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Pediste um orçamento que nunca chegou? Esta app portuguesa quer resolver o problema

por Gabriel Lagoa | 10 de Março, 2026

O Prummo permite a profissionais como eletricistas ou canalizadores criar e enviar orçamentos por voz no telemóvel, usando IA para organizar o documento.

Quando Gil Batista e Sofia Dias decidiram renovar a casa, fizeram o que muitos portugueses fazem antes de começar uma obra: pediram vários orçamentos. O resultado, dizem, foi frustrante. Contactaram cerca de 30 profissionais, entre eletricistas, canalizadores e outros especialistas, mas apenas quatro responderam. A experiência acabou por levantar uma pergunta: porque é que é tão difícil receber um orçamento?

Ao falar diretamente com os profissionais, perceberam que o problema não estava na falta de interesse pelo trabalho. Estava sobretudo na forma como o processo acontece no terreno. A maioria passa o dia inteiro em obras, com deslocações constantes, materiais para gerir e prazos para cumprir. No fim do dia, ainda teriam de organizar notas, calcular preços, escrever o orçamento e enviá-lo ao cliente. Muitas vezes, isso acaba por ficar para depois.

“Eles têm as mãos ocupadas. Para ganhar trabalho novo têm de ir a um sítio onde ainda não estão a trabalhar e depois fazer o cálculo de preços e materiais”, explica Gil Batista. A consequência é um processo irregular, em que muitos pedidos de orçamento simplesmente não recebem resposta.

Foi assim que começou a ganhar forma o Prummo, uma aplicação que usa inteligência artificial para simplificar essa tarefa. A ideia é permitir que um profissional crie um orçamento praticamente no momento em que termina a visita ao cliente. “Até pode fechar a porta do cliente e a caminho do carro mandar o orçamento”, conta Sofia Dias. 

Do microfone ao orçamento

A lógica da aplicação foi pensada para reduzir ao mínimo os passos necessários. Depois de criar a conta, o utilizador abre a app e grava o orçamento por voz. Pode descrever o trabalho, mencionar materiais, quantidades e até indicar preços. O sistema interpreta essa informação e organiza-a automaticamente numa lista de itens com descrição e valores.

“No front-end os profissionais só falam pelo microfone ou tiram fotos. O sistema cria a listagem dos itens e depois é só pôr o preço”, explica Gil.  O resultado final é um orçamento estruturado que pode ser enviado ao cliente por WhatsApp ou através de uma página pública.

Durante o desenvolvimento da aplicação, a equipa percebeu que o problema não se limitava à criação do orçamento. Muitos profissionais também têm dificuldade em perceber se determinado trabalho vai ser rentável. “Disseram-nos: vocês estão a facilitar o orçamento, mas eu quero é saber se vou ganhar dinheiro nesta obra”, recorda Gil Batista.

A aplicação passou então a incluir ferramentas para acompanhar despesas e estimar custos de materiais, permitindo ao utilizador ter uma ideia mais clara da margem associada a cada trabalho.

Um produto desenhado para quem não usa software

Sofia Dias ficou responsável pela experiência de utilização e partiu de um princípio: grande parte destes profissionais não está habituada a software de gestão. O telemóvel é usado sobretudo para chamadas, mensagens e redes sociais.

“O que estão habituados a usar são Instagram, TikTok ou Facebook”, explica. Por isso, o design da aplicação foi pensado para ser o mais direto possível. Depois do registo inicial, o ecrã principal apresenta essencialmente duas opções: gravar um orçamento ou introduzi-lo manualmente.

A evolução do produto tem sido feita em contacto direto com os utilizadores. Sempre que surge um novo profissional na plataforma, os fundadores tentam recolher feedback sobre o que funciona e o que pode ser melhorado. Algumas funcionalidades nasceram precisamente dessas conversas.

A aplicação foi lançada há poucas semanas e conta com cerca de 100 utilizadores, com cerca de 70% em Portugal e os restantes no Brasil.  O serviço é gratuito e não tem limite de utilização. O modelo de negócio surge apenas quando um cliente decide pagar através da plataforma, caso em que é aplicada uma pequena taxa sobre a transação.

Para já, o objetivo dos fundadores passa sobretudo por simplificar um processo que continua a ser feito de forma improvisada em muitos casos. “O difícil é reduzir tudo até ficar simples o suficiente para qualquer pessoa usar”, resume Gil Batista.

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