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Inteligência artificial consegue detetar violência doméstica anos antes de a vítima pedir ajuda

por Gabriel Lagoa | 18 de Março, 2026

Uma ferramenta de IA desenvolvida nos EUA identifica risco de violência numa relação com base em dados de consultas hospitalares de rotina.

Uma equipa de investigadores financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) desenvolveu uma ferramenta de inteligência artificial capaz de identificar mulheres em risco de violência numa relação amorosa e fê-lo com uma antecedência de mais de três anos face ao momento em que muitas vítimas chegam a pedir ajuda.

O estudo foi publicado na revista científica Nature e parte de um princípio: os dados já existem nos hospitais. A questão é saber como lê-los.

O que faz esta ferramenta?

Durante uma consulta ou urgência, lê-se na publicação, os médicos recolhem todo o tipo de informação: histórico clínico, medicação, resultados de análises, notas de observação, relatórios de radiologia. A ferramenta analisa esses dados, que já estão nos registos eletrónicos dos hospitais, e calcula a probabilidade de uma utente estar a sofrer violência doméstica.

Os investigadores, ligados ao hospital Mass General Brigham, em Boston, e à Universidade de Harvard, testaram três versões do sistema. Uma trabalhava apenas com dados estruturados (idade, diagnósticos, visitas ao hospital). Outra analisava as notas clínicas escritas pelos médicos. A terceira combinava ambas e foi a que obteve os melhores resultados: identificou corretamente o risco em 88% dos casos.

Para perceber de onde vem a antecedência de três anos, é preciso entender como o estudo foi feito: os investigadores analisaram registos de mulheres que já tinham entrado em programas de apoio e foram atrás no tempo, comparando a data em que cada uma pediu ajuda com a data mais antiga em que a ferramenta já teria sinalizado risco. Em média, esse sinal aparecia mais de três anos antes.

O modelo foi treinado com registos de quase 850 mulheres com historial de violência numa relação amorosa e de mais de 5.200 utentes sem esse historial, num período que vai de 2017 a 2023.

Porque é que isto importa?

O problema é conhecido: muitas vítimas podem não responder com sinceridade, seja por medo, vergonha ou receio de represálias. Muitos casos podem ficar por detetar durante anos. Em Portugal, os números mostram que, no ano passado, 25 pessoas (21 eram mulheres) morreram em contexto de violência doméstica, mais três do que em 2024, e a PSP e a GNR receberam cerca de 30 mil queixas, segundo dados recolhidos pela SIC Notícias

No plano europeu e de acordo com um estudo da Comissão Europeia citado pela Euronews, 18% das mulheres afirmaram, em 2021, ter sofrido violência física ou sexual por parte de um parceiro. Nos EUA a Linha Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica estima que cerca de 3 em cada 10 mulheres já sofreram violação, violência física ou perseguição por parte de um parceiro, com impacto no seu quotidiano.

A ferramenta de IA não substitui o médico nem obriga a utente a dizer o que quer que seja. O que faz é dar um sinal de alerta ao profissional de saúde, para que este possa abordar o tema com mais cuidado e oferecer apoio se necessário.

“Este trabalho representa uma mudança no sentido de reconhecer o risco mais cedo, usando informação já presente nos dados de saúde”, afirmou Bharti Khurana, radiologista de urgência no Mass General Brigham e professora associada na Harvard Medical School.

Qi Duan, diretora no NIH, considera que a ferramenta pode ser “um recurso transformador para a saúde pública”, dada a prevalência dos casos.

E agora?

A equipa quer integrar a tecnologia diretamente nos sistemas de registos clínicos eletrónicos dos EUA, para que os hospitais possam receber avaliações em tempo real durante as consultas de rotina. O objetivo é chegar mais cedo, antes de a situação se agravar.

A ferramenta tem limitações reconhecidas pelos próprios investigadores, como o facto de o modelo ter sido treinado maioritariamente com utentes que já procuraram ajuda, o que pode não refletir a realidade de quem nunca o faz. Mas o passo dado é, para já, inédito nesta área.

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