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Tens coisas em casa que não usas? Esta app portuguesa quer tratar do trabalho por ti

por Gabriel Lagoa | 21 de Setembro, 2026

Pierre Le Duck avalia objetos usados por fotografia, indica onde e por quanto vender, e opera já em 32 países.

Vender o que já não se usa parece simples. Na prática, não é bem assim: fotografar, pesquisar preços, escolher a plataforma certa, responder a mensagens, combinar entregas… há um conjunto de passos que cansa muita gente antes de conseguirem reaver parte do dinheiro que investiram num determinado objeto. É precisamente aí que entra o Pierre Le Duck, uma aplicação portuguesa que avalia objetos usados a partir de uma fotografia e orienta o utilizador sobre onde e por quanto vendê-los.

Por detrás do projeto está Mariana Tomé Ribeiro, que chegou à ideia da forma mais prosaica possível: mudou de casa. “Comprei um apartamento no fim do ano passado. Foi uma decisão um bocadinho rápida, mudei para uma área com menos 40 metros quadrados do que o apartamento onde estava antes”, conta. Com a mudança marcada e uma lista crescente de objetos sem lugar na nova casa, começou a pesquisar valores manualmente e os resultados surpreenderam-na. “Duas cadeiras brancas metálicas que eu tinha comprado num antiquário por 20 euros valiam, na realidade, 220 euros cada. O senhor que me vendeu as cadeiras não sabia o que estava a vender, e eu comprei por impulso e pela oportunidade daquele valor. Não houve hesitação, também não sabia o que é que estava a comprar. Se calhar, se não tivesse pesquisado, tinha posto as mesmas cadeiras à venda por 20 ou 30 euros… ou menos.”

A descoberta não ficou por aqui. Uma carteira Hermès guardada há mais de quatro anos revelou uma disparidade de preços ainda maior. Foi o suficiente para convencer Mariana de que o problema merecia uma solução estruturada.

De fotografia a avaliação em quatro passos

O Pierre Le Duck não é um marketplace. É, nas palavras da fundadora, “exatamente o passo antes do marketplace“. O processo divide-se em quatro fases. A primeira, chamada gate, verifica se o objeto se enquadra nas 10 categorias e 57 subcategorias que a aplicação cobre. Segue-se o lens, que procura correspondências visuais; depois o identify, que devolve informação sobre marca, material, cor, condição e raridade. Por fim, o appraisal: “faz uma comparação em tempo real com o que existe no mercado e devolve o valor mais provável da peça, ajustado à condição, ao tempo da venda e à tendência do objeto”, explica Mariana. ” [O Pierre Le Duck] analisa ainda se o objeto vai subir ou vai descer ao longo do tempo.”

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Com esse resultado em mão, a aplicação sugere o marketplace mais adequado consoante o produto e a localização geográfica do utilizador. Estão também a ser integradas lojas físicas, como antiquários e lojas de segunda mão, onde o utilizador pode simplesmente deixar o artigo. 

Quando a IA cede lugar ao perito humano

Há situações em que a inteligência artificial não chega. Quando a confiança no resultado é baixa, quando o artigo tem um valor elevado, ou quando se trata de joias ou obras de arte, objetos frequentemente únicos, a aplicação oferece duas opções: uma segunda opinião de um perito humano ou um serviço de autenticação. “Todos os marketplaces apenas fazem autenticação, que geralmente são peças de uma marca específica. Nós dividimos desta maneira: uma segunda opinião e um autenticador.”

A curiosidade básica é gratuita. Os serviços com intervenção humana têm custo, justificado pelo trabalho envolvido: “uma autenticação, uma segunda opinião de um perito naquela área, naquele objeto, é algo que custa dinheiro para nós, portanto, faz sentido que seja pago.”

Relógios, moda e arte

Em dez semanas de funcionamento, os utilizadores passaram pela app 800 mil euros em bens. Os padrões de utilização também já se vão tornando mais claros: 60% do que as pessoas fotografam é moda, seguido de tecnologia, casa e arte. Os relógios aparecem com destaque, sobretudo entre utilizadores do sexo masculino. 

Mas foram os nichos inesperados que mais surpreenderam. “Descobri que o meu pai está a fazer uma coleção de carrinhos de Fórmula 1 através da Vinted, vai comprar um carrinho específico a uma pessoa”, conta a Mariana, que acrescenta que a funcionalidade também serve quem quer comprar: basta inserir uma fotografia do objeto e a app devolve uma avaliação. O pai da fundadora, com os carrinhos de Fórmula 1, pode perceber se está prestes a fazer um bom ou mau negócio com alguns cliques. “Há milhares de pessoas que gostam, têm estes hobbies, estas paixões”, diz Mariana. 

A responsável nota ainda que o primeiro scan tende a puxar outros: “há muitas pessoas que voltam com artigos da mesma categoria”, sinal de que, uma vez iniciado o processo, a resistência em avaliar e vender diminui.

O Pierre Le Duck opera em 32 países, financiado exclusivamente por capitais próprios. Portugal é o mercado de origem, mas a arquitetura do sistema foi desenhada para escalar: “se o perito mais adequado para aquele objeto estiver na Alemanha, é esse perito que vamos usar.” Quanto ao futuro do mercado de revenda, Mariana vê fatores estruturais a empurrar na mesma direção: casas cada vez mais pequenas, dinheiro mais caro e a procura por fontes de rendimento extra. “Tudo isto são fatores que indicam que efetivamente o mercado caminha para a expansão.”