Falsos médicos gerados por inteligência artificial aumentam nas redes sociais
por Gabriel Lagoa | 19 de Maio, 2026
Vídeos com médicos falsos criados por inteligência artificial acumulam milhões de visualizações no TikTok e Instagram. Ordem dos Médicos avisa que o fenómeno não tardará a chegar a Portugal.
Imagina um médico de bata branca, ar sério, linguagem convincente, a recomendar um suplemento para baixar o colesterol ou a garantir que a cúrcuma substitui a medicação para a diabetes. Parece credível. O problema é que esse médico não existe, é gerado por inteligência artificial.
Este fenómeno está a crescer nas redes sociais há pelo menos um ano. Segundo um relatório da organização Science Feedback publicado em fevereiro, foram identificadas 18 contas no TikTok em poucas horas de pesquisa, algumas com centenas de milhares de seguidores e vídeos com mais de 14 milhões de visualizações. A plataforma de segurança ESET também documentou mais de 20 contas deste tipo no TikTok e Instagram, onde personagens virtuais imitam profissionais de saúde para promover produtos sem validação científica.
De acordo com a agência Lusa, que cita a plataforma de segurança online ESET, o padrão é sempre semelhante: alguém que se apresenta como especialista, com anos de experiência, dá conselhos de saúde que acabam por conduzir à compra de um produto. Às vezes vão mais longe e usam a imagem de médicos reais. A Science Feedback fala em casos que incluem cirurgiões ortopédicos e especialistas em perda de peso cujas caras foram usadas sem autorização para promover afirmações sem base científica.
Em Portugal, a Ordem dos Médicos ainda não recebeu queixas
Luís Cunha Miranda, coordenador do Observatório do Ato Médico da Ordem dos Médicos, diz que, até agora, não chegou nenhuma queixa relacionada com falsos médicos digitais. “Não me parece que esteja presente, pelo menos nós não tivemos até agora no Observatório do Ato Médico nenhuma queixa relativamente a isso”, admite. Mas acrescenta de imediato: “Isto que está a acontecer noutros países rapidamente acontecerá em Portugal.”
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O responsável enquadra este problema num cenário mais vasto que a Ordem já conhece bem, o dos falsos médicos físicos, pessoas sem formação adequada que praticam atos médicos no mundo real. “Ainda não lidámos bem com esse mundo real e vamos ser confrontados com este mundo virtual, que é muito mais rápido e muito mais agressivo.”
A preocupação não é apenas com os conselhos errados em si. Luís Cunha Miranda lembra que mesmo os suplementos aparentemente inofensivos podem ter riscos, desde interações com medicamentos a efeitos diretos que variam de pessoa para pessoa. “Os suplementos, tal como tudo aquilo que a pessoa toma, devem estar enquadrados num percurso de saúde”, sublinha.
O que acontece a quem gera um médico falso de IA?
Uma das questões desta conversa é a ausência de resposta do Estado. Se alguém criasse hoje uma conta de IA a fazer-se passar por médico em Portugal, “provavelmente não lhe acontecia nada”, reconhece Luís Cunha Miranda.
O Estado, afirma, não tem a capacidade de investigação adequada para detetar e punir este tipo de fraude. “Há outros países que estão a começar a desenvolver ferramentas para identificação de falsos médicos e de falsos especialistas, e isso é algo em que nós também estamos interessados e estamos a tentar colaborar com um dos países que está mais desenvolvido nessa área, para sermos mais proativos, porque uma ordem profissional não tem a capacidade inspetiva do Estado”, acrescenta o médico.
Além disso, “as ordens profissionais, maioritariamente, reagem a queixas e denúncias”, lembra o coordenador do Observatório do Ato Médico. Se alguém denunciasse uma conta deste tipo, a Ordem dos Médicos poderia apresentar queixa ao Ministério Público por usurpação de funções. A responsabilidade legal não recairia sobre a personagem virtual, que não existe, mas sobre quem a criou e quem beneficia com ela, sublinha Luís Cunha Miranda.
Incentivos económicos desalinhados com a proteção dos utilizadores
A autorregulação das plataformas também não convence. “Estas plataformas servem para gerar dinheiro”, diz, apontando que os incentivos económicos não estão alinhados com a proteção dos utilizadores. A solução, para Luís Cunha Miranda, passa por três frentes em simultâneo: definir claramente o que é o ato médico no contexto digital, responsabilizar quem cria e lucra com estes conteúdos, e apertar as obrigações legais das plataformas. “O crime não pode compensar e ainda hoje, em Portugal, o crime compensa.”
Do lado prático, a Ordem dos Médicos disponibiliza no seu site uma ferramenta onde qualquer pessoa pode verificar se um médico está registado e quais as suas especialidades. É um primeiro filtro que Luís Cunha Miranda recomenda usar antes de seguir qualquer conselho de saúde online, seja de um humano ou de uma personagem que apenas parece sê-lo.
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