Entre alertas e previsões, estas foram as conversas sobre IA em Davos
por Gabriel Lagoa | 21 de Janeiro, 2026
O Fórum Económico Mundial voltou a discutir tarifas, conflitos e comércio global, mas também a tecnologia que já influencia decisões sobre emprego, investimento e estratégia.
Entre os Alpes suíços, a inteligência artificial conseguiu este ano aquilo que poucas questões alcançam: eclipsar alguns temas habituais do Fórum Económico Mundial. Enquanto Donald Trump ameaçava a Gronelândia, os participantes em Davos trocavam análises sobre modelos de IA, corrida tecnológica global e o futuro do trabalho.
O tom foi dado logo na abertura. Larry Fink, presidente da BlackRock e co-presidente interino do fórum, alertou que o capitalismo concentrou riqueza desde o fim da Guerra Fria e que a IA pode repetir o padrão. “Os ganhos iniciais estão a fluir para os donos dos modelos, os donos dos dados e os donos da infraestrutura”, disse Larry Fink, citado pela Business Insider. A questão, para o responsável, é saber o que acontece aos trabalhadores e à maioria da população que ficam de fora desta distribuição de riqueza.
As preocupações ganharam contornos práticos quando Dario Amodei, da Anthropic, e Demis Hassabis, da DeepMind (Google), confirmaram ver sinais de impacto da IA em funções júnior nas próprias empresas. “Estamos a começar a ver os primeiros indícios em software e programação”, afirmou Dario Amodei à Business Insider, acrescentando que prevê um momento em que a Anthropic precisará de menos pessoas em níveis júnior e intermédio. Demis Hassabis foi ligeiramente mais otimista, referindo que espera a criação de empregos mais significativos, mas admitiu uma desaceleração na contratação de estagiários.
Os limites de uma IA “demasiado humana”
A conversa ganhou outra dimensão com Yoshua Bengio, um dos chamados “padrinhos da IA”. O cientista canadiano deixou um aviso: os sistemas atuais estão a ser treinados para serem demasiado semelhantes aos humanos. “As IAs não são realmente humanas”, citado pela Euronews, alertando para os perigos de interagir com estas ferramentas como se fossem.
O filósofo Yuval Harari trouxe uma nota de cautela adicional. Classificou a superinteligência artificial (sistemas que superam as capacidades cognitivas humanas) como território inexplorado e defendeu mecanismos de correção caso algo corra mal. “As entidades mais inteligentes do planeta podem também ser as mais iludidas”, disse.
Energia, centros de dados e competitividade
Do lado empresarial, Satya Nadella, da Microsoft, colocou a energia no centro da equação. O líder da tecnológica americana disse no Fórum Económico Mundial que o crescimento do PIB de qualquer país estará diretamente correlacionado com o custo da energia para processar tokens de IA, segundo a CNBC. O que são esses tokens? São unidades de dados processadas por modelos de IA durante o treino e inferência, permitindo assim a previsão, a geração e o raciocínio.
Com a Microsoft a planear gastar 80 mil milhões de dólares em centros de dados, metade fora dos Estados Unidos, Satya Nadella foi direto: “Perderemos rapidamente a aceitação social para usar energia se estes tokens não melhorarem resultados na saúde, educação e eficiência”.
A tensão geopolítica não ficou de fora. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, comparou à Bloomberg a venda de processadores H200 da Nvidia a Pequim com “vender armas nucleares à Coreia do Norte”. Demis Hassabis, da DeepMind, por sua vez, estimou que as empresas chinesas de IA continuam seis meses atrás das rivais ocidentais, num contraste com o frenesim criado no ano passado pelo lançamento do modelo de inteligência artificial R1 da DeepSeek.
Entre previsões sobre o fim de empregos, alertas sobre sistemas demasiado humanos e corridas geopolíticas, Larry Fink, presidente da BlackRock, voltou à questão central: como garantir que os ganhos da IA não reproduzem os erros do passado? “O capitalismo pode evoluir para transformar mais pessoas em donas do crescimento, em vez de espetadoras”, afirmou.
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