O The Lisbon MBA Alumni Club é um espaço de partilha que reúne empresas e academia — através de duas das principais faculdades do país, a Católica Lisbon School of Business & Economics e a Nova School of Business and Economics — e que promove think tanks setoriais dedicados à criação de pensamento em diferentes áreas da atividade económica.
O Unite Summit representa o momento anual de abertura à sociedade. Este ano, o tema central foi a incerteza e a forma de gerir um mundo em rápida transformação. Seja no plano geopolítico, seja no tecnológico — com o advento da Inteligência Artificial (IA) —, existe a expectativa de mudanças profundas nas empresas e na sociedade. Persistem, contudo, dúvidas relevantes: o que significará esta transição para cada setor e profissão? Com que velocidade ocorrerá? E qual será, em última instância, a relação custo-benefício do investimento?
A palavra-chave que emergiu foi ambição. Haverá vencedores e perdedores claros neste novo ciclo, e o objetivo é que Portugal esteja do lado dos vencedores. Mas tal implica assumir risco — algo que contrasta com uma cultura tradicionalmente avessa à incerteza. A adoção da IA exige experimentação, aprendizagem contínua e integração progressiva destas ferramentas no quotidiano das organizações, reconhecendo que o erro faz parte do processo.
Líderes do setor tecnológico — na linha da frente desta transição — partilharam métricas já hoje muito positivas ao nível dos ganhos de produtividade. Reconheceram, no entanto, que o caminho não foi simples. A desconfiança por parte de utilizadores é real, o que torna essencial a criação de uma cultura de confiança, com incentivos positivos e partilha aberta de erros e sucessos. Paralelamente, impõe-se uma cultura de agilidade e adaptação, integrando o change management como prática diária.
O papel do Estado é incontornável. O peso da regulação e o seu impacto na redução da agilidade foram temas recorrentes. Na saúde — setor onde os ganhos da transição tecnológica se antecipam significativos — persistem questões complexas relacionadas com a partilha de dados. No imobiliário, a morosidade dos processos compromete projetos essenciais para atrair investimento estratégico. Já na indústria e na energia, o licenciamento condiciona diretamente a oportunidade associada aos centros de dados dedicados à IA.
Importa sublinhar que Portugal é, neste momento, um dos destinos mais procurados para a instalação destes centros, beneficiando de condições de segurança, conectividade e elevada capacidade de produção de energia renovável. Existem atualmente pedidos de licenciamento equivalentes a quatro vezes a energia total que o país consegue produzir. Só o centro de dados de Sines — que será o maior da Europa — deverá consumir entre 10% e 20% da energia produzida em Portugal e estima empregar 1.200 pessoas diretamente e 8.000 indiretamente.
Uma regulação mais ágil não significa ausência de regulação. Pelo contrário: o crescimento substancial da produção e do consumo energético só será sustentável com planeamento integrado e visão estratégica.
Tudo isto conduz inevitavelmente ao tema da educação. As universidades enfrentam hoje pressão para redesenhar currículos com horizontes de três anos, num contexto em que ninguém consegue antecipar com clareza o que acontecerá nesse período. As empresas esperam que os diplomados saiam das faculdades fluentes em IA, ao mesmo tempo que necessitam de requalificar a sua própria força de trabalho.
No tecido empresarial português — composto maioritariamente por empresas familiares — muitas organizações não dispõem dos meios, ou por vezes da predisposição, para realizar essa transformação. Torna-se, por isso, essencial um esforço coordenado da educação pública e das políticas de formação.
Que competências serão, então, determinantes? Tal como temos duas mãos, o profissional das próximas décadas terá de ser altamente fluente em IA e, simultaneamente, plenamente competente sem ela. A tecnologia comporta riscos — incluindo ao nível da sua disponibilidade —, mas oferece ganhos de produtividade impossíveis de ignorar, sob pena de obsolescência.
Mais do que isso, o fator diferenciador será humano: pensamento crítico, capacidade de avaliação e decisão, e aptidão para orientar o seu “companheiro digital”.