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Quinze dias, não trinta

Nunca dês mais de quinze dias para alguém testar o teu produto.

Há umas semanas, alguém com muito mais experiência do que eu a vender na área da saúde deu-me um conselho que me ficou na cabeça: nunca dês mais de quinze dias para alguém testar o teu produto.

Na altura achei exagerado. Depois lembrei-me de um equipamento nosso.

Fazemos realidade virtual para uso clínico, usada em hospitais, cuidados paliativos e lares. Vendemos a instituições, e as instituições gostam de experimentar antes de comprar. Faz sentido. Ninguém compra um equipamento clínico pelo catálogo.

Uma vez acordámos uma avaliação de trinta dias. Parecia generoso e razoável: um mês dá para a equipa aprender, usar com calma e decidir. Entretanto, a pessoa que acompanhava o processo do nosso lado saiu do projeto, o contacto perdeu-se, e o equipamento ficou lá. Não trinta dias. Meses.

Pode parecer só uma falha nossa de acompanhamento, e foi. Mas a falha mostra outra coisa. Num prazo de trinta dias ninguém sente pressa: nem quem testa, nem quem vende.

O que acontece num mês

Quando uma equipa recebe trinta dias, a primeira semana passa com “temos de ver isto com calma”. Na segunda há outras urgências, porque numa instituição de saúde há sempre outras urgências. Na terceira alguém lembra-se que o equipamento está no armário. Na quarta usa-se à pressa, ou não se usa.

No fim, a decisão sai de uma semana de uso, quando muito. Às vezes de nenhuma. E nós ficamos a achar que demos tempo, quando na prática demos uma desculpa para adiar.

Com quinze dias, a conversa muda. A equipa sabe que o prazo é curto e organiza-se logo. Marca as primeiras sessões na primeira semana. Quem tem de decidir sabe que a decisão chega daqui a duas semanas, não “lá para o fim do mês”. Os quinze dias são usados de ponta a ponta.

O que mudámos

Daqui para a frente as nossas avaliações são de quinze dias. E além do prazo há mais quatro regras, que aprendemos à nossa custa:

  1. A data da decisão marca-se no primeiro dia. Antes de o equipamento sair, fica na agenda a reunião em que se decide. Sem essa data, o fim da avaliação vira “quando houver tempo”.
  2. Há um nome do lado de lá. Uma pessoa responsável pela avaliação, com contacto direto. Não um endereço geral. Se essa pessoa sair, sabemos logo.
  3. Há um nome do lado de cá. O nosso caso começou aí: quando a pessoa que acompanhava saiu, a avaliação ficou sem dono. Hoje cada avaliação tem um responsável nosso, e se essa pessoa sair, passa a pasta antes de ir.
  4. A devolução está escrita antes de começar. Quem paga o transporte, até quando o equipamento tem de estar de volta, e o que acontece se não estiver. Não por desconfiança, mas porque assim ninguém tem de ter uma conversa desconfortável no fim.

Generosidade não é tempo

A tentação de quem vende é dar mais. Mais dias, mais acessórios, mais flexibilidade. Parece boa vontade, e às vezes é só medo de perder o negócio.

O cliente não precisa de mais tempo. Precisa de um prazo que o obrigue a experimentar a sério. Quinze dias bem usados dizem mais sobre um produto do que trinta dias de equipamento parado num armário.

E o tal equipamento? Continua por lá. Se alguém o encontrar num armário, diga-nos.