Quando é que o carro vai conseguir perceber que já não estamos em condições de conduzir?
Pense-se num homem de 78 anos, numa aldeia do interior. A consulta é na cidade, a 40 quilómetros. Não há autocarro que o leve, e a filha trabalha longe. O carro, para ele, não é um luxo. É a forma de continuar a ser dono do seu dia.
Estamos a viver mais anos e queremos viver esses anos com autonomia: trabalhar, sair, viajar, visitar a família. Por isso, quando alguém deixa de poder conduzir, não perde só uma capacidade. Perde uma parte da liberdade.
Falamos muito dos carros autónomos, aqueles que conduzem sozinhos. É uma ideia fascinante, mas talvez estejamos a olhar para a pergunta errada.
E se o próximo passo não fosse um carro que conduz por nós, mas um carro que percebe quando nós já não conseguimos?
Um carro que reconhece sinais de sonolência, de distração ou de um mal-estar súbito. Que avisa. Que reduz a velocidade, mantém o veículo em segurança e, se for preciso, pede ajuda. Não para nos substituir, mas para nos proteger.
E isto não é só para os mais velhos. Qualquer um de nós pode adormecer ao volante, sentir-se mal ou ficar sem reação por uns segundos. Mas numa sociedade que envelhece, a questão ganha outro peso. Envelhecer não é só uma questão de saúde. É também uma questão de mobilidade, de autonomia e de dignidade.
Talvez o futuro do automóvel não esteja em dispensar o condutor, mas em acompanhá-lo.
E isto já aconteceu antes. Houve um tempo em que o cinto de segurança era um extra. Depois passou a ser regra, e hoje ninguém imagina um carro sem ele, seja um utilitário simples ou um topo de gama. O mesmo aconteceu com o ABS e com os airbags: o que parecia caro e sofisticado tornou-se o mínimo aceitável. A tecnologia dentro dos carros não pára de crescer e, com a escala, os custos descem. Um sistema que perceba quando o condutor já não está em condições de conduzir pode seguir o mesmo caminho: não um privilégio de quem pode pagar mais, mas parte do que um carro, por definição, deve ser.
Por isso fica a pergunta que a indústria deveria estar a fazer: quando é que o carro vai conseguir perceber que já não estamos em condições de conduzir?
Porque a verdadeira inovação pode não estar em tirar o ser humano do volante. Pode estar em garantir que, no dia em que precisarmos, o carro está lá para cuidar de nós, em todos os carros, e não apenas nos mais caros.