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Como um produto que nunca existiu conseguiu dominar as redes sociais

por Gabriel Lagoa | 13 de Fevereiro, 2026

A APAV lançou um produto fictício que prometia monitorizar relações 24/7. A reação foi imediata (e era esse o objetivo).

Dois chips subcutâneos. Acesso automático a passwords. Localização em tempo real. Era isto que o RelationChip prometia: uma solução tecnológica para casais que queriam pôr o namoro à prova. O slogan? “Dois chips, um namoro, zero segredos.” Parece invasivo? Era mesmo suposto parecer.

O produto foi apresentado no dia 9 de fevereiro com direito a site próprio, perfil de Instagram, TikTok e até mupis digitais espalhados pelo país. A reação nas redes sociais não se fez esperar, com críticas generalizadas sobre o carácter controlador e invasivo da ideia. E foi exatamente isso que a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima queria ouvir.

Porque o RelationChip nunca existiu de verdade. Era uma campanha de sensibilização para expor algo que muitos jovens normalizam: comportamentos de controlo nos relacionamentos.

Nos últimos quatro anos, a APAV apoiou 3.968 vítimas de violência durante e após relações amorosas. Desse total, 29% eram jovens com menos de 25 anos que sofreram pelo menos um tipo de violência, como controlo, violência psicológica, perseguição ou violência sexual. O controlo está no topo da lista como o comportamento mais normalizado e frequentemente confundido com amor ou confiança.

“Aquilo que parecia aberrante num chip é, na verdade, o que muitos casais fazem diariamente e normalizam”, explica João Lázaro, presidente da APAV. A campanha funcionou como espelho: as funcionalidades consideradas absurdas do RelationChip, como a localização 24/7, sincronização de passwords, monitorização de contactos, são práticas que muitos jovens já fazem através dos telemóveis.

A revelação chegou alguns dias depois do lançamento. Os mesmos canais que promoveram o RelationChip agora transmitem uma mensagem diferente: “Muda o chip. Controlo no namoro é violência.” A ideia é mostrar que o rastreamento da localização, o acesso forçado a passwords, o controlo de amizades e a monitorização de mensagens não são provas de amor. São sinais de violência.

Para João Lázaro, a estratégia passou por “confrontar indiretamente comportamentos normalizados e fomentar a reflexão através de uma inversão de perspetiva.” Basicamente, mostrar o absurdo de um chip para fazer as pessoas perceberem o absurdo de comportamentos que já existem no digital.

A APAV tem uma Linha de Apoio à Vítima (116 006) disponível entre as 8h e as 23h em dias úteis. A campanha foi desenvolvida em parceria com agências do Grupo Omnicom — BBDO, OmnicomPRGroup e OMD — e a produtora LOOKS:GOOD.

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