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A geração que não lê notícias (“mas que nunca esteve tão informada”)

por Marta Amaral | 31 de Março, 2026

Um estudo da Reuters revela que a nova geração consome mais informação do que qualquer outra na história. O problema é que não lhe chamam “notícias”.

Há dez anos, um jovem de vinte anos que quisesse saber as notícias abria o site de um jornal ou de uma televisão. Hoje, esse gesto quase não existe. As notícias chegam aos jovens enquanto fazem scroll nas redes sociais, enquanto veem vídeos de amigos, enquanto partilham memes entre si. Chegam sem que ninguém as tenha procurado.

O relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism chama a isto a passagem de “online-first” para “social-first”, uma mudança com várias consequências. Quando as notícias aparecem no meio de tudo o resto, a relação com a informação torna-se diferente: menos intencional, mais passiva e, sobretudo, sem memória da origem. Se perguntarem a um jovem: “Que jornal escreveu aquele artigo?” A maioria não sabe, e cada vez quer menos saber.

Não foi só o consumo de notícias que mudou; mudaram também as plataformas. O Facebook, que há uma década dominava de forma quase absoluta o consumo de informação entre os mais novos, entrou em colapso neste segmento. Em substituição, instalou-se um trio audiovisual: TikTok, Instagram e YouTube, plataformas feitas de vídeo, imagem e som, onde o texto está cada vez mais fora de moda.

De “online-first” para “social-first”

Há uma narrativa instalada de que os jovens já não querem saber do mundo. O estudo contraria, em parte, essa ideia. Aponta para uma geração que define “notícias” de forma diferente.

Para estes jovens, notícias não são apenas política, economia ou conflitos internacionais. São também saúde mental, sustentabilidade, cultura ou aquele criador no YouTube que explica, em dez minutos, o que se passa no Médio Oriente de forma acessível. É um conceito mais amplo, mais pessoal, menos formal.

Há ainda outro dado que desafia a narrativa do “jovem desleixado”: a tendência de “evitar ver notícias” é semelhante em todas as faixas etárias. Os jovens não são os que mais fogem da informação, são talvez mais honestos sobre o porquê. Não lhes parece relevante. Não percebem o contexto. Chegam a uma história a meio e desistem porque seria preciso ir procurar o início.

“Lembro-me de crescer a ver notícias e pensar: tenho de ir pesquisar tanta coisa que não percebo”, explica um jovem de 25-30 anos citado no estudo.

Informados por pessoas e não por marcas

Hoje, nas redes sociais, quem capta a atenção dos jovens não é o Público, a BBC ou o Le Monde. São, por exemplo, Hugo Travers, que em França construiu um império mediático com uma câmara e um canal de YouTube iniciado na universidade; Dylan Page, no Reino Unido; ou Abhi and Niyu, na Índia. São pessoas, não marcas.

Metade dos jovens que usam as redes sociais para se informar diz prestar mais atenção a criadores individuais do que a meios de comunicação tradicionais. Entre os maiores de 55 anos, essa relação inverte-se por completo. É como se estivéssemos a falar de dois ecossistemas de informação que coexistem no mesmo ecrã, mas raramente se cruzam.

Porquê? Porque os criadores fazem algo que o jornalismo tradicional nem sempre consegue: falam para o jovem, não sobre o jovem. Explicam. Desmistificam. Admitem quando não sabem. E, sobretudo, parecem reais.

“Imparcialidade” com limites?

Aqui, o estudo deteta uma tensão que deve ser vista com cuidado. Os jovens continuam a valorizar a imparcialidade e acreditam que as notícias devem ser factuais e equilibradas, mas têm uma visão diferente sobre onde a neutralidade faz sentido e onde deixa de fazer.

Para uma parte crescente desta geração, pedir imparcialidade em temas como racismo ou alterações climáticas parece absurdo, porque consideram que há questões em que “ouvir os dois lados” pode ser, por si só, uma distorção da realidade. É uma perspetiva que colide com um dos pilares históricos da democracia e do jornalismo ocidental, e à qual os meios de comunicação ainda procuram responder. E será que devem?

Curiosamente, a confiança nas notícias entre jovens e adultos mais velhos está mais próxima do que se pensa. O fosso existe, mas é menor do que o que a narrativa dominante sugere.

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A curadoria com IA

Enquanto muitos adultos olham para a inteligência artificial (IA) com desconfiança – “será isto real?”, “quem escreveu isto?” – , os jovens cresceram rodeados de tecnologia e encaram a inteligência artificial como encararam o Google, o Spotify ou o Instagram: mais uma ferramenta disponível.

Usam chatbots para pedir explicações sobre notícias complexas. Para avaliar a fiabilidade de fontes. Para resumir conflitos que nunca acompanharam desde o início. Não é descrito como “preguiça”, mas como uma estratégia de navegação num oceano de informação onde ninguém lhes ensinou a nadar.

Estão também mais abertos à presença da IA no jornalismo, seja para resumir artigos ou para converter texto em áudio ou vídeo. Não por ingenuidade, mas porque o formato tradicional muitas vezes não acompanha o ritmo das suas vidas. Ouvir notícias enquanto fazem outra coisa? Ideal. Ler um artigo de três mil palavras sobre política fiscal? Fica para depois.

Como fica o jornalismo?

O estudo do Reuters Institute não é uma sentença de morte ao jornalismo, mas um sinal claro de mudança. Os jovens não viraram costas à realidade, mas à forma como o jornalismo tradicional decidiu contá-la.

Querem formatos que caibam nas suas vidas. Querem vozes que pareçam humanas. Querem notícias que expliquem, não apenas que informem. Querem sentir que aquilo tem impacto na sua vida, não de uma forma abstracta, mas como uma coisa que afeta o seu dia, o seu futuro e a sua identidade.

De acordo com o relatório, o desafio não está apenas em estar no TikTok ou em lançar um podcast. Está em perceber que uma geração inteira está a redefinir o que significa estar informado, e que o jornalismo pode escolher fazer parte disso ou assistir de fora.