big Idea é um podcast onde se fala sobre o que realmente move o futuro dos negócios. Empreendedorismo, inovação, tecnologia, investimento e estratégia em conversas exclusivas com líderes de empresas de referência no panorama nacional e internacional.