116 euros à hora. Na era da IA, o técnico de esquentadores ganha nove vezes mais do que um informático
por Gabriel Lagoa | 2 de Novembro, 2026
Décadas de aposta no trabalho intelectual deixaram os ofícios manuais em falta. Para o CEO da OSCAR, a IA acentua o fosso, mas a vantagem pode ter prazo de validade.
Ao longo de vários anos, a receita para uma carreira bem paga era tirar um curso, aprender a dominar a tecnologia, entrar na economia do conhecimento. Desde o final dos anos 1990, o emprego europeu cresceu sobretudo em funções intelectuais e de escritório, enquanto as ocupações manuais não acompanharam o ritmo e, em alguns países, chegaram mesmo a diminuir.
É deste ponto de partida que arranca um artigo assinado por João Marques, CEO da OSCAR, plataforma de limpeza, reparações e manutenção da casa, que defende que a inteligência artificial está a criar “uma nova elite no trabalho manual”. O texto abre com um exemplo: “Na terça-feira passada, um técnico de reparação de esquentadores em Portugal ganhou 116€ numa única hora — nove vezes mais do que um programador de software numa startup tecnológica próxima ganhou nos mesmos 60 minutos. Isto não é uma anomalia. É a nova normalidade.”
O responsável cita dados do Eurostat, que mostram que o número de especialistas em TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) cresceu de forma sustentada na Europa e em Portugal, enquanto o emprego de canalizadores, eletricistas e carpinteiros estagnou ou recuou. Uma divergência estrutural: “Os sistemas de ensino, os fluxos migratórios e os incentivos de carreira favoreceram cada vez mais os percursos académicos e digitais, enquanto as profissões vocacionais atraíram cada vez menos candidatos, ano após ano.”
O preço da escassez
O resultado chegou à fatura das famílias. O índice de preços do Eurostat para os serviços de manutenção e reparação da habitação mostra uma inflação “constante e frequentemente acima da média ao longo das últimas duas décadas”. “A diferença não foi impulsionada por avanços de produtividade nos ofícios, mas por um desequilíbrio prolongado entre a oferta e a procura — criado durante o boom tecnológico e nunca resolvido”, lê-se.
E a IA? Ao contrário do boom tecnológico, a vaga atual “ainda não produziu uma expansão comparável no emprego intelectual”. Automatiza tarefas como a assistência à programação, a análise de dados ou o apoio ao cliente, e as empresas precisam de menos contratações, sobretudo em funções juniores e intermédias. Já limpar, canalizar ou reparar uma instalação elétrica são tarefas que “exigem presença física, julgamento contextual e execução no mundo real”.
Para João Marques, as funções intelectuais e de escritório estão bem mais expostas à IA do que o trabalho manual e no local. Daí a conclusão: “Durante o boom da IA, o preço por hora do trabalho manual continua a aumentar, enquanto o preço efetivo do trabalho intelectual diminui.” E os dados mostram isso mesmo. Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 2025, concluiu que as funções administrativas continuam a ser as mais expostas à IA generativa: numa escala de 0 a 1, os empregados administrativos registam 0,60. No extremo oposto estão os ofícios manuais: os mecânicos de automóveis, por exemplo, ficam-se pelos 0,18 e os carpinteiros pelos 0,13, ambos classificados como não expostos.
116 euros contra 13
Na OSCAR, onde os serviços são prestados por profissionais independentes, a IA é aplicada “principalmente à coordenação e não à execução”: os algoritmos aproximam procura e oferta, otimizam agendas e reduzem o atrito administrativo.
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Segundo a base de dados da empresa, um profissional de reparações especializadas ganha em média 83,19 euros por hora; nas limpezas especializadas, 36,58 euros; nas não especializadas, 16,71 euros. O equivalente horário de um trabalhador de alta tecnologia, com dados do INE, fica-se pelos 12,84 euros.
No topo está o técnico de esquentadores, com uma média de 116 euros por hora. Os dados dos últimos seis meses mostram que as tarefas mais bem pagas exigem conhecimento técnico “que não pode ser facilmente substituído, seja por outro trabalhador, pela inteligência artificial ou pelo próprio consumidor”. E o autor acrescenta: “Uma unidade de ar condicionado não se importa com as suas competências em Python ou com o seu diploma universitário. […] Não é possível pedir ao ChatGPT para desentupir o seu sistema de drenagem.”
Uma vantagem com prazo de validade?
O documento não apresenta este cenário como definitivo. Se a IA reduzir a necessidade de trabalhadores intelectuais, parte deles poderá reconverter-se ou competir em preço noutros setores, e os preços do trabalho manual “poderão eventualmente estabilizar ou até diminuir”. O mais plausível, defende, é “uma redução do fosso”, em que o trabalho manual “perde parte, mas não a totalidade do seu prémio de escassez”.
A tecnologia pode ainda chegar aos ofícios, com guias de realidade aumentada ou eletrodomésticos com autodiagnóstico. “O trabalho de conhecimento sentiu esta pressão primeiro. O trabalho físico presumiu que era imune.” A diferença, diz, está na regulação e no risco: “Não é possível religar em segurança quadros elétricos ou reparar linhas de gás sem certificação.”
“A economia do conhecimento não acabou. O seu monopólio sobre os rendimentos elevados, sim”, escreve João Marques. Quanto a saber durante quanto tempo o técnico continuará a cobrar 116 euros à hora, o documento responde: “Até que a tecnologia consiga colmatar a diferença entre saber como reparar algo e efetivamente repará-lo, com responsabilização pelo resultado.”