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Startups portuguesas aterram nos EUA para plantar raízes em Silicon Valley

por Inês de Almeida Fernandes | 6 de Outubro, 2026

Miguel d'Aguiar, Diretor Executivo da Startup Portugal, Filipa Pinto Carvalho, cofundadora da RedBridge Lisbon, Gil Azevedo, diretor executivo da Unicorn Factory Lisboa

Portugal participa pela primeira vez na agenda oficial da SF Tech Week com uma delegação de dez startups acompanhadas pela Unicorn Factory Lisboa, RedBridge Lisbon e Startup Portugal.

O ecossistema tecnológico americano está mais rico esta semana com o arranque, a 5 de outubro, da SF Tech Week, uma das principais semanas tecnológicas dos Estados Unidos (EUA), que conta, pela primeira vez, com a participação de Portugal na agenda oficial.

A Unicorn Factory Lisboa, a RedBridge Lisbon e a Startup Portugal juntaram-se, com o apoio do Consulado-Geral de Portugal em São Francisco, da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) e da Transatlantic Highway Ventures, para levar dez startups nacionais ao epicentro do ecossistema de inovação americano.

Fazem parte da delegação portuguesa as startups CodePlatform, Enline, ExpertGrain, FRANK, Lampsy, noticed, Octo Health, Savearth, The C-MORE Company e VeriCasa.

Além de colocar o nome de Portugal “ao lado dos principais ecossistemas tecnológicos do mundo”, a presença permite uma visibilidade que de outra forma não seria possível, começou por explicar Gil Azevedo, diretor executivo da Unicorn Factory Lisboa, antes da partida da delegação para o outro lado do Atlântico. Tratando-se de uma semana em que Silicon Valley está particularmente atento ao que se passa de novo, a passagem por solo americano não poderá ser apenas simbólica.

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Aproximar as startups de investidores, potenciais clientes, parceiros, fundadores e operadores americanos são objetivos definidos para a viagem, apontou Filipa Pinto Carvalho, lembrando que é também uma oportunidade para mostrar que existem startups portuguesas preparadas para competir internacionalmente.

Para a cofundadora da RedBridge Lisbon, a participação no evento vai permitir às startups compreender melhor o mercado norte-americano e o que é necessário para construir uma empresa com ambição global.

No entender de Miguel d’Aguiar, diretor executivo da Startup Portugal, a viagem acaba por ser também um teste ao modelo aplicado nesta iniciativa: seleção exigente dos integrantes da delegação, preparação prévia da missão e acompanhamento da viagem. Se funcionar, disse, fica um “método replicável em futuras edições e noutras geografias”.

Plantar raízes em solo americano

Não há dúvidas de que o mercado norte-americano é interessante para os empreendedores nacionais, mas o que têm as empresas portuguesas a oferecer a um mercado de grande concentração de capital, startups e talento como Silicon Valley?

Para Miguel d’Aguiar há três características do ecossistema português que são relevantes nos EUA: tração, profundidade técnica e eficiência de capital. “Um investidor americano valoriza equipas que aprendem depressa e gastam bem”, disse o responsável pela Startup Portugal, lembrando que, no total, as dez startups do grupo captaram mais de 11 milhões de euros, empregam mais de 160 pessoas e, algumas delas, são já financiadas pelas próprias receitas.

A eficiência é outro ponto a favor do ecossistema português, particularmente porque as startups estão habituadas a crescer com menos recursos, apontou Gil Azevedo. Na sua perspetiva, esse é um fator que torna as equipas mais disciplinadas e mais focadas em resultados, o que ajuda a alavancar o talento tecnológico de qualidade que se forma no país. O mercado interno pequeno, com os constrangimentos que também tem, acaba por jogar a favor das startups portuguesas, que “pensam global desde cedo”.

A responsável pela RedBridge Lisbon também reconhece nas startups nacionais a eficiência, a capacidade de execução e o potencial de crescimento internacional. “Muitas das startups que integram a delegação combinam profundidade tecnológica, conhecimento especializado dos setores onde atuam e uma abordagem global desde os primeiros estágios do seu desenvolvimento”, afirmou.

No reverso da moeda, ficam os obstáculos à expansão internacional, porque para entrar em Silicon Valley não basta conseguir um primeiro contacto. Embora as empresas portuguesas tenham equipas fortes e produtos competitivos, quando chega a altura de escalar, os desafios tornam-se maiores.

Para crescer além-fronteiras precisam de rondas de investimento mais significativas e de acesso a mercados de maior dimensão, lembrou o responsável pela Unicorn Factory, o que ainda é difícil em Portugal, e até na Europa, porque o acesso a capital é mais limitado. Já nos EUA, as startups têm acesso a um mercado maior, mais homogéneo e a investidores com maior disponibilidade de assumir riscos.

Perceber como funciona um mercado com uma escala e competitividade muito diferentes do que se encontra na Europa faz parte das dificuldades que, ainda assim, são cada vez menores, até porque “o maior obstáculo raramente é a qualidade da tecnologia ou do talento”, disse Filipa Pinto Carvalho.

“Felizmente, Portugal já não parte do mesmo ponto de há uma década. Hoje existe um ecossistema mais maduro, mais internacional e mais reconhecido”, acredita a cofundadora da RedBridge Lisbon. O próximo passo, sublinhou, é continuar a aproximar os dois ecossistemas para que entrar nos EUA seja “uma consequência natural da ambição das startups” e não um salto rumo ao desconhecido.

Ligações São Francisco-Portugal em expansão

Aterrar na agenda oficial da SF Tech Week é um marco relevante, mas não é nem o ponto de partida, nem o de chegada, consideram as três entidades. A preparação das startups começou ainda em terras lusas com dois dias de sessões na Unicorn Factory focadas em temas como a cultura de negócio norte-americana, fundraising, go-to-market e enquadramento jurídico.

As fundações foram construídas para que as empresas aproveitassem o evento para apresentar os seus projetos, estabelecer contactos e criar relações com investidores que contribuam para o cumprimento dos seus objetivos, que são distintos.

As dez startups que compõem a delegação portuguesa estão em diferentes fases de vida: umas têm como prioridade iniciar conversas com investidores, outras procuram validar o seu produto junto de potenciais clientes ou encontrar parceiros que as ajudem a entrar no mercado. A meta geral, apontou o responsável pela Unicorn Factory, é que cada empresa regresse a Portugal com próximos passos concretos. “Uma reunião em São Francisco só tem valor se der origem a um segundo contacto, a um piloto, a uma proposta ou a uma ronda de investimento”, sublinhou.

Na opinião de Filipa Pinto Carvalho, a missão será bem-sucedida se a ponte entre Portugal e Silicon Valley se tornar mais forte, com mais fundadores, investidores e organizações a colaborar regularmente, mas também com mais startups portuguesas a “encarar o mercado norte-americano como uma possibilidade real de crescimento”.  

Já o responsável pela Startup Portugal prefere não fazer futurologia e opta por esperar pelo regresso a território nacional para avaliar os resultados do evento. “O que posso dizer é que os sinais de abertura [de Silicon Valley em relação a Portugal] são consistentes”.

Para já, a delegação ainda está em São Francisco, mas as três entidades esperam que a presença tenha, pelo menos, efeitos duradouros. Daqui a um ano, gostariam que o balanço da viagem revelasse mais investimento norte-americano, que as startups tivessem os seus primeiros clientes ou pilotos nos EUA, parcerias estratégicas e, em alguns casos, até presença própria no mercado.

Outra expectativa, essa mais difícil de medir, é que as relações criadas ao longo destes dias continuem a funcionar de ambos os lados do Atlântico. “Seria muito positivo que os fundadores que participaram este ano pudessem, no próximo, partilhar a sua experiência com as novas startups que vão integrar o programa”, colmatou Gil Azevedo.