Graphenest quer levar grafeno português para a defesa europeia
por Gabriel Lagoa | 14 de Julho, 2026
Com fábrica em Sever do Vouga, a Graphenest quer passar de uma para 50 toneladas de grafeno por ano e entrar no mercado da defesa.
Tudo começou com uma bolsa de empreendedorismo, usada por Vítor Abrantes para estudar o potencial de um material que conduz eletricidade e calor melhor do que os metais, é mais leve e impermeável: o grafeno. Nesse processo conheceu Bruno Figueiredo e Rui Silva, que se juntaram ao projeto, e os três passaram cerca de um ano a estudar como levá-lo ao mercado antes de fundarem a Graphenest, em 2015, em Sever do Vouga. “Percebemos desde cedo que o valor do grafeno estava na substituição de metais em aplicações industriais”, resume Vítor Abrantes, CEO da empresa.
A fábrica em Sever do Vouga produz hoje cerca de uma tonelada de grafeno por ano, transformada em dois produtos: o G-Shield, um composto termoplástico para blindagem eletromagnética, e o HexaShield, uma tinta condutora. Há acordos com a Lohmann, a Hubron e a DeltaTecnic, e pilotos no automóvel, na eletrónica e na saúde: “quando parceiros industriais europeus integram o nosso material nos seus processos, a dúvida desaparece. É um negócio”, diz o executivo.
Antes disso, em 2018, a Graphenest tinha sido a única startup estrangeira aceite numa edição do acelerador da Força Aérea dos Estados Unidos, gerido pela Techstars, com quatro meses em Boston e conversas com mais de 100 pessoas, entre oficiais militares, professores e investidores. A experiência, conta Vítor Abrantes, obrigou a empresa a “subir na cadeia e desenvolver produtos que tirassem partido do material”. “Muito do que atualmente fazemos em blindagem eletromagnética nasceu dessa aprendizagem”, afirma.
A entrada na corrida da defesa europeia
É essa aprendizagem que a Graphenest quer agora aplicar à defesa, num momento de rearmamento europeu. A empresa integra o consórcio do projeto ASTRAL, com a Controlar, o PIEP e a Universidade de Aveiro, financiado com 1,86 milhões de euros pelo Portugal 2030, com o objetivo de desenvolver, até 2029, um material que absorve radiação eletromagnética entre os 2 e os 110 GHz, cobrindo as principais bandas de radar e de comunicações. Para o CEO, “a transição da defesa europeia é, antes de tudo, um desafio físico e de engenharia”, que a Europa pode enfrentar graças às reservas de grafite na Suécia e na Noruega: “o digital, sozinho, não garante soberania”.

A escala é, para já, o principal obstáculo. Da tonelada anual atual, a meta de curto prazo é chegar às 50, com uma ronda de investimento em curso que a empresa espera fechar em breve. Pelo caminho está a China, que domina cerca de 85% da refinação mundial de grafite. Vítor Abrantes não disputa essa frente: “nós competimos com tecnologia e produto”, com patentes já registadas nos Estados Unidos e no Canadá, defendendo que “a Europa tem de assumir o controlo desta indústria”.
Há uma linha que a empresa faz questão de explicar: o mesmo material que protege um automóvel elétrico pode tornar um drone mais difícil de detetar por radar. Vítor Abrantes remete a resposta para a física do produto, cuja função “é sempre a proteção eletromagnética”, seja na cablagem de um carro, em adesivos para eletrocardiogramas ou em equipamento militar. A empresa “cumpre a regulação europeia de dupla utilização” e trabalha “apenas com parceiros qualificados e identificados”. A Força Aérea Portuguesa pode participar nos ensaios finais do ASTRAL, forma de validar o material “em condições reais de utilização”. Sobre a necessidade dessa proteção, é direto: “uma interferência pode significar perda de dados, a falha de um sistema ou consequências bem mais graves num hospital, num centro de dados, em infraestruturas críticas ou num avião”.
Questionado sobre onde quer ver a empresa daqui a cinco anos, O CEO da Graphenest fala em mais de 50 toneladas de capacidade anual e cerca de 50 colaboradores: “a Europa precisa de empresas que produzam a base física da sua autonomia tecnológica e nós queremos estar na linha da frente”.