É cada vez mais comum ouvirmos que a inteligência artificial (IA) nos está a
tornar menos criativos. A ideia parece clara e simples: ao tornar tudo mais rápido,
mais fácil e mais acessível, sentimos que estamos a substituir o esforço humano
pela ação das máquinas. Contudo, essa perceção parte de um equívoco mais
profundo sobre o que é, afinal, criatividade.
A criatividade não é um “clique” quase mágico que surge do nada. Na prática, é a
capacidade de fazer ligações entre o que já conhecemos, de juntar diferentes
peças para criar algo ainda maior. Não aprendemos a voar “do nada”: foi
necessário observar aves, estudar física e testar materiais até o ser humano
conseguir fazer os aviões voar. Nesta como em tantas outras inovações, a
criatividade nasceu da experiência baseada em informação, contexto e
imaginação.
Tendo isto em conta, a IA não mata a criatividade; pelo contrário, acelera o acesso
ao conhecimento. Permite aprender mais depressa, explorar hipóteses e testar
ideias quase em tempo real, com muito menos fricção. E isso não substitui o ato
criativo: alimenta-o.
Mas o verdadeiro valor da IA está após a sua utilização inicial.
Com base na informação que esta ferramenta nos dá, a capacidade de decidir o
que é útil e relevante continua a ser exclusivamente humana, e é precisamente
isso que nos distingue.
Enquanto engenheiro de software, no meu trabalho recorro à IA de forma muito
intencional, potenciando o lado humano. Através de agentes de programação
como o Copilot, por exemplo, posso programar de forma mais rápida e eficiente.
Ao mesmo tempo, ferramentas como o ChatGPT ou o Gemini ajudam-me a fazer
brainstormings, testar hipóteses, retirar ideias e afinar o meu pensamento através
da interação com a máquina. Se procuro, por outro lado, melhorar a experiência
visual e o UX, recorro ao Base44 ou ao Stitch, que tornam o procedimento muito
mais rápido e intuitivo. Cada modelo tem os seus pontos fortes e cabe-nos saber
usá-los de acordo com as nossas necessidades.
Desde que integrei a IA no meu dia a dia, não me sinto menos criativo. Consigo, agora, ter uma visão mais holística de cada projeto e tarefa, validar hipóteses em minutos e perceber rapidamente se uma ideia faz sentido. O que antes poderia
demorar um ou dois meses a gerar resultados, hoje requer muito menos tempo, libertando o humano para o que realmente importa: ser criativo e pensar de forma estratégica.
No fundo, a pergunta não deveria ser se estamos, ou não, a perder criatividade
com a IA. Devemos, sim, questionar-nos: como podemos usá-la para potenciar as
nossas competências mais valiosas?