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A vantagem da periferia: porque os inovadores de fora dos grandes hubs vão liderar a próxima década

por Rui Terroso (CEO da Living Tours)

15 de Dezembro, 2025

A obsessão por Silicon Valley – vista como o epicentro global da inovação em tecnologia, abrigando a sede de muitas empresas de alta tecnologia, como a Apple, Google e Facebook – é uma estratégia do passado. O futuro da inovação está a ser escrito em ecossistemas como o de Portugal, onde a qualidade de vida, a criatividade moderada e uma visão global com raízes locais estão a criar uma nova fórmula de sucesso.

Durante décadas, a rota para o sucesso na inovação era claro e implacável: para triunfar, era preciso emigrar. São Francisco, Londres ou Berlim funcionavam como ímanes globais de talento, capital e ambição. 

Hoje, assistimos a um silencioso, mas potente, movimento de contração. A obsessão global pelos grandes hubs tornou-se um erro estratégico. A verdadeira vantagem competitiva deslocou-se para os ecossistemas de inovação de segundo escalão, como Portugal, onde a pressão é menor, os custos são sustentáveis e, ironicamente, a criatividade floresce com mais vigor para resolver problemas reais. A periferia tornou-se o novo centro.

A prova? Basta olhar para o mapa de Portugal, de norte a sul. A Nasdaq, a Google, a Mercedes, a BMW, a HAVI, a Riskified e dezenas de outras multinacionais de topo não escolheram o nosso país por acaso. Estão aqui porque descobriram o que sempre soubemos, mas que o mundo agora reconhece: a periferia oferece uma combinação única de fatores que estão a definir a próxima vaga de crescimento.

Talento com propósito: a qualidade de vida como vantagem competitiva

O primeiro pilar desta revolução é o talento com propósito. A nova geração de profissionais altamente qualificados já não quer trocar a qualidade de vida pelo caos e pelo custo de vida proibitivo de uma metrópole. Preferem o sol ao fim-de-semana, uma comunidade coesa e tempo para viver, sem abdicar de projetos de carreira desafiadores.

Aos líderes, empreendedores e decisores políticos, deixo um apelo: não tentemos replicar Silicon Valley. O nosso caminho é outro, e é mais promissor. É o caminho do equilíbrio, da criatividade sustentável e do talento com propósito.

O grande desafio para Portugal, neste novo contexto, já não é apenas atrair este talento, mas retê-lo. Nas nossas empresas, sentimos isto na pele. Um profissional que domina vários idiomas e é formado em turismo é, hoje, avidamente disputado por centros de atendimento internacional, pela banca ou por empresas de fintech. Esta concorrência pelo capital humano é um sinal de saúde económica, mas exige de nós, líderes, uma nova abordagem. Temos de criar culturas empresariais ricas, oferecer propósito autêntico e oportunidades de crescimento que rivalizem com os salários inflacionados destes novos players. A batalha pelo talento é a batalha pelo nosso futuro.

Inovação moderada: a arte de fazer mais com menos

O segundo pilar é a inovação moderada. A histórica limitação de recursos em países periféricos forjou uma mentalidade de resiliência e engenho. Quando não se tem acesso a fundos de capital fáceis, somos obrigados a ser mais criativos, a otimizar e a construir soluções que são, por natureza, mais eficientes e escaláveis.

A inovação que nasce da contenção é, frequentemente, a mais robusta e adaptável, e as novas tecnologias vieram democratizar esta capacidade. Na era industrial, a periferia europeia era penalizada pelos custos de transporte, enquanto, atualmente, uma startup de Braga ou de Faro compete no mercado global com a mesma facilidade que uma de Berlim. A barreira geográfica caiu, e com ela, a desvantagem histórica.

Visão global, raiz local: a fusão que gera valor

Finalmente, temos a poderosa união entre a visão global e a raiz local. Construir uma empresa a partir de Portugal já não significa pensar apenas no mercado português. As empresas que aqui se estabelecem – sejam multinacionais ou startups nativas – aproveitam as ligações únicas de um ecossistema mais coeso e acessível.

No entanto, para sustentarmos este momentum, temos um desafio fundamental: manter e melhorar urgentemente o nosso nível de formação. O nosso sistema de educação, do básico ao superior, precisa de uma aceleração disruptiva para acompanhar a velocidade da procura do mercado. As empresas não vêm só pelo sol e pelo custo; vêm pelo talento. Se queremos continuar no radar, temos de investir massivamente na qualidade e na relevância das competências que formamos – é o combustível para esta nova economia.

O momento é agora

Vivemos, sem dúvida, o período de maior desenvolvimento, crescimento e inovação da nossa história recente. O potencial é imenso, mas a janela de oportunidade não estará aberta para sempre, já que a “vantagem da periferia” não é um dado adquirido, mas sim uma conquista diária.

Aos líderes, empreendedores e decisores políticos, deixo um apelo: não tentemos replicar Silicon Valley. O nosso caminho é outro, e é mais promissor. É o caminho do equilíbrio, da criatividade sustentável e do talento com propósito. A próxima década não será liderada por quem grita mais alto nos hubs saturados, mas por quem resolve melhor os problemas reais a partir dos cantos mais inteligentes do globo. E Portugal está na linha da frente para provar isso.