O que o metal e o tijolo nos dizem sobre o futuro de Portugal
por Miguel Magalhães (Texto) | 16 de Fevereiro, 2026
A Cerâmica de Pegões e a Fisola estiveram em destaque no episódio da série The Next Big Idea que olhou para a indústria transformadora em Portugal. Um setor que nem sempre se move da forma mais rápida, mas onde tal como em outras áreas, o capital ajuda a acelerar processos e a desenvolver inovações.
A Indústria Transformadora é muito mais do que só matérias-primas e tecnologia.
São pessoas e as infraestruturas que nos rodeiam. No caso da economia portuguesa, é o setor que representa 80-90% das nossas exportações. A Fisola e a Cerâmica de Pegões são dois casos de sucesso nesta área: a primeira é uma referência na indústria metalomecânica e conta com projetos com organizações como o TikTok e a Formula E; a segunda conta com quase 70 anos de história e produz cerca de 300 toneladas de tijolo por dia.
O tijolo como parte da história cultural e económica portuguesa
A Cerâmica de Pegões é hoje a única empresa do género a sul do Tejo, depois de uma sucessão de crises nas últimas décadas, que levaram ao desaparecimento de várias das suas concorrentes. À partida, o tijolo parece um objeto cuja produção parece relativamente simples, mas a grande inovação da empresa liderada por Hugo Francisco foi na utilização de energia. “Em meados de 2006, há um incremento no preço do petróleo para o dobro, tornando incomportável o uso desse combustível. Logo rapidamente, a administração da empresa opta por fazer um investimento na substituição desse combustível, adquirindo um equipamento totalmente automatizado, queimadores, forno, para abastecimento através de biomassa. Olhando agora para trás, isto é título de desafio, sabemos que essa decisão foi o que permitiu a empresa estar hoje viva”, explica.
O que é biomassa?
A biomassa é toda a matéria orgânica, de origem vegetal ou animal, que pode ser utilizada como fonte de energia. No contexto industrial, como o caso da Cerâmica de Pegões, a biomassa é utilizada como um combustível renovável para gerar calor ou eletricidade, substituindo combustíveis fósseis como o petróleo ou o gás natural.
Esta decisão permitiu que a Cerâmica de Pegões passasse das 5.000 toneladas de emissões de CO2 por ano, para cerca de 700 toneladas.
“Temos de fazer mais do que vender ferro”
É a visão de Samuel Coelho, administrador do conglomerado industrial green gray group, que a Fisola passou a integrar a partir de 2025 . A empresa portuguesa baseada em Albergaria-à-Velha é há várias décadas uma referência no setor da metalomecânica e tem feito uma adaptação contínua na adaptação dos seus processos e pessoas à Indústria 4.0. “Nós tínhamos um processo muito manual e hoje somos a única empresa em Portugal que temos um equipamento praticamente totalmente robotizado”, refere.
Num negócio que muitas vezes passa despercebido, a Fisola participa ou já fez parte de projetos de grande dimensão e com impacto no nosso dia-a-dia: nas Jornadas Mundiais da Juventude em Portugal esteve envolvida na construção das torres que garantiram o bom funcionamento das telecomunicações em várias zonas do país; na construção do primeiro data center da TikTok na Europa, foi o seu metal o escolhido para algumas das principais infraestruturas; nos circuitos citadinos do campeonato de Formula E (F1 com carros elétricos), os limitadores de segurança de metal são também produzidos pela empresa.
Capital para inovar
Tanto a Cerâmica de Pegões como a Fisola passaram a integrar outras organizações no
último ano. A Cerâmica de Pegões foi adquirida pela Touro Capital Partners, um fundo de investimento português, com mais de 90 milhões de euros investidos em PMEs e startups nacionais. A Fisola é agora uma das empresas do green gray group, com operações nos setores da metalomecânica, energias renováveis e telecomunicações, que em 2027 estima alcançar os 150 milhões de euros em volume de negócio.
No horizonte de crescimento das duas empresas, a orientação é diferente. A Fisola está a olhar para o exterior, para mercados internacionais como Alemanha e França onde quer fazer chegar as suas soluções. A Cerâmica de Pegões dá prioridade à situação interna, querendo tirar proveito da sua vantagem geográfica para continuar a crescer no sul de Portugal.
A Cerâmica de Pegões e a Fisola foram apoiadas pelas linhas de financiamento “Consolidar” e “Venture Capital”, do Banco Português de Fomento (BPF). O BPF é uma instituição financeira que cria soluções inovadoras para apoiar projetos nacionais e internacionais, promovendo a sustentabilidade e o desenvolvimento económico. Através da sua atividade, incentiva a capacidade empreendedora, o investimento, a competitividade e a criação de emprego. Sabe mais aqui