Voltar | Opinião

Estamos a dar o propósito certo aos espaços de trabalho?

Os novos modelos de trabalho, tanto no que diz respeito aos espaços de cowork como aos regimes híbridos e remotos, não retiram valor ao escritório. Pelo contrário, contribuem para uma nova relação com o trabalho.

O escritório costumava ser o espaço onde os profissionais se limitavam a executar tarefas, agendar reuniões e receber clientes. A localização, a dimensão e as condições físicas sempre foram, de facto, importantes, mas raramente se discutia o impacto que todos estes fatores poderiam ter na produtividade, na cultura organizacional ou na própria forma de liderar uma equipa. Atualmente, este cenário já não se aplica.

A transformação dos modelos de trabalho tem vindo a mostrar que o escritório não é um tópico neutro ou indiferente. A forma como é desenhado e utilizado influencia diretamente a concentração, a colaboração, a criatividade e as relações entre as pessoas. Consequentemente, tem também impacto na cultura que uma empresa constrói e nas estratégias de liderança.

De acordo com o relatório “Global Workforce Hopes and Fears Survey 2025“, da PwC, cerca de 70% dos trabalhadores gostariam de continuar a ter algum tipo de trabalho remoto, valorizando principalmente os benefícios associados ao equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional e à redução do tempo perdido em deslocações. Por outro lado, o estudo também conclui que a presença ao escritório se mantém importante, em especial no que diz respeito à realização de atividades que envolvam criatividade, colaboração e construção de uma cultura organizacional. Isto significa que não está em causa a escolha entre os regimes remoto ou presencial, mas sim a forma como é possível gerir o equilíbrio entre ambos.

A transformação dos modelos de trabalho tem vindo a mostrar que o escritório não é um tópico neutro ou indiferente. A forma como é desenhado e utilizado influencia diretamente a concentração, a colaboração, a criatividade e as relações entre as pessoas.

E é aqui que faz sentido mudar o propósito que damos ao espaço de trabalho. Um escritório para onde os profissionais só se dirigem porque lhes é exigido dificilmente será um local capaz de gerar envolvimento, conforto e bem-estar. Se o objetivo é que as pessoas se sintam motivadas para trabalhar presencialmente, é necessário dar-lhes razões e vantagens que justifiquem a deslocação. E não, não falamos apenas de disponibilizar boas secretárias, salas de reuniões ou uma máquina de café; falamos de criar condições para haver colaboração, aprendizagem, troca de ideias e desenvolvimento de relações.

Face a este cenário, os espaços de cowork têm um papel interessante. Quando planeados como ecossistemas que vão além do simples escritório, podem aproximar profissionais de diferentes áreas, empresas e experiências. Através da dinamização de eventos de lazer, formações e workshops, podem criar oportunidades de networking e promover encontros que dificilmente aconteceriam se as empresas se mantivessem isoladas nos seus escritórios tradicionais.

Este convívio é determinante na construção da cultura organizacional, que não parte apenas de valores escritos num documento ou de iniciativas organizadas pelo departamento de Recursos Humanos. É reforçada nas interações quotidianas, nas relações de confiança e nas oportunidades de colaboração e de partilha de conhecimento. Este processo desenvolve-se no escritório.

Os espaços de cowork têm um papel interessante. Quando planeados como ecossistemas que vão além do simples escritório, podem aproximar profissionais de diferentes áreas, empresas e experiências.

O mesmo se aplica à liderança. Os modelos de gestão também estão a mudar e exigem que os líderes tenham a capacidade de confiar, delegar e avaliar os resultados das equipas, em vez de tentar controlar a produtividade individual ou os horários. No regime híbrido, liderar não significa adotar uma postura constantemente autoritária, mas sim reunir as condições necessárias para que os objetivos sejam cumpridos. Por isso, o escritório deve deixar de ser uma ferramenta de controlo para passar a ser uma ferramenta de conexão.

Os novos modelos de trabalho, tanto no que diz respeito aos espaços de cowork como aos regimes híbridos e remotos, não retiram valor ao escritório. Pelo contrário, contribuem para uma nova relação com o trabalho, que se pretende mais flexível, colaborativo e orientado para as necessidades reais dos profissionais e das empresas. O escritório deve assumir-se, assim, como uma plataforma de colaboração e de aprendizagem, criando comunidades onde o conhecimento circula, as relações se multiplicam e os profissionais encontram novas oportunidades de desenvolvimento.