O comboio de tempestades já passou, o que resta no bolso dos portugueses?
por Marta Amaral e Mariana Santos Galo (Jornalista) | 31 de Março, 2026
A tempestade Kristin deixou um rasto de prejuízo em vários setores de produção, sobretudo, nos produtos hortícolas. Os apoios demoram a chegar e os empresários deixam críticas ao desenho dos apoios já lançados. O bolso dos portugueses vai sentir o peso da catástrofe e nem é só do ponto de vista da reconstrução.
O impacto económico das tempestades fez-se sentir de forma transversal. O ministro da Economia e Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, anunciou que os custos das tempestades, incluindo a tempestade Kristin, vão ultrapassar os 4,7 mil milhões de euros.
Em entrevista à Rádio Observador, afirmou que os apoios para reconstrução de casas estão atrasados devido à falta de vistorias das câmaras municipais, mas que 3.725 empresas já receberam apoio financeiro, totalizando 877 milhões de euros, com quase 5 mil empresas em processo de contratualização.
Castro Almeida admitiu que o processo de apoios “não está a correr bem” e responsabilizou parcialmente as autarquias, justificando que estas têm de priorizar estradas, escolas e outras tarefas. Para acelerar as avaliações das casas, foram contratados 700 técnicos através de protocolos com as Ordens dos Arquitetos e Engenheiros, pagos pelo Estado.
O valor final dos custos ainda não está definido, devendo o levantamento ficar concluído no final do mês. Parte das verbas do PRR poderá ser reprogramada para comprar geradores, telefones satélite e equipamentos de emergência, além de pequenas alocações ao programa PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência.
Se os custos são elevados de forma geral e no que à reconstrução diz respeito, as consequências económicas não se restringem à zona centro. Por todo o país há setores mais afetados do que outros, como é o caso do agroalimentar, a indústria da madeira, a construção e a agricultura.
O presidente da NERLEI- Associação de Empresários de Leiria, Luís Febra, destaca ao 24notícias o impacto em setores como a cerâmica, moldes, plásticos, e metalomecânica, já pressionados por crises anteriores como o apagão e a pandemia.
Além disso, em declarações ao The Next Big Idea, Armindo Monteiro, presidente da CIP (Confederação Empresarial de Portugal) enfatiza que setores como o agroalimentar e o florestal, vão tornar-se cada vez mais vulneráveis. Isto porque são pressionados pela alternância entre ondas de calor e de frio, tempestades, chuvas torrenciais e secas prolongadas, com consequências como incêndios rurais, inundações e aridez dos solos.
Entre os especialistas há mesmo quem aponte para a necessidade de mudança de paradigma. Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP (Associação Empresarial de Portugal) e Armindo Monteiro estão de acordo: este tipo de fenómenos extremos vai acontecer cada vez mais e por isso, exigem uma mudança estrutural na forma como as empresas se preparam.
Se nas grandes empresas, o risco climático já começa a integrar as agendas estratégicas, nas PME, o caminho continua a ser mais longo. Ainda assim, este episódio deve servir de alerta e reforçar a ideia de que, nos últimos anos, não olhámos com a seriedade necessária para um problema transversal, que exige uma mudança efetiva.
Como é que fica o bolso dos portugueses?
No que diz respeito às consequências das tempestades no custo de vida dos portugueses, Filipe Garcia, economista formado pela Faculdade de Economia do Porto, considera que o impacto, até agora, foi “residual” para a população em geral, limitando-se sobretudo à subida de preços de alguns produtos frescos, nomeadamente nos produtos hortícolas. Já para os diretamente afetados, sublinha, o efeito é “naturalmente direto e muito penalizador”.
Segundo dados da Deco Proteste desde 7 de janeiro e até quarta-feira passada, registaram-se várias subidas nesta categoria. Um dos destaques vai para a curgete, cujo preço por quilograma (kg) passou de 1,89 para 2,35 euros, e para a couve coração, que aumentou de 1,47 para 1,78 euros por kg.
A batata vermelha passou a custar mais nove cêntimos, e o tomate está mais caro sete cêntimos. Houve um acréscimo de sete cêntimos na embalagem de 500 gramas de alho seco, que custa agora 3,43 euros. As cenouras estão mais caras 7 cêntimos por kg. Do lado das subidas encontra-se também a laranja e a maçã gala, cujo quilo encareceu quatro cêntimos desde 7 de janeiro.
No sentido oposto, foram os brócolos que registaram a maior descida de preço, caindo de 3,15 para 2,87 euros por quilos, ou seja, menos 28 cêntimos. Segue-se a couve-flor, com uma descida de 26 cêntimos por kg e a cebola, com um decréscimo de 11 cêntimos. Do lado das descidas está também a banana, que passou de 1,33 para 1,27 euros por kg e a maçã golden, cujo preço cedeu de 2,16 para 2,14 euros por kg.
Contudo, as razões para estas subidas de preços, não se explicam apenas pelos efeitos causados pelo comboio de tempestades deste inverno. Se isto não fosse suficiente, há mais: “O impacto da guerra é e será muito superior”, antecipa o membro da direção da APAF — Associação Portuguesa de Analistas Financeiros, em análise às consequências dos últimos desenvolvimentos da guerra no Irão.
O especialista em mercados financeiros destaca que, no curto prazo, a subida dos preços dos combustíveis constitui o primeiro efeito visível, mas apenas o início. A médio e longo prazo, a pressão sobre as famílias deverá intensificar-se. Numa primeira fase, através do aumento dos preços dos bens, impulsionado pelos custos de transporte mais elevados. Seguidamente, poderá surgir um novo impacto associado à subida das taxas de juro e à eventual escassez de fertilizantes, com reflexos adicionais nos preços. Se o conflito se prolongar, alerta, os efeitos de segunda ordem tenderão a propagar-se ao conjunto da economia, agravando o impacto generalizado.
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Portugal está protegido pelas importações?
Se por um lado a falta de autossuficência prejudica o país, como é o caso da pressão inflacionista causada pela guerra no Irão, no caso da tempestade pode ter sido um fator positivo.
“Portugal não é autossuficiente em vários bens agrícolas e recorre a fornecedores de outras geografias, o que permite compensar perdas pontuais”. Nesse sentido, “não é por aí que os produtos vão aumentar ou faltar”, lembra Gonçalo Lobo Xavier, presidente da APED (Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição).
O responsável do setor da distribuição destaca que o retalho alimentar mostrou grande capacidade de adaptação. Das cerca de 51 lojas na região de Leiria, o o concelho mais afetado, apenas quatro não abriram no dia seguinte, graças a geradores e planos de contingência. Mesmo com estradas cortadas e dificuldades logísticas, o fornecimento manteve-se, evitando ruturas de produtos.
No que diz respeito à competitividade internacional, reconhece que houve impacto, especialmente nas exportações de produtos como hortofrutícolas e frutos vermelhos, ainda que difícil de quantificar. Ainda assim, sublinha que “não é apenas aquela zona do país que alimenta o país e contribui para as exportações”.
Apoios: “A resposta não pode ser deixada na mão dos privados”
No que diz respeito aos apoios às zonas mais afetadas pelas tempestades, Gonçalo Lopes o presidente da Câmara de Leiria refere que uma parte significativa dos danos foi participada às seguradoras, sendo que “mais de 60% das empresas acionaram os seus seguros”.
Outro sinal da dimensão dos estragos surge nos pedidos de apoio financeiro. Até ao momento, foram apresentadas 1086 candidaturas ao Banco de Fomento por empresas do concelho de Leiria, num total de 260 milhões de euros, o valor mais elevado registado no país.
Em declarações ao 24notícias, Gonçalo Lopes defende que a resposta deve privilegiar apoios a fundo perdido, em vez de empréstimos. “Só se consegue salvaguardar estes investimentos se o empresário tiver um apoio que não seja em termos de empréstimo”, afirma, alertando que muitas empresas já enfrentam dificuldades de tesouraria. “Depois de uma catástrofe destas, torna-se difícil honrar compromissos futuros.”
O objetivo, diz, é evitar uma escalada do desemprego e um impacto mais profundo na economia. “Mais vale resolver o problema à nascença do que depois ir atrás do prejuízo”, sustenta, lembrando que os custos para o Estado com subsídios de desemprego poderão ser superiores caso não haja uma resposta eficaz.
Já a Confederação Empresarial de Portugal (CIP) apela a que a resposta não seja deixada apenas nas mãos dos privados: a adaptação “não pode ser tratada unicamente como uma responsabilidade individual dos produtores, devendo antes ser assumida como prioridade estratégica de política pública.”
Nesse sentido, Armindo Monteiro deposita expetativas na Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030, bem como no pilar de resiliência do PTRR.
Mas há uma crítica concreta ao desenho dos apoios já lançados. Os mecanismos atuais “acabam por deixar em igual situação quem contratou seguros e quem não contratou”, uma falha que, na sua opinião, deveria ter sido evitada e que desincentiva a prevenção individual.
A par disso, alerta para um risco muitas vezes ignorado: a “desistência de empresários cujas empresas foram afetadas pelas recentes tempestades.”