Num hackathon percebe-se quem na equipa tem vontade de experimentar, quem faz as perguntas certas, quem pega no problema e não o larga.
Quando se fala de hackathons, a imagem que aparece é quase sempre a mesma: uma sala cheia de programadores, portáteis abertos, pizza fria e café às três da manhã. Essa imagem está desatualizada. E, para a maioria das empresas portuguesas, esconde uma das ferramentas mais eficazes que têm à mão para começar a usar inteligência artificial a sério.
Os números mostram a urgência. A União Europeia quer que, até 2030, 75% das empresas usem cloud, IA ou big data. Em Portugal, apenas 11,5% das empresas usam IA, e nas pequenas empresas o valor fica abaixo dos 10%. Não é falta de interesse. Raramente encontro um empresário que não queira “fazer alguma coisa com IA”. O problema é outro: quem conhece o negócio e quem conhece a tecnologia raramente estão sentados à mesma mesa. E quando estão, a conversa arrasta-se em reuniões, propostas e pilotos que nunca chegam a produção.
Um hackathon resolve exatamente isso. Junta as duas pessoas na mesma sala, dá-lhes um problema concreto e um prazo que não se negoceia.
O prazo é o ponto. Dois dias obrigam a cortar tudo o que não é essencial. Não há espaço para o caderno de encargos com quarenta requisitos, nem para a funcionalidade que “também pode dar jeito”. Há um problema, uma equipa e uma pergunta: o que conseguimos pôr a funcionar até ao fim? É um exercício de subtração, e é por isso que funciona. A maioria dos projetos de IA não falha por falta de ambição. Falha por excesso dela.
Raramente encontro um empresário que não queira “fazer alguma coisa com IA”. O problema é outro: quem conhece o negócio e quem conhece a tecnologia raramente estão sentados à mesma mesa. E quando estão, a conversa arrasta-se em reuniões, propostas e pilotos que nunca chegam a produção. Um hackathon resolve exatamente isso.
O SpaceXAI Digital Transformation Lab, que decorre a 26 e 27 de outubro no Fórum Braga, é um bom exemplo deste formato aplicado às PME. Cada empresa traz um desafio real do seu dia a dia, trabalha durante dois dias com mentores da SpaceXAI e sai com uma solução pronta a usar. Não é uma palestra sobre o futuro da IA. É o empresário sentado ao lado de quem sabe construir, a resolver um problema que se arrasta há anos.
Há três razões pelas quais todas as empresas, tecnológicas ou não, deviam fazer isto pelo menos uma vez.
A primeira é que obriga a definir o problema. Parece óbvio, mas é a parte mais difícil. Muitas empresas querem IA sem saberem para quê. Um hackathon não aceita respostas vagas: para entrar, é preciso escrever o desafio numa frase. Só esse exercício já vale o tempo investido.
A segunda é que permite testar antes de investir. Dois dias custam muito menos do que seis meses de um projeto mal desenhado. Se a ideia funciona, há um protótipo e argumentos para avançar. Se não funciona, a empresa aprendeu barato aquilo que muitas aprendem caro.
A terceira é cultural. Num hackathon percebe-se quem na equipa tem vontade de experimentar, quem faz as perguntas certas, quem pega no problema e não o larga. Há empresas que descobrem nesses dois dias as pessoas que vão liderar a sua transformação digital. Outras conhecem talento externo que nunca lhes chegaria através de uma entrevista.
Ouço muitas vezes duas objeções. “Não somos uma empresa tecnológica.” É precisamente por isso. As tecnológicas já têm quem construa; as outras são as que mais ganham com alguém de fora a olhar para os seus processos com ferramentas novas. “Não temos tempo.” Dois dias é, muitas vezes, menos do que o tempo gasto em reuniões até se decidir avançar com um projeto.
Para quem quer organizar o primeiro, deixo quatro regras simples. Um problema real, com dono. Uma equipa mista, onde quem conhece o negócio trabalha ao lado de quem conhece a tecnologia. Um critério de sucesso claro, definido antes de começar. E, sobretudo, um plano para o dia seguinte. O maior risco de um hackathon não é correr mal. É o protótipo ficar na gaveta.
Num hackathon percebe-se quem na equipa tem vontade de experimentar, quem faz as perguntas certas, quem pega no problema e não o larga. Há empresas que descobrem nesses dois dias as pessoas que vão liderar a sua transformação digital. Outras conhecem talento externo que nunca lhes chegaria através de uma entrevista.
Desde 2018 que acompanho hackathons de organizações de todas as dimensões, de PME a multinacionais e instituições europeias. A lição repete-se: as melhores soluções raramente vêm de quem tem mais recursos. Vêm de quem tem um problema bem definido e pouco tempo para o resolver.
A inteligência artificial não vai chegar às PME portuguesas através de mais relatórios ou de mais conferências. Vai chegar quando cada empresário vir, com os próprios olhos, um problema seu resolvido em dois dias. Um hackathon é a forma mais rápida de isso acontecer.