Será que uma experiência holográfica personalizada consegue estimular a evocação de memórias de forma mais eficaz do que fotografias ou vídeos?
Há memórias que o corpo esquece antes da mente, e há memórias que a mente esquece antes do corpo. Na demência e na doença de Alzheimer, é frequentemente o passado recente que se apaga primeiro, enquanto rostos antigos, casas de infância e vozes de quem já não está continuam, por vezes, a acender qualquer coisa lá dentro. É nesse território frágil e comovente que a tecnologia pode, talvez, vir a dar um contributo novo.
Imaginemos um quarto, uma sala, uma casa preparada para cuidar de alguém. E imaginemos que, nesse espaço, é possível projetar em holograma um familiar de há trinta anos, a casa onde a pessoa cresceu, o café onde passava as tardes, um objeto que já não existe. Não um ecrã, não uma fotografia, mas uma presença tridimensional que ocupa o espaço à nossa frente. A ideia não é substituir a memória, é convidá-la a voltar.
Estudos na área da terapia da reminiscência sugerem que estímulos visuais e sensoriais ligados ao passado podem estar associados à ativação de emoções e recordações, mesmo em fases avançadas de demência, embora os mecanismos exatos e a sua eficácia continuem a ser objeto de investigação. Álbuns de fotografias, música da juventude, cheiros familiares: tudo isto já é usado, com resultados que apontam para menos agitação, mais momentos de lucidez emocional, maior sensação de identidade. A holografia, nesta lógica, não seria uma ideia estranha ao que já se faz. Seria uma extensão mais imersiva, mais próxima da experiência real de “estar com” alguém ou “estar em” algum lugar.
Não se trata de criar uma ilusão. Trata-se de criar um estímulo.
Mas é aqui que o entusiasmo tem de parar e a responsabilidade começar. E a verdadeira questão não é tecnológica. É científica.
Será que uma experiência holográfica personalizada consegue estimular a evocação de memórias de forma mais eficaz do que fotografias ou vídeos? Poderá contribuir para reduzir episódios de ansiedade ou desorientação? Terá impacto no bem-estar emocional, na comunicação com familiares ou na qualidade de vida? Existirão riscos psicológicos associados, sobretudo para quem já vive numa realidade fragmentada? Que critérios deverão existir para garantir que estas experiências são benéficas e não perturbadoras? Estas não são perguntas retóricas. São exatamente o tipo de perguntas que só um estudo clínico sério, longitudinal, com consentimento informado e supervisão de uma comissão de ética, pode responder.
Neste momento, não temos respostas. E isso não é um problema. É precisamente por não existirem respostas que precisamos de investigação.
E é esse o ponto central deste texto: não estou a propor uma solução, estou a propor uma investigação.
Será que uma experiência holográfica personalizada consegue estimular a evocação de memórias de forma mais eficaz do que fotografias ou vídeos? Poderá contribuir para reduzir episódios de ansiedade ou desorientação? Terá impacto no bem-estar emocional, na comunicação com familiares ou na qualidade de vida?
Uma ideia inovadora só deixa de ser uma hipótese quando é submetida ao método científico. Psicólogos, neurologistas, especialistas em ética, engenheiros, investigadores em inteligência artificial e profissionais de saúde terão de trabalhar em conjunto para avaliar benefícios, limitações e eventuais riscos. Portugal tem universidades com departamentos de neurociência, engenharia e gerontologia de grande qualidade, e tem também um problema demográfico que não vai esperar: somos um dos países mais envelhecidos da Europa, e o número de pessoas com demência só vai aumentar nas próximas décadas. Faz sentido que, em vez de importarmos tecnologia já pronta e sem validação, sejamos nós a fazer as perguntas certas primeiro.
Um estudo-piloto, com um número reduzido de participantes, protocolos claros, acompanhamento psicológico e critérios de exclusão bem definidos, poderia começar a dar-nos respostas. Positivas ou negativas, ambas seriam valiosas. Talvez se descubra que a holografia ajuda em fases iniciais e é contraindicada em fases avançadas. Talvez se descubra que funciona melhor com espaços e objetos do que com rostos de pessoas que já não estão presentes, evitando o risco de gerar confusão sobre quem está vivo. Talvez, simplesmente, não funcione. Só a ciência nos pode dizer e nem todas as ideias produzem os resultados esperados. Algumas revelam-se ineficazes. Outras acabam por transformar áreas inteiras da medicina. Mas nenhuma chega a esse ponto sem alguém ter a coragem de fazer a pergunta certa.
Uma ideia inovadora só deixa de ser uma hipótese quando é submetida ao método científico. Psicólogos, neurologistas, especialistas em ética, engenheiros, investigadores em inteligência artificial e profissionais de saúde terão de trabalhar em conjunto para avaliar benefícios, limitações e eventuais riscos.
O que não podemos é avançar por entusiasmo tecnológico, nem recuar por medo do desconhecido. Entre estas duas tentações fica o caminho mais difícil e mais correto: estudar primeiro, aplicar depois. Se há investigadores, clínicos ou engenheiros a lerem isto e a sentirem que esta é uma pergunta que vale a pena perseguir, fica aqui o convite.
Num mundo onde investimos milhões para desenvolver tecnologias cada vez mais sofisticadas, talvez também devêssemos investir mais em tecnologias que preservem aquilo que nos torna verdadeiramente humanos: as nossas memórias, as nossas relações e a nossa identidade. Porque, quando uma doença começa lentamente a apagar uma vida inteira de recordações, qualquer tecnologia capaz de ajudar a manter acesa essa ligação merece, pelo menos, uma oportunidade de ser investigada.