Os últimos meses de 2025 foram marcados por uma agenda particularmente intensa de eventos e encontros com founders, jovens empresários e várias entidades que dão forma ao ecossistema empreendedor português.
Desde a Web Summit, passando por iniciativas da Startup Portugal, ANJE, Unicorn Factory, até encontros mais setoriais e sessões de networking, estes momentos permitem-nos observar padrões e tendências que nem sempre surgem no dia a dia mais operacional. E o que se nota, conversando com tanta gente envolvida no terreno, são dois temas em particular que, na minha perspetiva, vão marcar as prioridades do ecossistema este ano.
O primeiro é a internacionalização. Quando olhamos para o trabalho que está a ser desenvolvido por diferentes organizações — tanto as mais focadas em startups e tecnologia, como aquelas que trabalham mais diretamente com PME — é muito evidente que a internacionalização se tornou uma verdadeira palavra de ordem. E isso não é por acaso.
O ecossistema português chegou a um estádio de maturidade importante. Nasceu, afirmou-se e começa hoje a ter reconhecimento, ainda que exista caminho a percorrer ao nível da notoriedade e da escala. Mas a verdade é que já não estamos apenas focados em ajudar jovens empreendedores a criar empresas ou lançar startups. Estamos, cada vez mais, a trabalhar para os ajudar a crescer, a escalar e a competir noutros mercados.
É precisamente por isso que uma agenda mobilizadora, assente na colaboração entre entidades, para apoiar a internacionalização das startups e das empresas portuguesas, me parece absolutamente crítica. Esta articulação pode ter um impacto muito significativo no crescimento sustentado do ecossistema e na forma como Portugal se posiciona no contexto global.
O segundo tema que destaco prende-se com a necessidade de criar mais pontos de ligação dentro do próprio país. Em particular, entre o ecossistema tecnológico e de startups e o tecido empresarial português mais tradicional.
Existe aqui uma enorme oportunidade que ainda não está totalmente explorada. É fundamental promover uma maior proximidade entre founders de startups e jovens empresários de PME, entre quem está a desenvolver tecnologia e inovação e quem opera em setores mais tradicionais da economia.
Esta ligação não só beneficia ambos os lados, como pode ter um impacto muito relevante no crescimento da economia portuguesa como um todo.
As startups ganham escala, contexto e acesso a mercados mais consolidados — muitas PME têm décadas de relações comerciais e cadeias de distribuição bem estabelecidas, o que permite a uma startup escalar muito mais rapidamente ao integrar-se nessas redes. As empresas mais tradicionais, por sua vez, ganham dinamismo, inovação e novas formas de pensar os seus negócios, beneficiando da criatividade e da ousadia que caracterizam o mundo empreendedor e tecnológico. Esta colaboração pode acelerar processos de transformação digital de forma mais rápida e menos arriscada, permitindo às PME testar soluções tecnológicas em pequena escala antes de avançarem para investimentos maiores, enquanto as startups beneficiam de casos de uso reais, feedback direto e validação de mercado.
Por outro lado, abre também espaço para a cocriação de produtos e serviços: uma PME pode ter um problema muito específico que uma startup consegue resolver com tecnologia, modernizando processos internos e, posteriormente, transformando essa solução num produto escalável para outros clientes. Além disso, setores tradicionais como a agricultura, a construção, a logística ou o retalho podem incorporar automação, inteligência artificial ou IoT desenvolvidas por startups, aumentando a produtividade, reduzindo custos e reforçando a competitividade internacional.
Depois, há ainda uma dimensão muito relevante de partilha de conhecimento e talento: as startups aprendem com a experiência operacional e setorial das PME, enquanto estas ganham contacto com novas metodologias, maior agilidade, cultura de dados e modelos de negócio inovadores, renovando equipas, atraindo talento jovem e modernizando a forma de trabalhar. Este racional não se aplica apenas à ligação entre startups e PME — seria igualmente virtuoso que o próprio Estado investisse mais neste tipo de colaboração, desenvolvendo projetos e contratando startups para apoiar os múltiplos desafios de modernização enfrentados por entidades e organismos públicos.
No fundo, estamos a falar de construir pontes. Pontes para fora, que liguem Portugal a outros mercados e ecossistemas e permitam às nossas empresas crescer globalmente. E pontes internas, que aproximem dois mundos que têm muito a ganhar em trabalhar em conjunto.
Se conseguirmos desenvolver estas duas dimensões de forma estratégica e colaborativa — a internacionalização e a conexão entre startups e tecido empresarial tradicional — acredito que estaremos a dar um passo decisivo não só para o fortalecimento do ecossistema empreendedor, mas também para um crescimento mais robusto, inovador e sustentável da economia portuguesa.