Voltar | Mobilidade Dossier: The Next Big Idea - O Podcast

“Estradas que travam os carros antes do acidente”. O futuro da mobilidade no Grupo Brisa

por Marta Amaral | 24 de Dezembro, 2025

A inovação numa empresa de infraestruturas rodoviárias não pode seguir exatamente as mesmas regras das startups tecnológicas.

No setor da mobilidade, experimentar rapidamente implica lidar com risco, segurança e escala. É a partir desta premissa que Ana Almeida Simões, responsável de Inovação do Grupo Brisa, enquadra a estratégia do grupo no quarto episódio do podcast The Next Big Idea, gravado ao vivo no Centre Stage do Web Summit, em Lisboa.

Questionada sobre o famoso mantra “Move fast, break things”, popularizado por Mark Zuckerberg, Ana Almeida Simões defende que num contexto em que a segurança rodoviária é central, falhar faz parte do processo, desde que exista aprendizagem e decisões rápidas.

Move fast, break things. Gosto muito da primeira parte da frase, menos um bocadinho da segunda, mas acho que é muito importante ir fazendo alguns erros e falhar um bocadinho ao longo do caminho. Em inovação, falhar é um facto da vida”, refere a responsável de Inovação.

Esta filosofia tem moldado a forma como a Brisa aborda a inovação e a colaboração com o ecossistema. Depois de vários anos a participar em aceleradores genéricos, o grupo lançou o Ahead Start, um programa de inovação aberta focado em desafios concretos, com especial destaque para a segurança rodoviária. O objetivo é testar soluções em contexto real, decidir rapidamente se fazem sentido e evitar pilotos prolongados sem impacto.

A inovação é organizada de forma transversal às várias unidades do grupo (das autoestradas à Via Verde, dos centros de inspeção à área de infra-tech) com uma direção central responsável pelo scouting tecnológico, pela gestão de parcerias e pela articulação com startups, academia e outras empresas.

Na Brisa, a inovação não começa na procura de startups “cool”. O ponto de partida é sempre a identificação dos desafios de cada unidade de negócio e a avaliação das diferentes formas de os resolver que nem sempre passam por startups.

“Nós não vamos à procura de startups só por serem cool. Fazemos sempre uma lista dos desafios que cada unidade de negócio tem, porque nem sempre a resposta é uma startup. Pode ser uma parceria com a academia, um projeto universitário ou uma corporate”, explica a responsável de Inovação do Grupo Brisa.

Preparar a estrada para a condução autónoma

A forma como a Brisa olha para o futuro da mobilidade passa, inevitavelmente, pela condução autónoma. Para Ana Almeida Simões, a ambição de reduzir para zero o número de mortos e feridos graves na estrada dificilmente será atingida apenas com melhorias incrementais no comportamento dos condutores. A verdadeira rutura virá quando a mobilidade for totalmente autónoma. Até lá, o trabalho está a ser feito nos bastidores: preparar as infraestruturas para esse cenário.

“Aquilo que nós estamos a fazer do ponto de vista das autoestradas tem muito a ver com sensorizar as nossas autoestradas para comunicarem diretamente com os veículos”, refere a especialista em inovação.

Esse esforço traduz-se, desde logo, na transformação de alguns troços em living labs. A Brisa está a testar modelos de comunicação direta entre a infraestrutura e os veículos, antecipando um futuro em que os alertas deixam de depender de painéis ou sistemas intermédios e passam a ser enviados diretamente para o carro. O objetivo é permitir respostas automáticas, como travagens em caso de acidente ou situações de risco.

Inteligência artificial sem hype

Neste caminho, a inteligência artificial (IA) assume um papel relevante, mas longe de ser encarada como uma solução milagrosa. Num setor altamente físico, crítico e regulado, Ana Almeida Simões defende uma abordagem pragmática, ajustada aos problemas concretos do negócio.

“Especialmente na questão de infraestruturas, nem sempre a inteligência artificial é a resposta para tudo. Nem todos os nossos desafios são respondidos por inteligência artificial.”

Onde a IA tem vindo a revelar maior impacto é no tratamento e valorização dos dados: na personalização da experiência do cliente, na gestão da jornada de mobilidade multimodal, na integração com cidades inteligentes e na otimização dos fluxos de tráfego. Mais do que substituir decisões humanas, a tecnologia é usada como ferramenta para apoiar escolhas mais informadas e serviços mais eficientes.

Essa visão realista estende-se também à forma como a responsável de Inovação olha para o futuro do ecossistema nacional. Em vez de apostar em previsões tecnológicas grandiosas, sublinha a importância de aprofundar a colaboração entre grandes empresas, startups e academia.

“Uma previsão otimista seria termos um ecossistema em Portugal que já é muito colaborativo, mas que colaborasse ainda mais e nos conseguisse trazer mais sinergias”, conclui Ana Almeida Simões, responsável de Inovação do Grupo Brisa. 

O The Next Big Idea é um podcast onde se fala sobre o que realmente move o futuro dos negócios. Empreendedorismo, inovação, tecnologia, investimento e estratégia em conversas exclusivas com líderes de empresas de referência no panorama nacional e internacional. Podes ouvir todos os episódios no Spotify, na Apple e no Youtube.