“IA está a trazer pouco valor económico à maioria das empresas”, diz estudo
por Marta Amaral | 11 de Fevereiro, 2026
Apesar do aumento significativo da utilização de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) no local de trabalho, a maioria das empresas continua sem conseguir traduzir esse uso em valor económico real.
Esta é a principal conclusão do estudo “The AI Adoption Puzzle: Why Usage Is Up But Impact Is Not”, desenvolvido pela Boston Consulting Group (BCG), que analisou padrões de adoção de IA em organizações de vários setores e geografias.
De acordo com o estudo, 60% das empresas a nível global não está a gerar qualquer valor material com IA, mesmo após investimentos relevantes em tecnologia. O problema, sublinha o estudo, não reside na falta de ferramentas ou de acesso à tecnologia, mas sim na forma como a IA está ou não a ser integrada no trabalho quotidiano das pessoas e nos processos de maior valor para o negócio.
A adoção existe, mas é maioritariamente superficial
A investigação mostra que a maioria dos colaboradores utiliza a IA apenas para tarefas pontuais ou de apoio, sem uma transformação verdadeira da forma como o trabalho é feito. Mais de 85% dos profissionais permanece nos níveis intermédios de adoção, utilizando a IA sobretudo para assistência à informação ou execução de tarefas bem delimitadas, como redação de textos, cálculos ou síntese de conteúdos. Menos de 10% atingiu estágios avançados, nos quais a IA atua como um verdadeiro colaborador semiautónomo, com impacto direto nos fluxos de trabalho e na tomada de decisão.
Segundo o estudo, é precisamente nesta transição, da simples delegação de tarefas para uma colaboração estruturada entre humanos e IA, que começa a surgir a criação do valor em escala. Sem esta mudança, as organizações correm o risco de interpretar a adoção generalizada como sinal de maturidade, mesmo quando o impacto no negócio permanece limitado.
O bloqueio não é tecnológico, é humano
O estudo identifica que os principais obstáculos à criação de valor com IA são de natureza humana e organizacional. Falta de confiança nos resultados gerados pela IA, escassez de tempo para aprender e experimentar, receios relacionados com segurança, propriedade intelectual ou impacto no emprego e ausência de orientação clara por parte dos líderes continua a travar uma aprendizagem mais profunda.
A análise da BCG identifica cinco perfis recorrentes entre os colaboradores, desde os “AI Champions”, que lideram a experimentação, até aos “céticos cautelosos”, mais resistentes à mudança, reforçando que uma abordagem única à adoção de IA não funciona. Organizações que não segmentam os seus públicos internos e não adaptam a estratégia de adoção tendem a ficar presas numa utilização fragmentada e de baixo impacto.
Liderança e gestão intermédia fazem a diferença
O estudo sublinha ainda o papel crítico das lideranças na criação de condições para uma adoção eficaz. Gestores de primeira linha surgem como multiplicadores decisivos, influenciando diretamente a forma como as equipas integram a IA no dia a dia. Dados mostram que organizações com uma abordagem mais centrada nos colaboradores são até sete vezes mais propensas a atingir níveis elevados de maturidade em IA.
Além disso, apenas uma minoria das empresas tem investido de forma consistente em upskilling: embora 62% dos executivos apontem a falta de competências como o principal entrave à criação de valor com IA, apenas 6% afirma ter programas robustos de requalificação em curso.
“A velocidade da mudança que hoje exigimos às pessoas nas organizações é significativamente superior à do passado. Por isso, a capacidade de ativar essa mudança tornou-se crítica e, arriscamos dizer, até mais desafiante do que garantir o funcionamento da própria tecnologia.
Isso implica estudar e conhecer as nossas pessoas com o mesmo rigor com que, tradicionalmente, estudamos os nossos clientes. Ao fazê-lo, percebemos que existem diferentes subsegmentos, com motivações distintas, às quais é necessário responder de forma diferenciada.
Só assim será possível fazer evoluir a utilização de IA generativa para além do papel de mera ferramenta assistencial, avançando para modelos de verdadeira simbiose colaborativa e de orquestração autónoma de processos. É aí que, de facto, reside o valor”, afirma Eduardo Bicacro, Managing Director & Partner da BCG em Lisboa.
De utilização a impacto: um caminho estratégico
A BCG conclui que desbloquear o verdadeiro potencial da IA exige uma mudança clara de foco: da taxa de utilização para a qualidade da adoção. Isso implica capacitar pessoas, criar espaço para aprendizagem, envolver ativamente os gestores e demonstrar, com exemplos concretos, como a IA pode melhorar resultados e não apenas eficiência marginal.
Num contexto em que a IA se torna cada vez mais omnipresente, a diferença competitiva não estará em quem adota mais rápido, mas em quem consegue transformar essa adoção em impacto sustentável no negócio.
O estudo está disponível na íntegra aqui.
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