Quanto mais ferramentas temos, mais difícil se tornou perceber quem sabe realmente pensar design.
Fala-se muito da transformação que a inteligência artificial está a provocar no trabalho. Aceleração, automação, produtividade passaram a ser palavras do dia-a-dia. No design, porém, o efeito tem sido outro: quanto mais ferramentas temos, mais difícil se tornou perceber quem sabe realmente pensar design.
À superfície, o mercado parece abundante. Há mais profissionais, mais portefólios, mais domínio técnico. Nunca foi tão fácil encontrar candidatos que conhecem ferramentas e apresentam trabalho visualmente consistente. Mas essa abundância esconde um problema: o que parece diversidade é muitas vezes homogeneidade. O que parece competência pode não passar de execução sem verdadeira leitura de contexto. É aqui que o recrutamento se torna mais exigente.
O desafio já não está em encontrar quem desenhe bem, mas em identificar quem compreende o impacto do que desenha, ou seja, compreender o impacto no utilizador, no negócio e no sistema de decisão onde esse trabalho se insere. Durante anos, UX e UI foram associados sobretudo à interface. Hoje, o design é convocado para algo mais complexo: reduzir incerteza, interpretar comportamento e apoiar decisões.
Isso exige um tipo diferente de profissional. Exige alguém que compreenda dados, que pense em sistemas e que reconheça que uma interface é sempre uma tradução de prioridades organizacionais e escolhas estratégicas. Em rigor, o que está em causa no recrutamento de UX/UI não é apenas talento criativo. É maturidade de pensamento.
À superfície, o mercado parece abundante. Há mais profissionais, mais portefólios, mais domínio técnico. Nunca foi tão fácil encontrar candidatos que conhecem ferramentas e apresentam trabalho visualmente consistente. Mas essa abundância esconde um problema: o que parece diversidade é muitas vezes homogeneidade.
A inteligência artificial veio tornar essa diferença mais visível. Não porque substitui designers, mas porque retira valor ao que antes era sinal de competência. Se ferramentas conseguem acelerar execução e gerar variações, então o domínio técnico deixa de ser diferenciador. A questão passa a ser outra: esta pessoa sabe decidir?
Sabe formular o problema antes de o resolver? Sabe distinguir rapidez de clareza? Sabe usar IA como extensão de pensamento, e não apenas como atalho? Estas são hoje as perguntas relevantes.
O mercado, no entanto, ainda opera muitas vezes com categorias genéricas como “UX/UI Designer”, como se a função pudesse ser entendida de forma indiferenciada. Mas os problemas tornaram-se mais complexos, e isso exige perfis mais específicos, onde os profissionais sejam capazes de trabalhar entre produto, comportamento e estratégia, com profundidade real.
Esta especialização não é uma tendência. É uma consequência direta da complexidade. E é aqui que o recrutamento muda de natureza. Deixa de ser um exercício de validação técnica para se tornar um exercício de interpretação. Avaliar design hoje implica perceber como alguém pensa, como justifica decisões e como liga experiência a resultado.
Na prática, esta dificuldade já é visível no mercado. Modelos tradicionais baseados em volume, com mais candidatos e mais entrevistas, mostram-se cada vez menos eficazes. Abordagens mais recentes apontam no sentido oposto, onde a estratégia passa por menos perfis, maior aderência ao problema e uma validação prévia mais rigorosa. Isto levanta uma questão inevitável: estamos a otimizar recrutamento para quantidade ou para qualidade de decisão? Porque, no fundo, é disso que se trata.
Esta especialização não é uma tendência. É uma consequência direta da complexidade. E é aqui que o recrutamento muda de natureza. Deixa de ser um exercício de validação técnica para se tornar um exercício de interpretação.
Distinguir entre quem produz artefactos e quem contribui para decisões melhores.
As organizações que continuam a contratar com base em sinais superficiais arriscam reforçar uma visão ornamental do design. E o custo surge mais tarde, quando os sinais de alerta se tornam visíveis na fricção acumulada, na incoerência dos produtos, na dificuldade em priorizar e na incapacidade de transformar design numa competência estratégica.
Talvez a questão mais relevante seja esta: o que é que as empresas estão realmente a tentar contratar quando dizem que procuram um designer?
A IA não reduziu a importância do design. Tornou-a mais exigente. Hoje, o profissional mais valioso não é necessariamente o mais rápido ou o mais visual, mas o que pensa melhor, questiona melhor e consegue transformar complexidade em clareza.
E isso muda tudo no recrutamento. As empresas que compreenderem esta mudança mais cedo não estarão apenas a contratar melhor. Estarão a construir equipas capazes de acompanhar a complexidade real do mercado, onde a diferenciação já não está na execução, mas na qualidade do pensamento que a orienta.