Qual é o futuro dos marketplaces? Depois de 20 anos, o OLX Group julga ter a resposta
por Miguel Magalhães (Texto) | 29 de Outubro, 2026
Em duas décadas, o grupo passou dos pequenos anúncios online a plataformas de motores, imobiliário e emprego. Agora aposta em agentes de inteligência artificial que fazem o trabalho por quem compra e vende. Suresh Krishnan, CFO e CTO do grupo, explica porque diz que a confiança continua a ser o ativo mais difícil de copiar.
Quando o OLX nasceu, em 2006, comprar um carro ou arrendar uma casa passava por folhear jornais e telefonar a desconhecidos. Vinte anos depois, o grupo holandês opera em cerca de 30 países com marcas como OLX, Standvirtual e a Imovirtual. E prepara-se para uma nova mudança: a de ver as pesquisas feitas por agentes de IA, em vez de pessoas.
Suresh Krishnan acompanha esta transição há uma década. Em conversa com o The Next Big Idea, recusa a palavra “desafio”. “Vejo-o como uma enorme oportunidade”, afirma.
Duas décadas de evolução
O OLX Group nasceu como uma plataforma generalista de classificados. Com o tempo, cresceu por aquisições e foi apostando nas verticais de veículos, imobiliário e emprego, que hoje são os principais motores do negócio.
- Os números do último ano fiscal, terminado a 31 de março de 2026, mostram essa trajetória: a receita subiu 28%, para 992 milhões de dólares, face a 777 milhões no ano anterior.
Para Suresh Krishnan, cada vaga tecnológica, da cloud às redes sociais, passando pelos chatbots e pela pandemia, mudou a forma como as pessoas chegam aos anúncios. Mas a lógica manteve-se. “A tecnologia muda porque os utilizadores a acham mais eficiente, mais conveniente e melhor”, resume. Amanhã, exemplifica, um agente poderá encontrar o carro certo em vez de a pessoa ter de visitar cinco sites, ver 20 anúncios e fazer 500 perguntas.
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Oito anos de IA e mais de 200 milhões investidos
O responsável sublinha que o grupo não chegou à IA agora. Há mais de oito anos que investe na área, com mais de 200 milhões de dólares aplicados, primeiro em machine learning e depois em IA generativa e agentes. Já tem mais de 15 soluções agênticas ativas nas três categorias principais, do lado de quem compra e de quem vende.
Alguns exemplos:
- AutoIQ: software de inteligência para stands, já lançado na Roménia e na Polónia. O profissional pergunta o que aconteceu enquanto esteve de férias e o sistema responde. Se precisar de vender cinco carros para fazer caixa, ajusta preços, mexe nos anúncios e sugere transferir stock entre locais, sempre com pedido de autorização. “A pessoa só tem de expressar a intenção. A intenção é decomposta em ações”, explica.
- Agente de venda de casas: conversa com o proprietário, procura negócios e envia sugestões por WhatsApp.
- Entrevistador virtual: na área de emprego, simula entrevistas e dá feedback em tempo real sobre expressões faciais e qualidade das respostas. Do outro lado, o empregador fica com dados sobre o grau de interesse do candidato. “Isso é fidelização”, diz.
O grupo tem assumido a IA como prioridade financeira. No ano fiscal anterior, investiu 20 milhões de dólares em capacidades de IA e tinha já mais de 60 casos de uso em produção. Foi também em Lisboa, na conferência CLAIM AI, que apresentou os últimos produtos de IA agêntica.

A casa com muitas portas
Com a IA a facilitar a criação de software, há quem pergunte se ainda faz sentido ter um marketplace próprio. Suresh Krishnan responde com uma imagem: o grupo é uma casa com várias portas. Uma é a app, outra pode ser um assistente pessoal, outra o ChatGPT. “As pessoas podem escolher entrar ou não. Se tiver uma ótima casa, vão bater-lhe à porta.”
O que torna a casa boa, defende, são os dados próprios, anos de comportamentos de utilizadores e uma oferta que confia no grupo. Quanto à ameaça de concorrentes criados em poucos dias, é cético. “Qualquer pessoa consegue construir um site de classificados. O vibe coding tornou-o dez vezes mais barato, mas já era barato.” O que faltava, e continua a faltar, são dados, inteligência e anunciantes dispostos a confiar. “Continuo a repetir a palavra confiança, porque, no fim do dia, é só isso que interessa.”
Há também realismo sobre o ritmo. O tráfego vindo de agentes é ainda inferior a 2% na procura em geral e a 1,5% no caso do grupo. Ninguém confia a um agente a compra de uma casa ou de um carro, só a pesquisa. “É um sinal. Temos de estar preparados para quando chegar, porque vai chegar.”
Em Portugal, o grupo gere o OLX, o Standvirtual e o Imovirtual e tem um Tech Hub focado no setor de veículos. Para Suresh Krishnan, o peso do país é difícil de isolar. Portugal é a segunda maior base de colaboradores do grupo, depois da Polónia, e inclui talento de tecnologia, produto, IA, segurança, finanças e recursos humanos. “Fazem parte do tecido”, diz, “são uma só cultura OLX”. O negócio local cresce a dois dígitos fortes há bastante tempo.
O país serve também de laboratório. O grupo escolheu Portugal para lançar em primeiro lugar a sua experiência de imobiliário integrada com o ChatGPT. “A adoção de IA num país como Portugal é sempre muito rápida. As pessoas são muito curiosas”, justifica.
O futuro: classificados 2.0
Dez anos à frente, Suresh Krishnan não antecipa mudanças de missão. “O que nos tornou bem-sucedidos no passado, e agora, não vai mudar. Temos de ser o marketplace de confiança para as grandes decisões da vida.” Quem decide pode ser uma pessoa ou um agente, mas isso, diz, não altera o critério de sucesso: encontrar o carro certo, fechar bem o negócio, receber o contacto certo.
Se os classificados 1.0 substituíram o jornal em papel, a versão 2.0 promete uma experiência mais passiva: “Vai haver agentes a fazê-lo por si, enquanto está sentado a ver Netflix.”