Menos fiéis a marcas, mais elétricos… e a olhar para a China. O novo perfil de quem quer comprar carro
por Marta Amaral | 18 de Dezembro, 2025
Dentro de cinco anos, comprar um carro poderá significar escolher uma marca chinesa, confiar mais no software do que no motor e nunca pôr os pés num stand.
A indústria automóvel está a entrar num dos períodos mais disruptivos da sua história recente. A ascensão das marcas chinesas, a consolidação (ainda gradual) dos veículos elétricos, o desapego às marcas e a crescente centralidade da experiência digital estão a redefinir a forma como os consumidores escolhem, compram e utilizam automóveis.
Estas são algumas das conclusões do estudo What Car Buyers Want: A Global Guide for Automotive OEMs, da Boston Consulting Group (BCG), baseado nas respostas de mais de 9000 consumidores em dez países.
Um estudo que traz um aviso importante para os fabricantes, e, principalmente, para os mais tradicionais: atenção aos próximos cinco anos. As apostas certas ou erradas vão ser decisivas para manter relevância num mercado diferente, mais fragmentado, digital e cada vez menos previsível.
Segundo a consultora, existem cinco tendências estruturais que estão já a moldar o comportamento de compra e a colocar em causa pressupostos que durante décadas sustentaram o setor.
É cool aderir às marcas chinesas?
Durante anos vistas com desconfiança, as marcas chinesas estão a ganhar espaço na consideração dos consumidores, impulsionadas por preços competitivos e por uma forte aposta em tecnologia elétrica.
Na Europa, entre 10% e 20% dos consumidores admite hoje considerar a compra de um carro chinês, um valor muito superior à atual quota média de mercado destes fabricantes na União Europeia, que ronda os 4%. Em mercados emergentes, como o Brasil, essa abertura sobe para 36%.
A China é o caso mais extremo: 85% dos consumidores mostram-se agora mais recetivos a optar por marcas nacionais, que já representam 69% do mercado. Os Estados Unidos continuam a ser a exceção, com apenas 7% dos inquiridos a admitir essa possibilidade.
Quem já trocou para elétrico raramente volta atrás
A transição para os veículos elétricos a bateria (BEVs) continua a avançar de forma desigual, mas há um dado que se destaca: a experiência cria fidelização.
Entre os condutores que já utilizam um BEV, a maioria planeia comprar novamente um elétrico. Já entre quem conduz veículos com outros tipos de motorização, apenas metade tenciona manter o mesmo tipo de motor na próxima compra.
As motivações variam consoante a região. As preocupações ambientais continuam a pesar globalmente, mas na Europa o principal fator é económico (custos e poupança a longo prazo). Nos EUA e na China, o entusiasmo vem sobretudo da tecnologia e das funcionalidades avançadas.
Ainda assim, persistem resistências. Mitos sobre autonomia, tempos de carregamento e preço inicial continuam a travar a adoção, sobretudo na Europa e nos EUA, onde uma parte dos consumidores, afirmam que nunca vão trocar para um veículo elétrico.
O desapego às marcas do costume
Um dos sinais mais claros da transformação do mercado é a quebra da lealdade às marcas tradicionais. Nos EUA e na Europa, apenas cerca de 40% dos consumidores planeia comprar novamente a mesma marca. Entre os mais jovens, esse valor cai para 21%.
Na China, o fenómeno é ainda mais acentuado: apenas cerca de 10% dos consumidores tenciona repetir a marca na próxima compra, refletindo um mercado altamente competitivo, dinâmico e aberto à experimentação.
Esta tendência atravessa todas as regiões e gerações, mas é entre os consumidores mais jovens que se manifesta com maior intensidade, um sinal de que o futuro do setor será menos previsível e mais volátil.
Condução autónoma? “Com cautela” fora da China
A perceção sobre as tecnologias de condução autónoma está a mudar rapidamente. Entre os condutores que já utilizam estas funcionalidades, a maioria considera-as úteis. Mesmo quem nunca teve esse contacto direto, reconhece o seu potencial valor.
A autonomia total, no entanto, continua a gerar reações muito distintas. Na China, mais de 60% dos consumidores aceitariam viajar num táxi totalmente autónomo. Na Europa e nos EUA, a aceitação é significativamente menor, cerca de 30%, refletindo maior cautela e desconfiança.
Escolher um carro como quem escolhe um telemóvel
A digitalização deixou de ser um complemento para se tornar um fator decisivo na experiência automóvel. Quase um terço dos consumidores admite comprar o próximo veículo totalmente online, sem nunca ver fisicamente o carro. Entre os mais jovens, essa percentagem é mais evidente.
O acesso a ecossistemas digitais como Apple, Android ou sistemas proprietários tornou-se um critério de escolha, tal como a possibilidade de receber atualizações over-the-air (OTA). Para muitos consumidores, o carro passou a ser visto como uma plataforma tecnológica em constante evolução, e não como um produto fechado.
“Estamos a assistir a uma mudança estrutural no setor automóvel. Os consumidores estão a redefinir as suas prioridades, a lealdade está a enfraquecer e as marcas chinesas estão a ganhar protagonismo. Os OEMs que conseguirem antecipar estas tendências e criar experiências diferenciadoras serão os que irão liderar o próximo ciclo de crescimento”, afirma Carlos Elavai, Managing Director & Partner da BCG.
Um setor em rutura e pouco tempo para reagir
A mensagem do estudo é inequívoca: os fabricantes que continuarem a competir apenas em design ou performance mecânica arriscam perder relevância. Num mercado onde a fidelidade já não é garantida, vencerão as marcas capazes de adaptar estratégias regionais, reforçar capacidades digitais, oferecer veículos elétricos acessíveis e reposicionar-se como fornecedores de experiências, não apenas de automóveis.
Nos próximos cinco anos, o setor automóvel não será apenas mais elétrico. Será mais digital, mais competitivo e, sobretudo, mais imprevisível.
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