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A falta de talento tornou-se a desculpa preferida de quem não sabe recrutar

Dizer que não há talento é uma explicação confortável, sobretudo porque, quando colocamos todo o problema no mercado, deixamos de ter necessidade de questionar aquilo que fazemos dentro das próprias organizações.

Há falta de talento em Portugal e negar essa realidade seria pouco sério. Existem setores onde determinadas competências são genuinamente difíceis de encontrar e funções para as quais a oferta de profissionais está claramente abaixo da procura. Segundo o Global Talent Shortage Survey 2026 da ManpowerGroup, 82% dos empregadores portugueses dizem ter dificuldade em preencher as suas vagas, o que ajuda a perceber a dimensão do problema.

A questão começa a tornar-se mais interessante quando a falta de talento deixa de ser um diagnóstico e passa a funcionar como explicação automática para praticamente tudo o que corre mal num processo de recrutamento. Uma vaga está aberta há seis meses porque não há talento, recebemos centenas de candidaturas sem encontrar ninguém adequado porque não há talento, os candidatos recusam as propostas ou abandonam os processos porque, mais uma vez, o mercado não tem as pessoas de que precisamos.

Em alguns casos, será exatamente isso que está a acontecer. Noutros, talvez devêssemos fazer perguntas menos confortáveis sobre a forma como estamos a recrutar. O salário é competitivo para aquilo que exigimos? Os requisitos são realmente necessários? Estamos à procura das competências essenciais para a função ou de alguém que reproduza quase integralmente o percurso de quem ocupava anteriormente aquele lugar? O processo tem etapas a mais, demora demasiado tempo ou exige uma disponibilidade que os melhores candidatos simplesmente não estão dispostos a aceitar?

Recrutar é uma das poucas áreas em que podemos rejeitar dezenas de pessoas e, no final, concluir que o problema estava em todas elas. Há anúncios que procuram combinações quase inexistentes de experiência muito específica, conhecimento do setor, domínio de várias ferramentas, determinadas qualificações e disponibilidade imediata, por vezes acompanhadas por uma remuneração que não corresponde ao nível de exigência. Quando ninguém corresponde ao perfil, torna-se tentador concluir que o mercado deixou de produzir bons candidatos.

Também nos habituámos a confundir escassez de talento com escassez de pessoas exatamente iguais àquilo que imaginámos. Um bom processo de recrutamento não consiste apenas em encontrar alguém que já tenha feito exatamente aquele trabalho, naquele setor e em circunstâncias semelhantes. Consiste também em perceber quem traz competências transferíveis, capacidade de aprendizagem e condições para conseguir desempenhar bem a função.

Recrutar é uma das poucas áreas em que podemos rejeitar dezenas de pessoas e, no final, concluir que o problema estava em todas elas. Há anúncios que procuram combinações quase inexistentes de experiência muito específica, conhecimento do setor, domínio de várias ferramentas, determinadas qualificações e disponibilidade imediata, por vezes acompanhadas por uma remuneração que não corresponde ao nível de exigência.

Isto não significa, naturalmente, que todas as exigências devam ser flexibilizadas. Um hospital não resolve a falta de médicos reduzindo qualificações essenciais, da mesma forma que uma empresa não deve contratar alguém sem as competências indispensáveis apenas porque tem urgência em preencher uma posição. O problema está na distância que muitas vezes existe entre aquilo que é verdadeiramente indispensável e tudo o que fomos acrescentando à descrição do candidato ideal.

É nessa distância que podemos estar a perder pessoas capazes de fazer o trabalho.

A discussão sobre a falta de talento precisa, por isso, de ser mais exigente. Portugal tem problemas reais de competências, existem desequilíbrios entre aquilo que as empresas procuram e aquilo que o mercado consegue oferecer e há setores especialmente pressionados. Mas também existem processos demasiado longos, salários pouco competitivos, critérios excessivos, pouca flexibilidade e recrutamentos desenhados para encontrar candidatos que dificilmente existem.

Dizer que não há talento é uma explicação confortável, sobretudo porque, quando colocamos todo o problema no mercado, deixamos de ter necessidade de questionar aquilo que fazemos dentro das próprias organizações.

Antes de concluirmos que os candidatos não existem, talvez valha a pena perceber se estamos realmente com dificuldade em encontrar talento ou se, em alguns casos, simplesmente continuamos com dificuldade em reconhecê-lo quando não aparece exatamente como esperávamos.