Papa dedica primeira carta à IA (e chama Anthropic ao Vaticano)
por Marta Amaral | 20 de Maio, 2026
O Papa Leão XIV vai dedicar a primeira encíclica do seu pontificado à inteligência artificial. A “Magnifica humanitas”, será publicada a 25 de maio e centra-se na “salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial”.
O que é uma encíclica? São alguns dos textos mais importantes produzidos pela Igreja Católica e costumam definir orientações doutrinárias e sociais durante os pontificados. Francisco, antecessor de Leão XIV, publicou quatro encíclicas ao longo de 12 anos, incluindo Laudato Si’, dedicada às alterações climáticas e à proteção ambiental.
- Quem é o convidado de honra? A apresentação oficial no Vaticano vai contar com a presença de cardeais, académicos e Chris Olah, cofundador da Anthropic e atual investigador principal da empresa. A participação de Olah reforça a aproximação entre o Vaticano e algumas das principais vozes do setor tecnológico numa altura em que a Igreja Católica procura afirmar uma posição ética sobre o desenvolvimento da IA.
O documento leva a assinatura do Papa com a data de 15 de maio, assinalando os 135 anos da publicação da Rerum Novarum, a histórica encíclica social de Leão XIII.
Ainda não é conhecido o conteúdo integral de Magnifica humanitas, mas Leão XIV já deixou várias críticas públicas ao desenvolvimento desregulado da IA. O pontífice alertou que a tecnologia “não pode substituir a inteligência humana” nem assumir decisões morais sobre o certo e o errado.
Nos últimos dias, o Vaticano anunciou também a criação de um grupo de estudo dedicado à inteligência artificial, com o objetivo de analisar os “potenciais efeitos sobre os seres humanos” e refletir sobre “a dignidade de cada pessoa” na era digital.
Na quinta-feira, durante um discurso na Universidade La Sapienza, em Roma, o Papa voltou a alertar para os riscos da utilização militar da IA, afirmando que este tipo de armamento pode conduzir o mundo a uma “espiral de aniquilação”. Leão defendeu ainda maior regulação internacional para impedir que sistemas autónomos “absolvam os seres humanos da responsabilidade pelas suas escolhas”.
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Trump como inimigo comum?
- A presença de Chris Olah surge numa altura em que a Anthropic enfrenta tensões crescentes com a administração de Donald Trump. O CEO da empresa, Dario Amodei, afirmou em fevereiro que se opõe ao uso da tecnologia da empresa para vigilância doméstica em massa ou para armas totalmente autónomas por parte do Departamento de Defesa norte-americano.
Trump reagiu rapidamente, classificando a Anthropic como uma “empresa radical de esquerda e woke” e ordenando às agências federais que deixassem de utilizar a sua tecnologia. Apesar disso, responsáveis do Pentágono reuniram-se recentemente com a empresa para discutir o modelo de IA Mythos. Segundo o Politico, a administração norte-americana estará mesmo a tentar alcançar uma espécie de “cessar-fogo” com a startup.
- As tensões entre a Casa Branca e o Vaticano também aumentaram desde o início do pontificado de Leão XIV. Trump acusou o Papa de ser “fraco em matéria de crime e terrível em política externa”, numa publicação na Truth Social em abril. O Presidente norte-americano alegou ainda, sem provas, que o pontífice apoiaria o direito do Irão a possuir armas nucleares (algo que Papa Leão nunca defendeu).