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Podem os bivalves ser a chave da economia do mar?

por Gabriel Lagoa | 29 de Dezembro, 2025

Cultivar bivalves no oceano exige tempo, capital e decisões de longo prazo. Neste episódio de The Next Big Idea, acompanhamos uma empresa portuguesa que tenta fazê-lo a partir do mar aberto.

Falar de Portugal sem falar do mar é… difícil. Ao longo da história, o oceano esteve ligado à alimentação, ao comércio e à forma como o país se relaciona com o exterior. No novo episódio do The Next Big Idea, o mar surge não como cenário, mas como espaço de produção, com regras próprias e ciclos que fogem à lógica habitual das startups tecnológicas.

A Oceano Fresco decidiu apostar na aquacultura em mar aberto, com foco no cultivo de bivalves como amêijoas e ostras europeias. É um negócio que não se mede em trimestres, mas em anos. Antes de existir produto, há infraestruturas submersas, licenças, testes e uma espera longa até que as espécies atinjam a maturidade. É uma abordagem que exige planeamento e capacidade financeira para aguentar períodos prolongados sem retorno.

Bernardo Carvalho, CEO da empresa, explica que o projeto assenta na criação de viveiros submersos ao largo da costa portuguesa. As estruturas funcionam como um conjunto de cabos suspensos, onde as amêijoas e as ostras crescem alimentando-se do que o oceano já oferece. Não há rações nem fertilizantes. Há dependência total dos ciclos naturais e das condições do mar.

Produzir no oceano não é acelerar processos

Ao contrário da agricultura em terra, a produção de bivalves em mar aberto não beneficia de séculos de mecanização. Grande parte do trabalho ainda está por definir, desde os métodos de cultivo até aos protocolos de manutenção. Cada decisão envolve risco e aprendizagem.

Como todas as histórias, esta também tem contratempos: a empresa já enfrentou perdas significativas por fatores inesperados. Uma vez, vários caranguejos, ainda pequenos, entraram nas estruturas da Oceano Fresco e comprometeram a produção meses depois, pois também estes crustáceos precisam de alimento para sobreviver. São episódios como este que obrigaram a empresa a rever processos e a aceitar que o erro faz parte de um setor onde a previsibilidade é limitada.

A dimensão financeira é outro dos desafios centrais. Os investimentos iniciais são elevados e o retorno demora. Segundo Bernardo Carvalho, este tipo de ciclo afasta investidores habituados a resultados rápidos, apesar do potencial económico do projeto a médio e longo prazo.

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Um setor por construir em Portugal

Apesar das dificuldades, a Oceano Fresco acredita que Portugal tem condições para desenvolver uma fileira ligada à produção de bivalves em mar aberto. O país dispõe de conhecimento científico, acesso ao mar e experiência acumulada em atividades marítimas.

O episódio mostra como projetos deste tipo dependem da articulação entre capital público, investimento privado e investigação. Não se trata apenas de produzir alimentos, mas de criar métodos, testar modelos e adaptar práticas ao território. No The Next Big Idea, esta história ajuda a perceber que inovação nem sempre significa velocidade. Em alguns setores, passa por aceitar o tempo como variável central e por construir negócios que só fazem sentido quando pensados a longo prazo.

A Oceano Fresco foi apoiada pela linha de financiamento “Deal-by-Deal”, do Banco Português de Fomento (BPF). O BPF é uma instituição financeira que cria soluções inovadoras para apoiar projetos nacionais e internacionais, promovendo a sustentabilidade e o desenvolvimento económico. Através da sua atividade, incentiva a capacidade empreendedora, o investimento, a competitividade e a criação de emprego.