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Eu nunca tive um burnout. E o que isso pode ter a ver com ser chamada de arrogante, egoísta e grosseira

Eu nunca tive um burnout. Isso não significa que nunca tenha ficado cansada, sobrecarregada, triste, ansiosa, frustrada com o trabalho ou sem saber como resolver a minha vida.

Há algum tempo arrumei um problema no LinkedIn ao dizer que profissionais sem formação em psicologia, psiquiatria ou outras áreas realmente preparadas para lidar com saúde mental, não deveriam usar como principal credencial para falar sobre o assunto o fato de terem tido três, quatro ou cinco burnouts, enquanto ocupam palcos de festivais de RH dando dicas de como cuidar da saúde mental dos outros.

Ter vivido uma experiência pode produzir consciência, repertório e vontade de ajudar outras pessoas, mas não transforma automaticamente alguém em especialista, principalmente quando estamos falando de um tema sensível, que envolve sofrimento psíquico, diagnóstico, tratamento, relações de trabalho e, em alguns casos, risco de vida.

Eu entendo por que essas histórias fazem sucesso. O sofrimento cria identificação, e a história de quem chegou ao fundo do poço e conseguiu voltar costuma ter todos os elementos de uma boa narrativa: excesso, queda, revelação, transformação e superação. Há muita gente cansada tentando se reconhecer nessas trajetórias, encontrar uma explicação para o próprio esgotamento ou acreditar que também conseguirá sair dele.

O sofrimento, inclusive, adaptou-se muito bem à lógica das redes profissionais. A pesquisadora Shani Orgad analisou a popularização dos relatos de vulnerabilidade no LinkedIn e encontrou um formato recorrente: o triunfo sobre a tragédia. A pessoa conta a depressão, o abuso, o esgotamento ou o colapso e, na sequência, apresenta aquilo que viveu como fonte de resiliência, crescimento e autoridade. A vulnerabilidade deixa de ser apenas uma experiência compartilhada e passa a funcionar como estratégia de marca pessoal. A dor ganha começo, clímax, aprendizado e produto.

Neste contexto, o sofrimento parece carregar uma profundidade moral, enquanto uma vida relativamente tranquila pode ser confundida com superficialidade, privilégio ou falta de ambição.

Acho que tenho alguma implicância com esse tipo de narrativa porque gosto de observar e admiro muito quem está bem. Nada contra histórias de superação, mas eu também quero ouvir quem parece estar bem da cabeça, com a vida e com as próprias escolhas, dentro dos limites possíveis de se estar bem vivendo no mundo em que vivemos.

Quero saber como essas pessoas vivem. O que fazem? O que comem, como organizam o tempo, o que decidiram não fazer, quais convites recusaram, quais relações abandonaram, como pensam e o que precisaram reorganizar para não abandonar a si mesmas?

Eu nunca tive um burnout.

Isso não significa que nunca tenha ficado cansada, sobrecarregada, triste, ansiosa, frustrada com o trabalho ou sem saber como resolver a minha vida. Também não significa que eu tenha descoberto uma fórmula que, se seguida corretamente, impediria qualquer pessoa de adoecer.

Burnout não é resultado apenas de escolhas individuais. Existem condições de trabalho, relações de poder, necessidades financeiras, violências e responsabilidades das quais nem todo mundo consegue simplesmente se afastar.

Ainda assim, olhando para a minha trajetória, tenho a hipótese de que muitas das características que me protegeram também foram usadas para me descrever de maneiras pouco elogiosas.

Já fui chamada de egoísta, arrogante, grosseira, difícil e antipática. Juro, logo eu, tão querida. Brincadeira. Em algumas situações, eu realmente posso ter sido alguma dessas coisas, porque ninguém acerta o tempo inteiro e nem todo limite é comunicado da melhor maneira. Em muitas outras, porém, eu estava apenas dizendo não, recusando uma exigência que não fazia sentido ou escolhendo não participar de uma dinâmica que me demandaria mais do que eu estava disposta a oferecer.

Quando eu digo que não estou numa correria, não estou fingindo tranquilidade enquanto desmorono escondida. Em geral, eu realmente não estou numa correria, porque tomei decisões para que a minha vida não precisasse funcionar permanentemente nesse estado.

Quando eu coloco um limite, não faço isso porque desconheço a importância da demanda, não me importo com as pessoas ou acredito que o meu tempo vale mais do que o dos outros. Muitas vezes, coloco um limite justamente porque sei que ultrapassá-lo abalaria a minha saúde, a minha capacidade de trabalhar, a minha criatividade e a minha disposição para continuar presente naquela relação.

Eu nunca tive um burnout. Isso não significa que nunca tenha ficado cansada, sobrecarregada, triste, ansiosa, frustrada com o trabalho ou sem saber como resolver a minha vida. Também não significa que eu tenha descoberto uma fórmula que, se seguida corretamente, impediria qualquer pessoa de adoecer.

A mesma sociedade que diz estar preocupada com saúde mental continua tratando a disponibilidade sem fim como generosidade, o excesso como comprometimento e o desaparecimento de si como prova de espírito coletivo.

Décadas de pesquisa sobre gênero no trabalho mostram que mulheres percebidas como assertivas, ambiciosas e autônomas podem ser reconhecidas como competentes e, ao mesmo tempo, penalizadas por não parecerem suficientemente simpáticas, cuidadoras e agradáveis. A firmeza que confirma a autoridade de um homem pode colocar em dúvida o caráter de uma mulher.

As pessoas odeiam mulheres que colocam limites. Isso torna tudo mais complicado, porque existe uma expectativa de que o nosso limite seja apresentado de maneira agradável, delicada e, se possível, acompanhado de um pedido de desculpas. Não basta dizer não: é preciso sorrir, justificar, acolher a frustração de quem ouviu, provar que continuamos sendo boas pessoas e ainda oferecer alguma compensação pelo desconforto causado.

Ao mesmo tempo a prevenção costuma ser menos visível. Ela não produz um grande acontecimento que organize a história em antes e depois, porque acontece em decisões pequenas, repetidas e frequentemente antipáticas: não responder agora, não aceitar o projeto, não ficar até mais tarde, não assumir o problema dos outros, não transformar toda oportunidade em obrigação e não pedir desculpas por precisar descansar.

Essas decisões dificilmente se transformam em uma narrativa pública de transformação, justamente porque impediram que o colapso acontecesse. Em compensação, podem render acusações de egoísmo, arrogância e grosseria, porque toda pessoa que deixa de se sacrificar desorganiza um sistema que contava com a sua disponibilidade.

Foi refletindo sobre esses pontos que cheguei à conclusão de que ser quem a gente é pode funcionar como uma proteção importante para a saúde mental. Não apenas porque pessoas diferentes possuem limites diferentes, mas porque representar um personagem o tempo inteiro também cansa. Medir cada frase, controlar cada reação, fingir interesse, parecer mais dócil, mais sociável, mais disponível ou menos inteligente para caber em determinado ambiente exige um trabalho contínuo.

As pessoas odeiam mulheres que colocam limites. Isso torna tudo mais complicado, porque existe uma expectativa de que o nosso limite seja apresentado de maneira agradável, delicada e, se possível, acompanhado de um pedido de desculpas. Não basta dizer não: é preciso sorrir, justificar, acolher a frustração de quem ouviu, provar que continuamos sendo boas pessoas e ainda oferecer alguma compensação pelo desconforto causado.

Claro que, no convívio social, nem sempre podemos ser 100% quem somos. Já dizia Cazuza — algumas mentiras sinceras realmente nos interessam. Existem contextos nos quais ser quem se é pode nos custar emprego, segurança, relações, oportunidades e pertencimento, então ocasioalmente temos que dar uma segurada.

Por isso, não quero transformar “ser você mesma” em mais uma recomendação simplista para evitar burnout. Não há autenticidade individual que resolva uma cultura de trabalho ruim, uma jornada incompatível com a vida ou o medo de não conseguir pagar as contas.

Ainda assim, é importante perguntar quanto da nossa saúde mental está sendo consumida não apenas pelo volume de trabalho, mas pelo esforço de permanecer palatável para ambientes que só nos aceitam quando abafamos partes de quem somos.

Também precisamos perguntar por que estamos tão interessados em escutar quem adoeceu e tão pouco curiosos sobre quem conseguiu construir uma vida em que o adoecimento não se tornou o único caminho possível para a mudança e prosperidade.

Eu nunca tive um burnout e não apresento isso como mérito, superioridade ou prova de que fiz todas as escolhas certas. Houve sorte, circunstâncias, privilégios, características pessoais e, provavelmente, limites que outras pessoas não tiveram condições de estabelecer.

Ainda assim, quando olho para as vezes em que fui considerada difícil, percebo que algumas delas coincidem exatamente com os momentos em que me recusei a negociar características que eram importantes para continuar bem.

A conversa sobre saúde mental precisa se interessar menos pela espetacularização do colapso e mais pelas condições que impedem que uma pessoa precise chegar até ele. Isso inclui trabalho digno, renda, relações menos violentas, acesso a profissionais preparados e empresas que assumam responsabilidade pela maneira como organizam o trabalho. Também inclui aprender a conviver com pessoas que dizem não, que não vivem correndo, que não estão disponíveis o tempo inteiro e que nem sempre vão parecer agradáveis enquanto protegem a própria vida.

Nem todo limite é egoísmo. Nem toda firmeza é arrogância. Nem toda recusa é grosseria.

Como escreveu Clarice Lispector, “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”.

Se é isso que me trouxe até aqui, então prefiro continuar cheia de defeitos e sem burnout na conta.

Este artigo foi publicado originalmente no Substack de Maíra Blasi, Ideias Subversivas.