Há uma contradição silenciosa a crescer em Portugal. Uma geração inteira quer empreender, mas recusa aprender a vender.
E sem perceber que estas duas coisas são inseparáveis, estão a construir castelos sem alicerces.
Não é um problema de ambição. É um problema de mentalidade. Esta geração cresceu convencida de que vender é uma ocupação para quem não conseguiu fazer mais nada. A venda direta ficou associada à imagem do vendedor porta a porta, ao incómodo, à pressão. Ninguém quer ser isso. E então fugiram. Foram para os cursos, para as licenciaturas, para os mestrados. Construíram CVs extensos e identidades digitais cuidadas. Mas nunca aprenderam a olhar alguém nos olhos e convencê-lo de alguma coisa.
O que ninguém lhes disse é que essa competência serve para tudo.
Se vais a uma entrevista de emprego, estás a vender-te. Se queres convencer um investidor, estás a vender uma ideia. Se precisas de recrutar alguém para a tua empresa, estás a vender um projeto de vida. Se queres comprar uma casa abaixo do preço de mercado, estás a negociar, que é vender ao contrário. Não há um momento relevante na vida profissional de uma pessoa que não envolva, de alguma forma, saber vender.
E depois há o paradoxo que nos fascina há quinze anos: todos os que fogem das vendas acabam por trabalhar para quem vende.
Nós, enquanto empresários, vendemos todos os dias. Fechamos parcerias, apresentamos projetos, convencemos clientes, recrutamos talento. Um empresário que não sabe vender não é um empresário. É alguém com uma ideia à espera que alguém a descubra.
A culpa não é só deles. As redes sociais criaram a ilusão de que o sucesso chega sem contacto humano direto. Que é possível construir um negócio do sofá, com a ideia certa e a estratégia digital certa. E em casos raros, isso acontece. Mas a regra continua a ser outra: negócios crescem quando pessoas convencem outras pessoas. Cara a cara. Com confiança, com resiliência e com a capacidade de ouvir um não e voltar no dia seguinte.
O problema é que não se aprende a vender num curso. Aprende-se na rua. No contacto com pessoas de todas as idades, backgrounds e humor. Na repetição, no erro, na rejeição e na recuperação. É uma bagagem que só se constrói com experiência direta. E esta é exatamente a competência que mais falta na geração que mais quer empreender.
A inteligência artificial vai automatizar muita coisa. Mas não vai fechar negócios por ti. Não vai criar confiança onde ela não existe. Não vai substituir o momento em que duas pessoas se sentam à mesa e decidem trabalhar juntas.
Quem perceber isto primeiro, leva vantagem. Sempre.