Voltar | Inovação Dossier: The Next Big Idea - O Podcast

O sistema nervoso das redes elétricas

por Miguel Magalhães (Texto) | 10 de Junho, 2026

No novo episódio podcast “Conversas com Boa Energia”, Clara Gouveia e Everton Alves, investigadores do INESC TEC, explicam como a inteligência distribuída e os gémeos digitais podem ajudar a tornar o sistema elétrico mais resiliente e preparado para os desafios da transição energética.

A eletricidade faz parte do quotidiano de forma tão natural que raramente pensamos no que acontece nos bastidores. Ligamos uma luz, carregamos o telemóvel ou colocamos um eletrodoméstico a funcionar sem questionar a complexa infraestrutura que, em cada segundo, garante o equilíbrio entre produção e consumo de energia.

É precisamente essa realidade invisível que esteve em destaque no mais recente episódio do podcast “Conversas com Boa Energia”, produzido pela Aliança para a Transição Energética em parceria com o The Next Big Idea. Os convidados foram Clara Gouveia, membro do Conselho de Administração do INESC TEC, e Everton Alves, investigador da instituição, que partilharam alguns dos projetos que estão a desenvolver para responder aos desafios de um sistema elétrico cada vez mais complexo.

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Um dos temas centrais da conversa foi a transformação das redes elétricas. Durante décadas, a produção de energia esteve concentrada em grandes centrais relativamente previsíveis. Hoje, a realidade é diferente. A crescente integração de fontes renováveis, a disseminação de painéis solares, o aumento dos veículos elétricos e a eletrificação de novos consumos estão a tornar a rede mais distribuída e dinâmica.

Para responder a esta mudança, o INESC TEC está a desenvolver soluções que os investigadores descrevem como uma espécie de “sistema nervoso” da rede elétrica. A analogia ajuda a compreender o conceito: através de sensores, sistemas de comunicação e aplicações inteligentes, torna-se possível recolher informação em tempo real sobre o estado da rede e reagir mais rapidamente a qualquer anomalia.

Entre as tecnologias em desenvolvimento estão sistemas de proteção adaptativa, capazes de ajustar automaticamente o seu comportamento em função das condições da rede, ferramentas de controlo de tensão e mecanismos que ajudam os operadores a identificar e interpretar eventos anormais antes que estes se transformem em problemas de maior dimensão.

O objetivo é tornar a rede mais resiliente sem aumentar a complexidade para quem a utiliza. Como sublinhou Everton Alves durante a conversa, o ideal é que os consumidores continuem a dedicar “zero segundos por dia” a pensar na eletricidade, porque isso significa que o sistema está a funcionar como deve ser.

Mas a inovação não se limita à operação da rede. Outro dos projetos destacados no episódio é uma sala de controlo avançada que funciona como um gémeo digital do sistema elétrico. Neste ambiente, os operadores podem treinar a resposta a diferentes cenários sem qualquer impacto na rede real.

A lógica é semelhante à utilizada nos simuladores de voo. Em vez de testar situações críticas numa infraestrutura real, os operadores podem enfrentar falhas, perturbações ou até combinações de eventos extremos num ambiente seguro e altamente realista. O sistema reproduz o comportamento da rede em tempo real, permitindo avaliar a eficácia das decisões tomadas e preparar melhor as equipas para situações futuras.

Segundo os investigadores, esta capacidade será cada vez mais importante à medida que a rede elétrica incorpora mais tecnologia, mais automação e mais recursos distribuídos. Embora a sofisticação do sistema aumente, isso não significa necessariamente que a sua operação se torne mais simples. Pelo contrário: gerir a complexidade será um dos grandes desafios das próximas décadas.

É precisamente neste contexto que instituições como o INESC TEC assumem um papel relevante. Além de desenvolverem novas tecnologias, funcionam como uma ponte entre a investigação académica, as empresas do setor energético, os operadores de rede e os reguladores, ajudando a testar soluções e a antecipar problemas antes que estes cheguem ao terreno.

Num momento em que a transição energética acelera e a eletrificação ganha peso em praticamente todos os setores da economia, a capacidade de prever, simular e responder a cenários cada vez mais complexos poderá ser determinante para garantir que a energia continua disponível quando mais precisamos dela.

Disponível no Spotify e no canal de YouTube do The Next Big Idea.

Este podcast conta com o apoio da Aliança para a Transição Energética e do PRR. Sabe mais sobre o Plano de Recuperação e Resiliência em https://recuperarportugal.gov.pt/