Os jogadores de Pokémon Go treinaram robôs de entrega sem saber. Como?
por Gabriel Lagoa | 18 de Março, 2026
A Niantic usou 30 mil milhões de imagens recolhidas pelo jogo para criar um sistema de navegação agora adoptado por robôs de entregas.
Quando, em 2016, milhões de pessoas andavam pelas ruas com o telemóvel apontado a estátuas e monumentos à procura de Pikachus, provavelmente não imaginavam que estavam a fazer trabalho de cartografia. Mas era exatamente isso que acontecia.
A empresa por trás do Pokémon Go, a Niantic, recolheu ao longo de quase uma década mais de 30 mil milhões de imagens captadas pelos jogadores e usou-as para construir um sistema de navegação visual que vai agora guiar robôs de entrega de comida e mercearias pelas ruas das cidades.
A parceria foi anunciada esta semana entre a Niantic Spatial, uma divisão da Niantic focada em tecnologia espacial, e a Coco Robotics, uma empresa norte-americana que opera uma frota de cerca de mil robôs em várias cidades dos Estados Unidos e da Europa. Os robôs circulam pelos passeios a cerca de oito quilómetros por hora e já fizeram aproximadamente meio milhão de entregas, segundo o The Independent.
O problema com o GPS
O GPS funciona bem no campo aberto, mas em cidades com edifícios altos fica pouco fiável, lê-se na Popular Science. Os sinais saltam entre as fachadas e o ponto no mapa pode desviar-se vários metros, o suficiente para um robô acabar na porta errada ou na rua ao lado.
O sistema desenvolvido pela Niantic Spatial resolve isso de outra forma: em vez de depender de satélites, compara o que as câmaras do robô estão a ver com uma base de dados de imagens reais dos mesmos locais, captadas de vários ângulos e em diferentes condições de luz. O aparelho consegue localizar um ponto com precisão de poucos centímetros.

As imagens foram recolhidas de forma gradual e, em parte, incentivada. A partir de 2020, o jogo passou a pedir aos utilizadores que filmassem estátuas e pontos de interesse em troca de recompensas dentro do jogo, sem que ficasse claro, para a maioria, que esses dados alimentavam algo bem maior.
Não é caso único
O fenómeno não é novo. Os testes CAPTCHA do Google, em que os utilizadores identificam bicicletas ou semáforos para provar que são humanos, são há muito suspeitos de terem servido para treinar sistemas de visão artificial.
A Niantic Spatial diz que o objectivo é construir um “mapa vivo” do mundo, atualizado em tempo real pelos próprios robôs que agora circulam nas ruas. Quanto à próxima vez que alguém pedir uma pizza, é possível que seja um Pikachu a indicar o caminho.
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