Guardião. A app portuguesa que bloqueia burlas tem três novos parceiros
por Gabriel Lagoa | 27 de Abril, 2026
Meses depois de ganhar um hackathon na Alemanha, o Guardião tem três novos parceiros e uma fila de espera para proteger os telemóveis dos portugueses.
A startup fundada pelos irmãos Rita e Tiago Barbosa anunciou duas novas parcerias: o Técnico Venture Lab, a nova incubadora do Instituto Superior Técnico, e a Pink Room. Uma terceira parceria será revelada esta quinta-feira. Juntamente com a Pink Room, vai trabalhar no desenvolvimento do Guardião com a Subvisual, empresa que ficou conhecida por desenvolver a StayAway Covid, a app de rastreio de contactos do Serviço Nacional de Saúde durante a pandemia.
O Guardião é, segundo a fundadora, “a primeira camada de proteção contra burlas nos telemóveis”. A ideia é bloquear chamadas e mensagens suspeitas antes de chegarem ao utilizador, sem que este precise de fazer nada. Basta instalar e dar as permissões necessárias.
O que acontece quando um burlão marca o número?
Quando um número desconhecido tenta ligar a quem tem o Guardião instalado, a chamada não passa diretamente. É atendida por uma voz gerada por inteligência artificial e sujeita a uma triagem rápida. “É como se fosse um secretário pessoal super inteligente, que analisa e decide autonomamente se deve ou não passar a chamada”, explica Rita Barbosa.
O sistema converte fala em texto e analisa padrões de linguagem em tempo real: urgência, pressão, manipulação emocional. “A urgência de ‘se não me fizeres agora a transferência, vou-te dar uma multa de cinco mil euros’… toda esta manipulação encaixa em padrões que conseguimos analisar e detetar.”
A referência não é ao acaso. A avó dos irmãos recebeu uma chamada a dizer que a sua água era imprópria para consumo, que estava a contaminar a família, que havia urgência em comprar filtros. Comprou quatro, a mil euros cada. O mesmo produto custava vinte euros no mercado.
A avó deixou de atender o telefone. Recusava tratar de contas que sempre geriu sozinha. “Ela começou a perder bastante autonomia, dizia que já precisava de ajuda do meu pai para tudo. Foi um declínio que nós notámos. Uma quebra total na confiança.”
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Sem enviar nada para fora do telemóvel
A app corre inteiramente no próprio dispositivo, sem enviar dados para servidores externos. É este detalhe que, segundo Rita Barbosa, tornava uma solução como esta inviável até há menos de um ano. “Há mais de um ano poderíamos ter usado estes modelos de linguagem, mas teríamos sempre de dar as informações todas a servidores externos, o que nunca foi aquilo que queríamos, nem sequer é possível em termos de privacidade.”
O que mudou foram os chamados SLMs, modelos de linguagem mais pequenos que, ao contrário dos anteriores, conseguem correr mais facilmente no telemóvel. A equipa está a afiná-los especificamente para deteção de fraude em português de Portugal, o que Rita considera uma vantagem sobre alternativas como a triagem de chamadas da Siri: “Cada país tem os seus próprios padrões. Portugal e Brasil falam a mesma língua, mas as burlas são completamente diferentes.”
Quanto à concorrência mais direta, Rita distingue o modelo do Guardião: “Outras aplicações, como a Sync.me, funcionam de forma reativa, marcam um número como spam, mas a chamada chega na mesma ao telemóvel. Nós queremos parar as burlas antes de chegarem, para não ser possível pensar: e se, na verdade, não fosse uma burla?”
O que ainda falta resolver
Há um cenário que a equipa quer evitar a todo o custo: uma burla que a app não detete e que resulte numa perda financeira para o utilizador. “Para nós, um falso negativo é bastante pior do que um falso positivo”, diz a fundadora. A solução, pelo menos nesta primeira fase, é calibrar a app para bloquear em caso de dúvida, preferir errar para o lado da cautela do que deixar passar.
A app vai ser lançada primeiro para Android, sem data confirmada. O caminho passa por testes internos, depois por uma bateria de testes com a PSP, e só então será dada prioridade às pessoas inscritas na lista de espera.
O modelo de negócio também não está fechado. “Sabemos o que queremos, que é proteger os telemóveis. Como é que isso se sustenta financeiramente, ainda não sabemos”, remata Rita Barbosa.
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